O ABOLICIONISTA

“Um salve para os jovens que querem mudar o Brasil”
Coluna Semanal de Eduardo Fagnani, membro do Plataforma Política Social, para a Revista Vaidapé.

O Abolicionista

Formalmente, o Brasil aboliu a escravidão no século 19. Mas a escravidão não foi abolida nos corações e mentes de muitos membros da nossa elite. Exemplos disso estão por toda a parte, nos restaurantes, nos aeroportos, nas filas de supermercados. Ligue a TV e assista o patético “Mulheres Ricas”. Leia os jornais e se depare com a “festa de tomates” protagonizada pelo filho de conhecido bilionário brasileiro ou com as “oficinas de costura” terceirizadas por marcas de grife famosas que exploram o trabalho escravo dos imigrantes bolivianos. São cenas explícitas da arrogância e prepotência de uma minoria diante das aflições dos remediados. Algumas das muitas caras do Brasil atual e sua elite retrógrada
A mobilidade social dos últimos anos, ao invés de ser festejada pelos que torcem pelo país, tem sido contestada pelos bem nascidos. “Ser rico perdeu a graça” escreveu a colunista de importante jornal de São Paulo. “Bom mesmo é possuir coisas exclusivas, a que só nos temos acesso; se todo mundo fosse rico, a vida seria um tédio”, afirmou.
A recente ampliação dos direitos sociais das empregadas domésticas deixaram homens e mulheres ricas à beira de um ataque de nervos. A conhecida “PEC das Domésticas”[1] assegura a esses trabalhadores um conjunto de direitos trabalhistas e sindicais básicos concedidos pelos países civilizados no início do século 20. Ao todo, são 16 novos direitos que hoje já são assegurados aos demais trabalhadores urbanos e rurais contratados pelo regime da Consolidação das Leis do Trabalho.
A medida tem alcance notável. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT) o Brasil é o País com o maior número de empregados domésticos no mundo: 7,2 milhões de pessoas, dos quais 6,7 milhões são mulheres e 504 mil são homens. Dados da PNAD/2011 revelam que o “serviço doméstico” representa 15,8% do total do universo do emprego feminino no Brasil, perdendo apenas para “Comércio” e “Educação, saúde e serviços sociais” (respectivamente, 17,8% e 16,9% do total).Image

A festa do tomate do filho do bilionário
Alheia ao avanço do marco civilizatório – que veio com atraso secular –, a referida colunista voltou à carga: “Quem vai empregar uma jovem com dois filhos pequenos, se tiver que pagar pela creche e educação dessas crianças? É desemprego na certa”. Mais grave foi a reação do escritor que teve a insensatez de escrever o seguinte: “O fim da escravidão {das domésticas} aboliu o bom senso, e conseguirá trazer perdas para patrões e empregados, democraticamente. Mas os populistas serão felizes para sempre” .
O processo de abolição da escravatura no Brasil foi longo e gradual – e, pelo visto ainda não terminou. Ele começou com a Lei Eusébio de Queirós (1850), seguida pela Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei dos Sexagenários (1885) e culminou com a promulgação da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888. O Brasil foi o último país do continente americano a abolir formalmente a escravatura. Mas, após 125 anos, ela ainda permanece viva no imaginário de tantos escravocratas do século 21.
O pensamento e a luta de Joaquim Nabuco (1849-1910) permanecem atuais nos dias que correm. Em 1881, desolado com os rumos do movimento abolicionista, Nabuco escreveu ao amigo Sancho de Barros Pimentel que “felizmente não é mais o imperador que está em causa, não é dele mais que nos podemos queixar”. Para ele, a queixa maior recaia na própria sociedade e sua mentalidade retrógrada. Temos de nos queixar “de nós mesmos”, sublinhou. E arrematou: “triste e infeliz é a nação onde a escravidão tem triunfos aos quais todo mundo se associa com alegria selvagem”.[2]
Se você é jovem e quer mudar o Brasil, comece com a abolição da escravatura do século 21. Conheça mais sobre a luta e obra de Joaquim Nabuco. Inicie com a leitura do clássico “O abolicionismo”.[3]
______________________________________[1]Emenda Constitucional n.72 de 2/4/2013.
[2] Nabuco, Joaquim. O abolicionismo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: São Paulo: Publifolha, 2000, pp.XII (Os grandes nomes do pensamento brasileiro).
[3]Idem.
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