Por uma Virada na Cultura Paulistana

Por Paulo Motoryn, jornalista e colaborador da Revista Vaidapé.

As 24 horas da Virada Cultural em São Paulo fazem a cidade ferver. Para qualquer amante da boa música, do bom teatro e das artes em geral, o evento é animador.

Dos artistas quase anônimos aos já consagrados, a programação é eclética – agrada de gregos a troianos, ou melhor, de pagodeiros a eruditos – e já entrou no coração do paulistano como um evento que representa a intensa diversidade cultural da cidade em um efervescimento contagiante.

Promovida desde 2004 pela Prefeitura de São Paulo, a Virada surgiu por inspiração na “Nuit Blanche”, de Paris, que agita anualmente a capital francesa, com atrações que também seguem madrugada adentro.

O frisson pelos poucos dias que faltam para o evento paulistano já agita o mercado de aplicativos para smartphones com a programação, reserva diversas páginas nos cadernos de jornalismo cultural e concentra as atenções da opinião pública.

A única reflexão feita acerca da grandiosidade do evento só discute a possibilidade de haver batedores de carteira no centro de São Paulo assaltando aqueles cidadãos desacostumados com a região mais antiga de sua cidade e comumente aversivos às multidões e grandes aglomerações.

É evidente que a segurança do evento tem de ser garantida pelo poder público, mas há questões muito mais relevantes para pensar ao percebermos que é justamente na Virada que a Prefeitura concentrou a imensa maioria de seus esforços e investimentos nos últimos anos.

A Virada simboliza o viés das políticas públicas culturais em São Paulo nos últimos anos: focadas apenas nos grandes eventos e sem enxergar a cultura como fator emancipador, que deve ser trabalhada por políticas que a incorporem e a naturalizem na vida cotidiana dos paulistanos.

Apesar de gratuita, a Virada é emblemática justamente por ter um cronômetro que aponta seu início e fim. O andar dos ponteiros confirma o entendimento errôneo do poder público sobre cultura, como algo finito, fragmentado e propulsionado por megaeventos.

Como veículo alternativo que pretende caminhar ao lado e promover a cultura independente, a Vaidapé posiciona-se contra a postura megalomaníaca das políticas públicas culturais paulistanas e brada por um novo entendimento de cultura, em que as demandas e necessidades de todos os cidadãos de São Paulo devem ser atendidas.

Por meio de incentivos aos saraus livres que já se espalham pelas periferias às duras penas e que seriam importantes também no centro expandido, pela criação de centros culturais permanentes nas periferias e de espaços públicos disponíveis para práticas culturais, além de uma série de outras iniciativas a serem discutidas com a sociedade civil, o poder público deve se atentar para o fato de que a cultura não se resume somente em 24 horas ou em megaeventos – que logicamente também tem sua relevância, apesar de não representarem a noção de cultura que deveria ser prioridade, aquela que se concretiza no cotidiano, que se naturaliza, que transforma. Precisamos mais do que apenas um dia para sentir o “gostinho” de nossa diversidade, devemos vivê-la o quanto antes.

Devemos curtir a Virada, mas sem glorificar a atual política pública cultural paulistana, pela qual ainda teremos de lutar muito para que evolua.

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