Machismo sem Fronteiras

Vaidapé inicia publicaçāo de série especial sobre a questão de gênero com uma análise dos desdobramentos da Primavera Árabe e do enraizamento da cultura machista pelo mundo.

MACHISMO SEM FRONTEIRAS

Por Letícia Naísa, Lu Sudré e Marcela Millan*

A “Primavera Árabe” foi uma onda de protestos que se espalhou pelo Oriente Médio e norte da África, que derrubou quatro ditadores em um ano, fazendo o povo sair às ruas e lutar pela democracia. Em um movimento legítimo, a democracia e a liberdade foram alcançadas por meio da massa, das mãos dos trabalhadores e estudantes, e isso é significativo para a história mundial. Porém, mesmo quando um país passa por um processo como esse, outras mazelas sociais ainda se perpetuam, compondo um problema estrutural.

Independente do sistema político, seja um governo democrático representativo, um governo de direita ou de esquerda, o comportamento machista ainda existe. Luta-se pela democracia, pois todos têm direitos de votar e participar ativamente na escolha de seu governante, mas os demais direitos das mulheres, mais uma vez, são deixados à sombra da primavera, acompanhados de um debate conservador e raso, que ignora a real existência do machismo e do sexismo em muitas áreas.

Superficialmente, quando imaginamos um país como o Egito – onde o presidente Hosni Mubarak, que estava no poder havia 30 anos, renunciou dezoito dias depois do início das manifestações populares – pensamos que ele se apresentaria como um lugar onde a liberdade estaria instaurada para todos os gêneros. Infelizmente, não é bem assim. A Praça Tahrir, que se tornou um símbolo da Primavera Árabe egípcia, foi “palco” de uma tentativa de abuso sexual de uma jornalista francesa, que estava em um link, ao vivo. Com homens ao redor, ela foi coagida até sair da frente da câmera.

Segundo o site espanhol “La Sexta”, mais de 80% das mulheres egípcias já sofreram abuso sexual pelo menos uma vez. A repórter dos Estados Unidos, Lara Logan, correspondente da CBS durante a caída de Murabak, afirma ter vivido uma verdadeira agonia, pois também sofreu uma tentativa de abuso sexual. “Quando me tiraram a roupa, lembro de olhar para cima e ver como estavam fotografando com seus celulares”, relatou a jornalista.

Em abril desse ano, José Antonio Lima escreveu uma matéria para a revista Carta Capital, cujo título era: “A Primavera Árabe vai promover o direito das mulheres?”. A matéria desenvolveu-se analisando um artigo publicado pela jornalista egípcia-americana Mona Eltahawy, na edição de maio/junho da revista Foreign Policy. O artigo, chamado “Porque eles nos odeiam?”, causou muito alvoroço entre as mulheres do Oriente Médio. Nele, Mona atribui a delicada e desigual situação das mulheres no Oriente Médio à mistura, tóxica, entre a religião e cultura, somada a uma guerra entre homens e mulheres. Segundo a jornalista, a revolução das mulheres tem de ser à parte, uma revolução particular à Primavera Árabe e isso só acontecerá quando os ditadores machistas, sejam eles cobertos por “democracia” ou não, forem derrubados. Afinal, eles são ditadores nas “mentes e nos quartos”.

A questão levantada é se o embrião de democracia, produzido pela Primavera Árabe, fará florescer no Oriente Médio os direitos das mulheres. Em seu artigo, Mona tenta comprovar a misoginia no mundo árabe com uma série de exemplos de violações cometidas contra as mulheres. Ela cita, por exemplo, a proibição das mulheres dirigirem na Arábia Saudita. Debate leis de países coniventes com violência doméstica contra as mulheres em “casos especiais” e lembra que o assédio sexual é uma prática endêmica na região. Mona cita outras violações ainda mais atrozes, como a mutilação genital, proibida, mas ainda muito comum no Egito; os “testes de virgindade”, também realizados no Egito; as permissões de casamentos entre homens adultos e meninas de 10 ou 11 anos no Iêmen e na Arábia Saudita; ou os casamentos entre vítimas de estupros e seus algozes.

O jornalista José Antonio Lima conclui sua matéria afirmando que “No Egito, no Brasil, na Europa ou no Japão, a histeria e a criação de uma guerra de gêneros contribui pouco para equiparar mulheres e homens. A única maneira de fazer isso de forma duradoura, em qualquer país do mundo, é institucionalizar os direitos das mulheres e colocá-los sob a proteção de estados democráticos, longe dos ataques de quem pretende fazer a sociedade, qualquer sociedade, retroceder”.

O machismo sem fronteiras e uma onda de casos de estupro truculentos fez com que mídia fosse obrigada a dar atenção à violência contra as mulheres. Em meados de dezembro do ano passado, um brutal estupro coletivo em Nova Déli, conhecida como “Capital do Estupro” na Índia, gerou uma revolta da opinião pública. Uma jovem de 23 anos foi abusada por cinco homens após ser obrigada a descer do ônibus em que estava. Devido a enorme violência e traumas, tanto físicos quanto psicológicos, ela morreu duas semanas após o ataque, o que provocou protestos nas ruas de todo o país, além da repercussão internacional e promessas do governo de punições mais duras aos criminosos.


(Protestos silenciosos em Mumbai – foto reprodução)

O ocorrido colocou em debate a situação de opressão contra as mulheres na Índia e no Oriente Médio, principalmente, evidenciando que há uma falta de políticas públicas na área da saúde e segurança para as mulheres, pontuando também a opressão de gênero baseada na cultura e religião dessas regiões.  Mesmo com o grande impacto e publicação do caso, em menos de um mês uma garota de 11 anos – que havia sido sequestrada em agosto do ano passado – foi encontrada após ser estuprada e agredida por seis homens. A garota está em estado grave e já foi submetida a mais de 14 operações na tentativa de reconstruir a região do períneo.

*Colaboração para a Revista Vaidapė – Reportagem publicada originalmente no Contraponto, jornal laboratório do curso de jornalismo da PUC-SP.

A SÉRIE CONTINUA…

Na próxima quinta-feira, 30, confira a  segunda reportagem da série sobre feminismo, com uma discussão sobre os casos de estupro nos Estados Unidos. No sábado, 01, a terceira reportagem discutirá o caso da estudante Viviane Alves, que suicidou-se após ter sido vítima de abuso sexual durante a festa de final de ano da empresa em que estagiava.

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