Os Estados Unidos e a “Cultura do Estupro”

Na segunda parte da série especial sobre a questão de gênero, entenda como os casos de estupro nos Estados Unidos não estão dissociados das características da própria sociedade americana.

Sem títuloPor Letícia NaísaLu Sudré e Marcela Millan*

Na America a situação não é diferente. Em agosto de 2012, por exemplo, uma adolescente que estava em Steubenville, durante as férias de verão, foi violentada por dois garotos – Malik Richmond, de 16 anos e Trent Mays, da mesma idade. O mais espantoso era o fato dela estar inconsciente quando isso ocorreu – algo que não foi o suficiente para fazer com que as pessoas que estavam ao redor se aproximassem para impedir o estupro. Diferentemente da comoção que seguiu-se ao caso da Índia, houve uma tentativa de encobrir o ocorrido em Steubenville, e o abuso só veio à tona com a movimentação de blogueiros, incomodados com os vídeos e fotos que foram postados, da vítima, na rede.

Quando analisamos a cobertura dos meios de comunicação americanos sobre os casos da Índia e Steubenville, fica evidente a diferença de tratamento que existe entre cada um deles. No primeiro, a Índia é retratada como um lugar de cultura machista e misógina, que dá suporte ou até justifica o estupro. Steubenville, entretanto, é trazido como um caso isolado nos Estados Unidos e a culpa recai apenas sobre os rapazes envolvidos. Há, então, uma tentativa de dissociar esse estupro de toda a cultura norte-americana. São apenas os adolescentes envolvidos no caso que são chamados de “sociopatas” e pervertidos. Apenas eles são o problema, sem nada relacionado com a criação ou influência da sociedade.

Recentemente, a renomada blogueira americana, Jessica Valenti, escreveu: “É hora de reconhecer que a epidemia de estupros nos Estados Unidos não é apenas um crime em si, mas um reflexo de nossa ignorância cultural e política própria. O estupro é tão americano quanto a torta de maçã”. De fato, enquanto a mídia tenta encobrir esse problema, o que se vê é uma sociedade permeada pela cultura do estupro. Há uma normalização do sexismo hostil, que se apresenta como o “aceitável”. Tudo que parece contradizê-lo é visto como vulgar e a mulher, privada de agir segundo seus gostos, é colocada em uma posição de culpa frente aos abusos sexuais, legitimando, assim, o estupro.

Não é sem motivo que a primeira imagem que nos vem à cabeça, quando se fala de estupros, é a de um homem atacando uma desconhecida em uma esquina qualquer, a mulher vestindo saia curta, provocante, e saltos altos. Esse é o cenário clássico do abuso em nosso imaginário e, na realidade, é o que menos corresponde ao que acontece. Pesquisas indicam que apenas 30% dos casos de estupro nos Estados Unidos ocorrem, de fato, assim. Na grande maioria das vezes, eles são cometidos por conhecidos da vítima, que têm maior intimidade e confiança dela. O que se percebe com isso é que há  um reflexo do pensamento machista sobre o assunto, que apresenta a ideia de que certos comportamentos femininos levariam ao estupro, baseando-se em pressupostos completamente errados. Na cultura do estupro, o comprimento das roupas, quantidade de maquiagem, bebida ou qualquer outro fator contrário a imagem de mulher submissa seria um convite ao sexo. Com isso, mesmo que casos de abusos entre desconhecidos não representem a maioria, eles são, de alguma forma, justificados pela própria sociedade, que dirá que a responsável pelo ocorrido é a mulher, provocativa e tentadora.

Psicólogos da Universidade de Middlesex e da Universidade de Surrey fizeram, em 2010, uma pesquisa que apontou que são poucas as pessoas que conseguem diferenciar comentários feitos por estupradores condenados de trechos de revistas masculinas americanas. A maioria das pessoas que participou do estudo não pôde distinguir a origem das citações, que faziam descrições de mulheres e seus comportamentos. Dr. Horvath, pesquisador-chefe da Universidade de Middlesex, disse em uma entrevista que houve uma surpresa nos resultados da pesquisa. “Os participantes se identificaram mais com as citações de estupradores, e isso preocupa”.

O estudo utilizou citações das quatro revistas masculinas com maior circulação. Nelas, encontravam-se trechos como: “Rímel escorrendo pelo rosto quer dizer que ela acabou de chorar, e é provavelmente sua culpa… Mas você pode animar a tristonha com um pouco de entra e sai” e “Garotas são que nem massa de modelar, você as esquenta e pode fazer tudo o que quiser com elas”.

*Colaboração para a Revista Vaidapė. Reportagem publicada originalmente no Contraponto, jornal laboratório do curso de jornalismo da PUC-SP.

 SÉRIE CONTINUA… No sábado, 01, a terceira reportagem da série discutirá o caso da estudante Viviane Alves, que suicidou-se após ter sido vítima de abuso sexual durante a festa de final de ano da empresa em que estagiava. Na última terça-feira, 28, a primeira parte da matéria especial analisou o machismo no desenrolar da Primavera Árabe.

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One response to “Os Estados Unidos e a “Cultura do Estupro”

  1. A “renomada blogueira americana” Jessica Valenti está redondamente enganada quando fala de uma epidemia de estupro nos EUA. Segundo as estatísticas oficiais de crimes cometidos naquele país, os estupros caíram 58% entre 1995 e 2010. Em “The better angels of our nature” Steven Pinker fala de uma redução de 80% nos últimos 40 anos. Os números sobre o perfil do estuprador também estão errados: 78% dos agressores conhecem suas vítimas. (http://www.bjs.gov/index.cfm?ty=pbdetail&iid=4594)

    Parte do trabalho do jornalista é checar os números para ver se ele batem.

    Abraços, Rodolfo.

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