Viviane Alves: PRESENTE!

Na última reportagem da série sobre a questão de gênero, entenda como a imprensa silenciou um caso de assédio com fins catastróficos e que representa a dor de muitas mulheres no Brasil e no mundo

MACHISMO SEM FRONTEIRAS

Por Letícia Naísa, Lu Sudré e Marcela Millan*

No Brasil, o dia 3 de dezembro de 2012 representou uma derrota para o movimento feminista. Viviane Alves, estudante de Direito da PUC-SP, suicidou-se após ter sido vítima de abuso sexual durante a festa de final de ano da empresa em que estagiava, o grande escritório Machado, Meyer, Sendacz, Opice. Depois de ter tomado apenas duas taças de champanhe, a moça contou à mãe que não se lembrava de mais nada, somente alguns flashes da viagem de volta para casa, quando teria sido violentada. Ela pegou carona de táxi com um colega do escritório.

O caso ganhou repercussão nos meios de comunicação feministas, mas não foi digno de alvoroços nos grandes jornais do Brasil. Algumas notas nos grandes portais online apareceram e talvez alguns minutos no Jornal Nacional, mas as investigações seguiram e nada mais se ouviu dizer sobre Viviane. O Coletivo Feminista Yabá do curso de Direito da PUC-SP soltou uma nota de solidariedade em sua página no Facebook, apontando a importância da luta e da organização das mulheres contra esse tipo de violência.

Apesar disso, ainda é difícil casos de violência e assédio sexual contra mulheres ganharem destaque nas redações. De acordo com a professora do curso de jornalismo da PUC-SP, Anna Feldmann, o silêncio em torno disso “se explica pelas inúmeras implicações de ordem familiar, psicológica e social que ele acarreta”. Quando divulgados, esses casos tendem a ser individualizados e são tratados de forma descritiva e pontual, além disso, a vítima muitas vezes é quem leva a culpa.

Principalmente a imprensa brasileira direcionada para o público feminino mostra um descaso grande quando se trata de violência contra a mulher. “Salvo algumas exceções, as revistas contribuem para reforçar o pessoal em detrimento do social, incentivam o individualismo e o consumismo, evitando assim qualquer polêmica e ou posicionamento direto. Se estivermos de fato vivenciando tempos modernos, a descrição dos fatos e a reflexão sobre os tabus deveriam estar presentes em toda a mídia e, principalmente, neste segmento do jornalismo”, afirma a professora.

Para ela, mesmo com todo o discurso sobre a modernidade, não nos livramos totalmente da mentalidade pré-histórica, que procura vigiar e controlar o corpo da mulher com base na monogamia e no patriarcado. “Por mais que os discursos da mídia tentem demonstrar a emancipação das mulheres no século 21, enxergamos na omissão dessas matérias um descompasso entre o que se publica e o que de fato a mulher vivencia”, conclui.

*Colaboração para a Revista Vaidapė. Reportagem publicada originalmente no Contraponto, jornal laboratório do curso de jornalismo da PUC-SP

FIM DA SÉRIE
Na última terça-feira, 28, a primeira parte da matéria especial analisou o machismo no desenrolar da Primavera Árabe. Na quinta-feira, 30, você conferiu uma análise da cultura do estupro nos Estados Unidos.

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