A Cara do Vilão

Por Marco Bellotti, colaborador da Revista Vaidapé e estudante de Gestão Ambiental pela Escola de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ-USP).

Fotos por Erick Barros.

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Em 1964, o Brasil foi vítima de um golpe militar. Instaurou-se um Estado totalitário e o que se seguiu foram anos de extrema repressão social (por meio do controle midiático e de massas populares), maquiados por um pseudo-avanço. Em linhas gerais, aos olhos do novo Estado éramos apenas engrenagens de uma assustadora máquina, tristemente apelidada de progresso.

Mas não é difícil de se imaginar que esta maquiagem durou pouco, e junto com a insatisfação do nosso povo cresceram as práticas de repressão. A proteção e a “prosperidade” do Estado eram fins que não excluíam meios, e o povo tinha apenas uma opção: LUTAR. Era preciso lutar pelos nossos direitos como cidadãos e como seres humanos. E nós o fizemos. Movimentamos o país em 1984 com o movimento das Diretas Já, e em 1985 o Brasil voltou a ser uma democracia. Vencemos.

Entretanto, analisando o cenário político social de hoje, fica difícil lembrar a nossa gloriosa vitória. Ainda mais em meio a socos e ponta pés distribuídos a rodo pela Polícia Militar. Numa trama que em muito se assemelha ao período ditatorial.

Não é novidade para ninguém, ou pelo menos não deveria ser, que o Governo subiu recentemente as tarifas de ônibus e metrô de 3,00 reais, para 3,20 – sem promover nenhuma melhoria num sistema sucateado e que mais desatende do que atende as necessidades populares. Matando toda e qualquer esperança de um Estado que realmente se importe com as carências e necessidades de seu povo. E, como não poderia deixar de ser, nós nos organizamos contra tamanho desrespeito. Já foram realizados quatro grandes atos contra o aumento, e em todos houve repressão popular por parte da polícia (e, em última instância, do Estado). Dentre as 4 manifestações, a realizada na última quinta (13/06) me espantou mais.

Eram milhares caminhando pelo centro de São Paulo, entoando gritos de resistência e união que a muito não se viam no Brasil. A multidão era grande e parecia se auto regular, recriminando espontaneamente os pequenos atos de vandalismo realizados por grupos ainda menores. Éramos um, era lindo!

Com exceção do helicóptero que nos observava de longe, não se via policiais. Não se via confusão. Uma sensação de paz e força pairava no ar – ao som de “quem não pula, quer tarifa!”. Eu já começava a estranhar a calma com que tudo caminhava quando vimos, bloqueando nosso caminho pela Consolação em direção a Av. Paulista, a Tropa de Choque, pronta para fazer o que fazem melhor. Rapidamente, um pedido generalizado de calma foi entoado, os gritos de “quem não pula, quer tarifa!” foram subitamente substituídos pelos de “sem violência!”.

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“Protegidos” pelo nosso expresso desejo de uma manifestação pacífica, continuamos nossa caminhada. Mas nossa proteção durou pouco. A resposta dos policiais à nossa voz não veio em forma de diálogo, mas sim em forma de bombas de gás lacrimogêneo, atiradas contra a multidão. A procura por vinagre e segurança cresciam, mas ambos eram escassos devido à ação das forças policiais – que não satisfeitas em atacar seu próprio povo, detiveram e prenderam os manifestantes que portavam vinagre, no intuito de impedir que a população se protegesse.

Nesse momento, o movimento se dividiu em algumas frentes, espalhadas pelo centro. Agarradas aos ideais de direito de protesto e liberdade de expressão, as multidões agora perambulavam pela cidade, fugindo das forças opressoras e bradando seus gritos de igualdade e justiça. Em meio à confusão, muitos foram feridos, assim como muitos foram os detidos – entre eles jornalistas que estavam apenas realizando seu trabalho.

As milhares de pessoas que foram às ruas protestar contra o aumento das tarifas, agora reclamavam seu direito de protestar. A ação policial (leia-se estatal) no 4º grande ato contra o aumento das tarifas, de nada serviu ao propósito de desmerecer o união popular – taxando seus integrantes de vândalos –, ou ao de desmembrar e enfraquecer o movimento. Muito pelo contrário, o ocorrido na noite da última quinta serviu a um propósito muito maior: evidenciar a dura realidade em que vivemos. Uma realidade onde o Estado se sente no direito de “descer o pau” em qualquer um que vá contra suas vontades e interesses; onde o Estado não só não liga para as necessidades do povo, como também faz de tudo para ignorar e suprimir a voz do mesmo (seja na base da força bruta, seja por meio da manipulação da mídia); enfim, uma realidade que lembra muito os tempos de Ditadura Militar.

Ontem, o Estado abriu mão de seu maior artifício de segurança: a ignorância de seu povo. Ao atacar manifestantes pacíficos por motivos ditatoriais, o governo deu as caras como o vilão totalitário que é. O Estado se desprotegeu, e o povo está mais motivado do que nunca. Agora que sabemos que a rua foi tomada de nós, vamos tomá-la de volta! Afinal, a rua é nossa! O país é nosso! E o Estado é igualmente nosso! O povo tem poder e chegou a hora de exercê-lo, somos fortes quando um! VEM PRA RUA!!!

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