A NÃO-FICÇÃO DE MAIS UM NA MULTIDÃO

Por Gabriel Mielnik, colaborador da Revista Vaidapé e estudante de Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).

Fotos por Vinícius Pereira.

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13 de junho de 2006. Ainda no ensino médio, numa excursão com a escola, visitamos o centro de São Paulo. Um dia como qualquer outro, não fosse pela manifestação que tomava parte em meio à rica história de nossa cidade. Algo em torno de no máximo 50 jovens reivindicavam, com cartazes e tambores, o fim das catracas em nosso transporte público.

Dispersamo-nos do grupo da escola e perguntamos àqueles manifestantes quem eram, o que propunham. Eram o Movimento Passe Livre, no que me parecia uma busca pela utopia, condenados à indiferença da sociedade. “Transporte público de GRAÇA?”, indaguei, “Exatamente”. Voltei pra casa pensando em como estávamos fadados à desesperança, ao descaso, ao radicalismo que não nos adiciona.

Assim como eu, o Movimento amadureceu. Assim como eu, pensaram em propostas, em causas, em soluções, em luta. Cresci em meio a meus pensamentos de 7 anos atrás, do congelamento social, do abandono de nossos direitos como cidadãos, da real função do Estado em nossas vidas. Estudei as políticas, entendi como as coisas funcionam e como o buraco é muito, mas muito mais embaixo. Acompanhei os “riots” da Espanha, de Estocolmo, Atenas, Turquia, França, Inglaterra. O Mundo efervescia. Sempre fui um partidário do debate, da conversa, do câmbio de ideias. Nesses sete anos conversei, critiquei, mas sobretudo escutei. Me afligia o contato com ideais e movimentos massificados, sempre permeados pela demagogia e pelo partidarismo político inócuo.

13 de junho de 2013. O fatídico dia do 4o Grande Ato Contra o Aumento da Tarifa, protagonizado pelo Movimento Passe Livre, aquele mesmo, de 50 manifestantes, agora um pouco maior: aproximadamente 20 mil pessoas tomariam as ruas do centro da cidade de São Paulo. Ainda não havia decidido minha opinião sobre as manifestações. Acompanhava os debates e as informações pela rede, pela mídia independente, por meus amigos e também pela absurda grande mídia, por contraposição. Decidi ver por conta própria.

Às 18h, juntei-me aos meus 20 mil companheiros em frente ao Theatro Municipal, numa das cenas mais lindas que já presenciei em meus meros 21 anos de vida. Eram tantas cores, sons, bandeiras de todos os ideais possíveis, unidos contra o descaso.

A essa altura, já estava claro que não se tratava de 20 centavos. Tratava-se do brado, da iniciativa, dentre tantas gerações, absolutamente mobilizadas com a gestão de nossos espaços, de nossa cidade, de nosso bem estar. Éramos um. Éramos livres de partidos, de ideologias, de demagogias e proselitismos. Nossa causa é nobre e nossos meios, pacíficos. Encontrei-me nas tantas juventudes segregadas pelas barreiras invisíveis de nossa cidade, de todas as cores, credos, classes sociais, algo que até então me parecia impossível e que a grande mídia teimava em admitir. Marchamos em direção à Avenida Paulista, passando pela Praça da República. Cantamos, dançamos, nos sentimos vivos. Naquele momento, éramos a urbanidade em carne e osso, unida. As pessoas acenavam das janelas, sentíamos no peito as rufadas da bateria. Orgulho. Eu existo e exijo respeito.

No começo da Avenida Consolação, a marcha cessa. Muitas sirenes e luzes refletem no horizonte incomensurável de tantas almas e cabeças pensantes. Continuamos a cantar e pular, esperando. A bateria silencia. Gritos e assovios do começo ao fim do bloco. Empurra-empurra. Sufoco. “A POLÍCIA TÁ VINDO!”, berravam. Poucos segundos depois, um destacamento da tropa de choque posiciona-se contra a parede bem ao nosso lado, enquanto pessoas corriam com medo no que poderia ter se tornado um pisoteamento generalizado. Nesse momento, o tempo parou. Tudo que acontecera até agora tornou-se alheio aos próximos acontecimentos. Esperando pelo que viria, a palavra de ordem era “SEM VIOLÊNCIA!”. O tempo disparou, junto com as armas e bombas da Polícia Militar. Instaurara-se o caos. Enfrentava-nos tudo que estávamos lutando contra. Não existo mais: sou indiscriminadamente mais uma vítima na guerra do Estado contra nossas reivindicações. Corri por proteção em meio a bombas de gás e de efeito moral, tentando desviar da mira das armas “não-letais” da PM.

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Numa rua de acesso à Avenida, persistimos. A polícia disparava e a resistência respondia, pacífica ou não. Um policial militar de moto, ao passar em frente a tropa de choque que atirava sem bem saber no que, derrapou quando uma das bombas explodiu em sua frente. Junto comigo, os mascarados manifestantes sobem em fúria atrás do policial caído. Queriam matá-lo, era hora da vingança: Engano-me. Juntos, erguemos a moto do policial, coloco a mão em seu ombro, olhando em seus olhos, e lhe pergunto se está tudo bem, enquanto a tropa de choque explode tudo ao seu redor a poucos metros de nós. Ele me encara estupefato, não entendia, dissociação cognitiva, como seria possível tantas mãos estendidas em meio à tanta violência. Pois é, ainda nos entendemos como seres humanos.

Erguiam-se as barricadas com o que se podia achar. Para mim, resistir seria inútil. Éramos pouquíssimo equipados materialmente para lidar com tanta truculência e descaso pela vida humana, mas o bom senso de muitos falou mais alto. Eu também queria resistir. Queria mata-los. Queria machucar todos que machucaram meus irmãos, meus companheiros, meus amigos. Mas o que pude fazer, foi ajudar. Um fotografo quase desmaiando pela inalação do gás lacrimogêneo passa por mim e o ajudo com um pouco do vinagre que eu ainda tinha em meu lenço. A polícia nos cerca por trás. Corro.

Chego então à uma dissidência aglomerada do bloco principal, com aproximadamente 1/3 da manifestação. Policiais militares parados ficam de guarda a poucos metros. Completamente cansado e tentando entender tudo aquilo, passo por eles em viés de dúvida: “como podem? COMO PODEM?”.

Tudo acontecia em todos os lugares, guerra declarada contra os próprios cidadãos. A estratégia da polícia parecia ser encurralar todos os manifestantes e descer-lhes a porrada. A tropa de choque não demorava à chegar. Mais correria, mais gás, mais pancadaria gratuita, mais tiros, mais desespero. Corremos novamente. Os manifestantes, agora mais dispersos, eram alvo fácil para o sadismo das forças armadas.

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Não faltam relatos da violência sem um adjetivo tão forte para caracterizá-la. Esquecem-se da função da Polícia, propriamente dita. São militares, lidam com a guerra, mas lidavam com o povo, declarado inimigo dos próprios direitos por uma noite. São também o povo, com seu trabalho, seus problemas e seus direitos, porém fruto de uma política pública que “passa à bala” os movimentos sociais.

Caminhando pela Av. Angélica, tento buscar sentido no que aconteceu, recapitulando as memórias catastróficas daquela noite. No queimar das barricadas, uma parte da cidade tornara-se Gaza ou o Iraque. Parece até exagero, mas não é. Policiais de todos os segmentos voavam pelas ruas, atrás de presas fáceis para despejarem suas ordens, em forma de dor.

Naquela noite fui vivo, naquela noite existi e deixei de existir. Naquela noite esperei o melhor e o pior. No 13, número que simboliza a liberdade e a mudança, São Paulo mostrou a sua cara, multifacetada. O enxame de sentimentos é exatamente como nossa cidade, oposta, contraditória, parabólica, desigual. Somos fruto de nosso espaço e assim como ele também temos o poder de alterá-lo. Testamos nossos limites. E vencemos.

Dia 17 de junho de 2013. Dia do 5o Grande Ato Contra o Aumento da Tarifa. Eu estarei lá, pois escolhi existir. E você, já desceu do muro?

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