Também morre quem atira

Por Lucas Cabral Pazettoestudante de Psicologia pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP-Bauru) e colunista da Revista Vaidapé.

Fotos por Gabriela Batista [FotoEnquadro]

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Durante esses dias das manifestações em São Paulo pude ver de perto a violência que tanto tem sido alvo de críticas. Seja nos canais midiáticos quanto nas próprias passeatas. Na segunda-feira estava presente quando o portão do Palácio dos Bandeirantes veio a baixo e o CHOQUE se apresentou. Da mesma maneira que apenas algumas dezenas foram responsáveis pelo atrito naquele dia, assim foram nos outros. A população, em todos meus testemunhos, se mostrou de forma majoritária contrária aos atos de vandalismo. Desde pichações até escaladas dos pontos de ônibus ou confrontos com a polícia.

Os gritos  ”Sem violência” e ”Sem vandalismo”  eram constantes mas não foram o bastante.

Os indivíduos que utilizavam da força para a suas objetivações não percebiam a grande contradição em que se ”metiam”. Revindicavam direitos coletivos mas ao mesmo tempo davam as costas ao apelo predominante da população. Promoviam a segregação do movimento sem pestanejar. Não percebiam o quanto se igualavam àqueles que lutavam contra. Afinal nosso sistema é composto de uma minoria, que para assegurar seus direitos e ambições utilizam em última instancia a violência. Por mais que isso seja maquiado com a ilusão de uma democracia funcional e humanitária. Ou seja, eles estavam copiando o ”inimigo”. Agindo nos mesmos moldes.

Na segunda eu ouvi uma menina do meu lado dizer:

“Gente, não seria mais fácil se firmar aqui? Não sei, quem sabe acordar cedo e lotar essa rua, não deixar ninguém entrar, montava barraca, sei lá, direcionava o movimento para cá, ninguém ia conseguir trabalhar, isso aqui ia parar. Mas pra que isso? Ferraram com tudo!” (Achei genial)

Parece que nos falta paciência e atitudes inteligentes não? O fato é que não percebemos o quanto temos em nossas mãos. Veja o exemplo do trânsito: Ontem vi uma entrevista de uma mulher que se dizia a favor do movimento mas que reclamava do horário das manifestações pois causava engarrafamento. Quis rir. Pois é exatamente essa a intenção! O transporte é prejudicado, os comércios se fecham. A COISA TODA NÃO FUNCIONA. O governo se sente desmoralizado e pressionado por diversos setores a acatar o pedido popular.  É disso que é feita uma mobilização pacífica. Deixar claro que somos as engrenagens que movimentam a máquina toda, e que se uma peça sai do lugar, todo o resto é comprometido.

Dar a cara a bater não significa apanhar de graça, significa apanhar por tudo. Mas não necessariamente estar na ofensiva. É um sacrifício. Abrir mão se necessário de SUA integridade física para defender o que vem a valer a pena para os OUTROS. Quer mais que isso?

Os radicais estavam desrespeitando o esforço e a dedicação que todos tiveram para legitimar o movimento até então. Mancharam uma longa caminhada que dava gosto de ver.

Me lembro de ver um grupo de adolescentes com cerca de 16 anos, tendo entre eles um que beirava os 10 no máximo. Ajudavam uma outra turma mais velha a colocar fogo em mais entulhos, placas e lixeiras, fazendo uma fogueira no meio da rua. Olhei o pequeno cobrindo o rosto e cumprimentando com gana e orgulho seus companheiros, como se procurasse um reconhecimento (e respostas encorajadoras não lhe faltavam).

Só conseguia pensar: ”Eu posso ver uma criança ali.” Mas duvido que muita gente consiga. Afinal, ele parece gostar, parece querer. Mas é claro que ele gosta, é claro que ele quer. Porque é aquilo que ele tem, que de alguma forma o faz ser parte de algo. Então percebi a semelhança entre aquele menino e a revolta imediatista violenta que alguns manifestantes prezavam. A história e nosso  sistema político econômico são como os amigos mais velhos dele. Ensinam a lei da força. Essa é a nossa escola ideológica capitalista. Onde o estudante ”briguento” é o nota dez! E parabéns, vocês estão se saindo ótimos alunos.

Que falta é essa de controle que nos consome? Era muito fácil clamar a paz enquanto estávamos marchando, mas só foi o quadro mudar que a conduta assim o fez para alguns. Somos vítimas corriqueiras desses sequestros emocionais. Fico pensando se Gandhi fosse vivo e ouvisse o que eu ouvi: “Vamos ficar nesse pacifismo todo hoje, iremos para casa e veremos que não ganhamos nada”. Provavelmente ele responderia: “Esse pacifismo todo me rendeu foi tudo, e meu amigo, vou te contar, eram tempos de COLÔNIA, quando quase ninguém dava a mínima pra gente”.  Acho muito irônico os que usam da violência assim, de forma impulsiva, sem medir esforços e saem balançando bandeirinhas do Che Guevara. Ele deve rolar no caixão viu? Por que até para isso, e a história mostra, precisou-se de PLANEJAMENTO.  Mas como sou contra a violência em todas as formas, vamos ficar por aqui.

Eu vejo hoje no Brasil uma grande oportunidade. Um momento bom para construirmos uma nova  forma de se pensar. Uma escola social onde haja professores da maior competência nas matérias do respeito, organização e acima de tudo PAZ! Afinal esse é o tão clamado prêmio que viemos esperando até agora. Mas para isso temos que fazer  DIFERENTE e não igual a quem nos oprime.

Já dizia Marcelo D2 e Falcão do O Rappa:

”Hey joe, onde é que você vai com essa arma ai na mão? ”

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