Massa de Manobra de Uma Mídia Reacionária

Por Amaro Fleckestudante de Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) colaborador da Revista Vaidapé.

Fotos por Gabriela Batista [FotoEnquadro]

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Como outros milhares de brasileiros, sobretudo jovens de classe média, fui aos protestos de ontem. Diferentemente deles, porém, o que me moveu até o protesto era mais uma mescla de curiosidade e perplexidade do que, propriamente, de indignação (embora certamente esteja indignado, e não pouco, com a situação presente). Saí mais confuso e perplexo do protesto do que cheguei nele. E gostaria de dividir os motivos e algumas reflexões, correndo o risco de fazer a análise em meio ao acontecimento, sem saber ainda o que pode e vai resultar dele.

Em primeiro lugar, é preciso não ceder ao (completo) pessimismo. O Movimento Passe Livre (MPL), principal organizador dos protestos, ao menos no começo deles, é um movimento progressista, com um discurso coerente, afinado e sobretudo inteligente. A sua reivindicação não só é legítima como correta. Eles pedem um serviço de transporte público gratuito, de qualidade, financiado por impostos progressivos que incidam sobre a parcela mais abastada da população (é pena que esta última informação seja pouco dada, sobretudo pela grande imprensa). Isto não só é possível como melhoraria muito a vida e o trânsito das cidades, e diminuiria um pouco o imenso abismo que divide os dois brasis, o dos ricos e o dos pobres.

Os ganhos imediatos das manifestações também não foram poucos: 1) As tarifas dos ônibus diminuíram ou deixaram de ser aumentadas em várias cidades (e isto é uma vitória que não deve ser menosprezada); 2) A pauta por melhorias no transporte público foi elevada de um assunto secundário para tema de primeira grandeza, de modo que, num futuro próximo, é bastante provável que tenhamos melhorias consideráveis (em grande parte por temor de nossos governantes); 3) Nos últimos anos, toda manifestação que não tinha uma pauta puramente conservadora era tachada imediatamente de baderna e tratado como caso de polícia, desta vez foi diferente (aliás, passou a ser diferente após os confrontos no protesto da primeira quinta feira, em São Paulo, quando diversos jornalistas foram presos e agredidos), e, acredito, pode passar a ser diferente nos próximos (já que, doravante, qualquer manifestação é fogo perto de barril de pólvora); por fim, mas não menos importante, foi uma grande demonstração, legítima, de insatisfação popular, sobretudo com os gastos abusivos do dinheiro público com a copa das confederações e do mundo, assim como com as olimpíadas. Este dinheiro podia e devia ter sido mais bem aplicado, em mudanças estruturais, e foi desperdiçado, trará pouquíssimos benefícios, e estes serão dados principalmente para a parcela abastada que poderá pagar por ingressos tão caros e pelos times de futebol milionários que ganharão os estádios passado os eventos.

Mas nem tudo são flores. Em um dia chuvoso e cinzento, com vinte mil pessoas reunidas e a cidade parada, demorei algum tempo para ouvir um grito mais inteligente do que “capa de chuva a cinco reais”. Um discurso moralista e vazio de “basta de corrupção” era o predominante. O ódio a todos os políticos e partidos também. A ausência de qualquer discussão mais aprofundada por medidas institucionais (como o financiamento público de campanhas políticas) que dessem crédito a alguma esperança de mudança na vida política brasileira era notável. Aqui e acolá eram vistos cartazes com os ditos “fora PT” ou “fora Dilma”. Nada contra, estou entre os primeiros dentre os decepcionados com este partido e com este governo. Mas quem por em seu lugar? PSDB? DEM? PMDB? Ou o novo partido dos banqueiros, a REDE da Marina Silva? “Nem direita, nem esquerda, para frente”. Sério? Parece um slogan na medida para a REDE ou o PSD, Kassab assinaria embaixo.

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As juventudes do PSOL, PSTU, PCB e mesmo gatos pingados do PT e do PC do B eram hostilizados pelos jovens nacionalistas, enrolados na bandeira positivista que clama por “ordem” e cantando um hino ufanista e conservador que tomam por brasileiro. Eram chamados de oportunistas, eles, que sempre estão nas manifestações progressistas, sejam estas por melhorias de transporte, por moradia popular, por direitos das minorias, mesmo quando a polícia reprime e a televisão não noticia. Lástima. Infelizmente, nenhuma mudança virá se não passar por vereadores, prefeitos, deputados, senadores e um ou uma presidente/a que ao menos compartilhem de algumas de nossas (?) visões.

Quem confunde Jean Wyllys com a bancada evangélica, Romário com a bancada da bola, Suplicy com os mensaleiros (sejam tucanos, sejam petistas), não percebe nem qual é o problema, nem qual a solução. E assim, viram a massa de manobra para uma mídia reacionária que está revoltada desde que seus favoritos não estão no comando desta tão imperfeita e indecente República. Se há ganhos por enquanto, parece ser este o momento de retornar às casas e aumentar o longo e penoso processo de politização social, debater os rumos e fazer as reflexões necessárias. Melhorias não vêm por acaso, e é preciso bons debates antes delas. O nível de politização dos protestos serve de claro aviso de que podem não vir boas coisas de uma continuação dele. Por enquanto, o melhor é pressionar o governo (nacional) existente e não substituí-lo. Tentar, na medida do possível, jogá-lo para a esquerda quando tantas e tão poderosas forças parecem levá-lo, cada vez mais, para a direita.

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4 responses to “Massa de Manobra de Uma Mídia Reacionária

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  2. Oi, Amaro!
    Acho que o “pedido” para tirar as bandeiras partidárias foi simples recado de que estamos cansados destes políticos ditos representantes do povo mas que representam somente seus interesses. Talvez seja por aí que se devam iniciar as reformas. Achei fantástica a dimensão do protesto e muito bem organizada, mesmo com a interminável pauta e com os bagabundos e ladrões de plantão, paciência, estamos aprendendo e correções serão feitas.
    Abraço,
    Rogério.

    • Rogério, o “pedido” estendeu-se também às bandeiras do movimento negro e do movimento gay. Os partidos que estavam/estão nas manifestações tampouco eram/são os partidos que estão no governo, seja ele municipal, estadual ou federal (tirando, no máximo, um ou outro gato pingado da juventude do PT, que também não deve ter as melhores relações com os dirigentes do partido deles). A exclusão deles foi um ato autoritário e oportunista, até porque os militantes destes partidos, como disse no texto, são presença constante neste tipo de manifestações, mesmo quando a polícia reprime e televisão não noticia.
      Não sou filiado a nenhum partido e tampouco me vejo representado em algum deles (embora, como todos, tenha minhas preferências). No entanto, não creio que, de imediato, mudanças contra partidos resultem em coisas boas. O que corrói nossa democracia é antes o personalismo, de modo que uma boa reforma eleitoral, muito necessária, deve mais fortalecer os partidos (obrigando-os a adotarem princípios e orientações claras) do que rechaçá-los.
      Agradeço o comentário e o diálogo,
      Amaro.

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