Quatro grupos, uma só convulsão social

Por Amaro Fleck, estudante de Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e colaborador da Revista Vaidapé.

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Foto por Gabriela Batista [FotoEnquadro]

            Nos últimos dias, diversas interpretações sobre o significado e as demandas dos protestos, as mais distintas entre si, têm aparecido. Ora se argumenta que as manifestações têm um caráter progressista, ora conservador. Há quem veja uma sublevação popular, há quem veja apenas abastados clamando pela manutenção de seus privilégios. Uns veem avanços democráticos, outros, tentativa golpista. Nesta revolta tão ampla, com demandas aparentemente tão vagas, há fortes indícios que justificam todas elas. Mesmo assim, é possível vislumbrar um pouco melhor o que se passa.

A primeira coisa que se deve questionar é quem está nas ruas. Engana-se quem pensa que é o “povo brasileiro”, isto é, que nele estão inclusos segmentos de todos os grupos sociais. Mas é, sim, parte significante dele. Os protestos iniciaram puxados por jovens de classe média, na maioria estudantes, que de alguma forma se identificam ou simpatizam com o Movimento Passe Livre (MPL). São politizados, de esquerda, e sua pauta é por um melhor transporte público, mais barato (de preferência gratuito). Não só, eles querem isto com mais justiça. Veem a desigualdade social com um problema de primeira grandeza e almejam diminuí-la (o passe livre seria, justamente, um meio para tal fim). Não são poucos. Quando a Folha, o Estadão e a Globo clamavam à tropa de choque por mais rigor para acabar com o que consideravam baderna eles já eram mais de vinte mil pessoas nas ruas paulistanas.

Quando o governador Geraldo Alckmin ouviu o clamor da imprensa, a tropa de choque agiu, nas palavras da Folha, sem discernimento. O uso excessivo da força policial foi usado não só contra os manifestantes, como a grande imprensa pedia, mas atingiu diretamente alguns de seus jornalistas. Duzentas e poucas pessoas, inclusive jornalistas, foram presas para averiguação (um procedimento arbitrário e injustificado que lembra o pior de outrora). Foi o estopim para os protestos massificarem-se, trazendo dois novos grupos à cena.

O primeiro grupo era de jovens, na maioria estudantes, politizados, de esquerda, com uma pauta clara, já estava nos protestos. O segundo foi, ao menos no começo, mobilizado pelo primeiro. São também jovens de classe média, na maioria estudantes, mas até então sem maiores experiências políticas, excetuada a participação nas eleições. O que motiva eles é também uma insatisfação com o transporte. Para este grupo, que recém conquistou a autonomia de ir e vir sem depender de permissões paternas (ou mesmo que ainda depende disto), o custo com o transporte é uma séria restrição as suas liberdades. Embora não sejam, em sua grande maioria, pobres, eles lidam com um orçamento limitado obtido com os pais ou com eventuais bicos, estágios, bolsas de estudo, e perdem grande parte dele para se locomover.

No entanto, este grupo, até então aviltado pelo rótulo de alienados e recém descobrindo sua dimensão social, acredita ser pouco justificável demandar a redução de meros vinte centavos no preço das passagens. Com a aprovação midiática, tal grupo pluraliza as demandas, mas sempre pagando o preço de esvaziá-las. Clamam por uma nova política, sem corrupção. Anseiam pelo novo e evitam, a todo custo, qualquer identificação. Por isso hostilizam os partidos, sindicatos e movimentos sociais que participam do primeiro grupo (excetuado, neste caso, o MPL). Seus símbolos apenas servem como contrassímbolos, capazes de identificá-los sem determiná-los: a bandeira e o hino nacional; a máscara do Anonymous. São os patrioteens e ainda não aprenderam que a rua e os protestos são suficientemente grandes para nele coexistirem bandeiras distintas.

O terceiro grupo, que se soma aos protestos concomitantemente ao segundo (mas menor, nos protestos, que este), é formado sobretudo por marginalizados. São moradores da periferia, desempregados ou subempregados. Participam, creio, mais ativamente nas cidades que são palco de eventos esportivos. Foram, muitas vezes, diretamente prejudicados por eles, seja diretamente pelas remoções, seja pela política de pacificação das favelas que fez os aluguéis triplicarem, expulsando-nos de bairros não tão distantes da cidade. Tem uma demanda muito legítima de inclusão social, mas desconhecem a forma de reivindicá-la e não conseguem traduzi-la em demandas específicas. Parte dele é mais violenta e promove saques. Pudera, o Estado que pede que se manifestem de forma pacífica e ordeira nunca foi, ele mesmo, pacífico e ordeiro ao lidar com eles.

Por fim, um último grupo, pequeno, mas barulhento (em especial: capaz de se fazer ouvir) surge nas manifestações. É a classe média alta ou o segmento que se reconhece nos valores dela. Odeia o PT e pensa que os dez anos de lulismo foram os piores da história do país. Sonha em derrubar a presidenta e dar fim ao partido dela. Sobretudo, temem a perda de seus privilégios (muito embora o lulismo tenha atacado, infelizmente, muito poucos deles). Suas bandeiras são o fim da corrupção, a moralização da política, a diminuição dos impostos e do Estado, o arquivamento da PEC 37, além do fora Dilma/fora PT. Quase não é preciso dizer que a grande imprensa foca em suas demandas e se reconhece nelas.

Os protestos em sua forma atual são a conjunção destes diferentes grupos. O primeiro e o quarto antagonizam entre si, pois são mutuamente excludentes. Disputam os patrioteens, que são mais mobilizados pelo primeiro, mas ecoam mais a pauta do quarto. Todos tentam, sem sucesso, excluir o terceiro, por causa de sua índole arruaceira. O futuro desta convulsão social depende do arranjamento destas distintas forças.

Quem está ausente nos protestos? Em especial dois grupos: a classe trabalhadora tradicional, quer operária quer camponesa (mesmo sendo às vezes representada vagamente por um ou outro sindicato) e o imenso subproletariado, tanto o ascendente – também chamado de nova classe média ou nova classe trabalhadora – quanto o estagnado, a maior parte dos pobres. Isto é, a base social do lulismo que faz com que, apesar de toda insatisfação reinante, a presidenta siga bem-avaliada e com sua reeleição, por ora, assegurada.

Se o protesto é progressista ou conservador? Difícil chegar a uma conclusão agora. O certo é que traz boas novas por enquanto: uma guinada do atual governo para a esquerda, para uma preocupação maior com a inclusão social. O discurso presidencial pareceu auspicioso. Reinaldo Azevedo, arguto arauto do atraso brasileiro, observou: “o movimento que está nas ruas provocará uma reciclagem do PT pela esquerda, poderá tornar o resultado das urnas ainda mais inóspito” para aquilo que ele defende (o atraso e a injustiça que confunde com a democracia e a racionalidade). Oxalá que seu temor se concretize.

P.S.: Os dois grupos ausentes, classe trabalhadora tradicional e subproletariado, dão sinais de que podem entrar nos protestos. Por um lado, a CONLUTAS já marca atos e a CUT e a FORÇA SINDICAL cogitam marcá-los. Por outro, organizações da periferia começam a se mobilizar para manifestações (este grupo, no entanto, destoa do terceiro, uma vez que é politizada, de esquerda, com pautas claras e não recorre à violência a não ser em casos extremos). A entrada destes grupos tende a levar os protestos mais a esquerda.

P.S. 2: Li alguns relatos que afirmam que grupos mais extremistas da classe média alta (ou simpatizante dela) também tem recorrido à violência ou a incitado.

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2 responses to “Quatro grupos, uma só convulsão social

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