Não faz mal sentir

Por Lucas Cabral Pazettoestudante de Psicologia pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP-Bauru) e colunista da Revista Vaidapé.

Foto por Gabriela Batista [FotoEnquadro]

gabatista

Sempre fui meio desacreditado sobre esse negócio de amor e confesso que depois que comecei a fazer psicologia me tornei mais cético ainda. O amor poderia ser muito bem um objeto de estudo, e a química junto à psicologia, não tenho duvidas, poderia e tenta explicá-lo. Mas até onde iremos assim? Até quando tentaremos desmistificar e racionalizar coisas que nos fazem bem? Afinal, Cazuza já cantava: ”Mentiras sinceras me interessam”.

Será que daqui uns bons anos nossos filhos dirão: ”Meu nível de ocitocina aumenta perto de você” no lugar de um “eu te amo”?
Será que tomaremos remédios para o ciúme? Não nos encontraremos mais em nossa própria confusão?
Será que se debruçar sobre os mais fortes sentimentos e se permitir devanear em nossas emoções serão atos quase que proibidos?
Porque sinceramente? Vindo de uma sociedade que preze tanto a lógica, não há sentido negar o inevitável.

Não digo para agirmos como reféns de nossas emoções e impulsos. A mercê de nossos desejos (A vida seria um caos, desprovida de uma ordem necessária). Mas que por vezes isso não seja visto de maneira pejorativa. Você já tentou sair cantando alto uma música pela rua? É engraçado! Algumas pessoas parecem sentir-se “’incomodadas”, exprimem até um olhar de desprezo, desconfiança. “Por que diabos ele tá fazendo isso?”

Percebo, em muitas ocasiões, esses estranhamentos diante das euforias alheias. Mas como diz um amigo meu: O que incomoda no outro, faz morada em você.

Hoje existe uma luta estúpida entre o que se entende como racional e irracional. Isso porque o sentimentalismo e a sensibilidade tomaram-se INJUSTAMENTE como antônimos do que é ser racional. São representantes dessa falsa briga.

É muito comum ver, sob um olhar do senso comum, o preconceito sobre os artistas por exemplo. Seja músico, pintor, dançarino, poeta. São pessoas que lidam e trabalham as emoções numa configuração diferente da lógica formal, que é a predominante atualmente, e por isso muitas vezes são vistas como nefelibatas, pessoas que se esquivam da realidade, vivem no mundo das nuvens. Mas também creio que é porque eles prestam atenção no que ninguém quer ver. A dor.

O conhecido sociólogo Zygmunt Bauman adverte: “Vivemos num mundo de ‘agoras’ onde não há espaço e tempo para as frustrações”. Isso me remete a obra escrita por Aldous Huxley, Admirável mundo novo, que retrata um futuro extremamente prático e racional. Não há religião, arte, o conceito de família. As pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em uma “harmonia” controlada. Utilizam uma droga chamada de Soma em casos de desconfortos, dúvidas e insatisfações. Uma das críticas articuladas com a sociedade é esse nosso comportamento de não nos permitirmos sofrer. Mas no lugar da soma temos o consumismo compulsivo, as drogas daqui, e por ai vai. Coisas que constantemente tentam tampar os buracos que nos afligem. Ou devo dizer… O medo de olhar para dentro.

Esse casamento hipócrita entre essa felicidade inabalável e a suposta racionalização de tudo preocupa. Quer dizer, a menina que acabou de terminar com o namorado, dia seguinte está enchendo a cara na balada porque – vamos ser racionais – não vale a pena chorar por ele. O homem que se diz o “comedor” e que “sexo é só sexo e assim devemos ver” é o mesmo que muitas vezes TEME experimentar um compromisso. Tornamo-nos reféns da nossa incapacidade de enfrentamentos emocionais.

Você sabe por que a arte é tão importante? Pois ela nos dá um tapa na cara. Ora relembra nossa condição animal, ora as incertezas do futuro. Ela é a nossa capacidade de embelezar ou desbotar o mundo. Apresenta um universo onde é permitido duvidar, sentir e sofrer os remorsos. Construir-se de novo e de novo e de novo. É a droga mais real que existe.

Hoje há um grande bombardeio de descobertas e novos questionamentos científicos que influenciam nossa maneira de lidar com a realidade e que moldam o pensar. Mas a pergunta é: Estamos preparados? Até onde vai a nossa necessidade de destrinchar e vasculhar os motivos, causas e consequências? E como isso reflete nas nossas tentativas de vermos tudo com certo pragmatismo? Como futuro psicólogo posso estar parecendo um tanto contraditório, já que minha área é destinada à esse aspecto. Mas esse é o meu curso, a minha maneira de contribuição e não a minha vida. Tenho um professor que sempre diz: “Não vamos misturar as coisas… Isso é algo para ser debatido numa mesa de bar acompanhado de uma cervejinha”. Já isso aqui é assunto de aula.

Ser ”racional” não é necessariamente agir com frieza. Não devemos ter vergonha de nossas fragilidades, decepções e muito menos medo da exposição. Isso aqui vai virar uma grande chatice no dia em que não soubermos mais poetizar a vida e, pior ainda, quando não soubermos mais ouvir a dor.

’’O doce nunca é tão doce sem o amargo’’ – Vanilla Sky -. Vale a pena lembrar, amigo.

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