A Batalha que a Grande Mídia venceu

Publicado originalmente no blog de Thomas Contiestudante de mestrado em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

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Na maior parte das vezes, os críticos à grande mídia apontam-na como manipuladora de opinião, retratando notícias com grande viés ideológico sem notificação prévia. O pressuposto é que o telespectador não tem capacidade de discernir o viés transmitido, seja por ignorância, seja por alienação.

Contudo, ainda que isso exista em algum grau, não foi exatamente esse o maior problema que observei acerca do papel da mídia durante os protestos.

Por todo o país, os manifestantes enxotaram repórteres da globo e outros grandes veículos, além de terem queimado equipamentos de emissoras.

Mas, eis a contradição: ao mesmo tempo, em sua maioria, votavam como pautas principais dos protestos precisamente a agenda que a mídia vinha martelando ao longo dos últimos anos (corrupçãoPECsJoaquim Barbosa como herói nacional,preconceitos contra a esquerda, dentre outros).

Em outras palavras, embora haja um sentimento relativamente bem definido de que a grande mídia costuma se colocar distorcendo os fatos em seu favor, ainda assim é ela quem está pautando o universo de informações com o qual a maior parte da população se posiciona.

É como se a erupção dos protestos fosse a quebra de uma grande barragem: a água (as pessoas) descem correndo contra o que estiver na sua frente, porém vão acabar seguindo mais ou menos o caminho de menor resistência, em conformidade com as margens que definiam o seu curso.

Discordo assim da opinião de alguns críticos da mídia. Não acho que ela tenha precisado fazer grande esforço para “alterar o rumo das manifestações”. O trabalho já havia sido iniciado e concluído antes de tudo começar: por anos cavara fundo o curso e as margens do rio. Quando a coisa toda aconteceu, só precisou sair do caminho, e observar.

rio violento margens que o comprimem bertold brecht

A verdadeira origem do problema

Na relação da mídia com a sociedade, o problema reside no fato de que a mídia está inserida não apenas exercendo a função de imprensa, mas de professora. Com uma educação de base pública e privada débeis, focadas excessivamente para que os alunos estejam aptos a prestar o vestibular, o que construímos na verdade foi todo um sistema de ensino que é incapaz de fornecer quaisquer informações ou instruções que tenham relação direta com a realidade contemporânea. Em outras palavras, na pedagogia vigente no sistema educacional brasileiro, não se enfatiza a formação decidadãos. No lugar desse sujeito, temos pré-vestibulandos, ou profissionais mais ou menos aptos ao mercado de trabalho, ou atestados de conclusão de curso…

Contudo, ninguém é capaz de simplesmente se desconectador do mundo e do tempo em que vive. Se o sistema de ensino não está fornecendo esse vínculo com a realidade, caberá a outras fontes realizar esse papel. É comum vermos os mais reacionários culparem o bolsa família por suposta compra de votos. Mas a grande questão está em outro lugar: o que, quem e onde de fato estão sendo orientados os posicionamentos políticos da população em geral?

Na verdade, talvez haja pouca ou nenhuma orientação.

Os partidos políticos deixaram de lado os esforços em trabalho de base. Convencer a população indo de porta em porta, apresentar as ideias da sua política virou estratégia ultrapassada. Sem esse vínculo direto entre a militância dos vários partidos e a população em geral, não deveria espantar ninguém que para o cidadão fica a impressão de que de fato os partidos não servem para nada, pois a única imagem que têm deles é quando sentam no poder, aparecem em algum caso de corrupção, ou quando aparecem nas propagandas nas vésperas das eleições.

Dessa perspectiva, a aversão aos partidos em geral manifestada nos protestos é apenas um sintoma dessa lacuna na formação democrática e cidadã do brasileiro.

Se o ensino primário, fundamental e médio por sua natureza não estão se prestando à tarefa de ensinar os estudantes a se inserirem no tempo em que vivem, devemos também avançar na ruptura com certo mito de que na universidade encontrarão esse apoio que falta. Mesmo nas universidades mais caras, o valor da matrícula é tanto maior quanto mais prestígio e garantias a universidade puder fornecer ao aluno de que haverá um espaço garantido para ele ao obter o diploma; cidadania está muito longe do primeiro plano, e fornecer informações de qualidade que escapem dos limites restritos das disciplinas do curso está ainda mais distante.

Nas universidades públicas, diria que há um espaço um pouco maior para o desenvolvimento dos estudantes nesse sentido, mas muito mais a despeito das estruturas do curso do que por causa delas. A tendência é sempre passar os conteúdos tão fechados em si mesmo quanto for possível. Contudo, como são selecionados estudantes de origens sociais e regionais muito distintas, adquirir um conhecimento mais amplo da realidade atual do país torna-se ligeiramente mais fácil, ainda que qualquer um seja capaz de abrir mão desse enriquecimento pessoal com bastante facilidade: basta ir para a universidade todos os dias pensando apenas no diploma. Evidente que, após mais de dez anos sendo instruído a adquirir conhecimento apenas para cumprir as metas que já estão dadas, a decisão da maioria não poderia ser outra que não a de justamente usar dessas universidades também tendo em vista apenas a formação pessoal e o interesse particular.

Sem a preocupação pedagógica de formar cidadãos por parte do sistema de ensino, e também sem organização por parte daqueles mais diretamente envolvidos na nossa organização democrática, a formação política do brasileiro e o universo de informações com a qual se orienta ficam ambos jogados ao léu.

Nesse vazio institucional, as informações rasteiras da grande mídia acabam se infiltrando, seja pela família, seja por boatos, seja por polêmicas superficiais, a maior parte do posicionamento do brasileiro acabará se pautando como contra ou a favor de qualquer coisa que for pautado por esses mesmos veículos. Nas discussões, cita-se esse ou aquele artigo da Veja, da Globo, do Estadão, da Folha, da Carta Capital, etc., e pouco se sabe sobre a história do país, o discernimento dos vários tipos de posicionamento político, as várias outras questões que são matéria de preocupação de muitos estudos sérios no país, como reforma agrária, reforma tributária, juros da dívida pública, enfim…

A batalha perdida escancarou o problema; agora cabe não deixarmos que se perca também a guerra

Em síntese, o que tentei demonstrar é que o senso comum de que a mídia manipula totalmente a política do país é uma análise incompleta que olha apenas para o sintoma final.

A facilidade com que as pautas e o posicionamento da população em geral são pautadas pelos grandes veículos deve-se antes ao descaso e à incompetência pedagógica das instituições sociais que mais deveriam se preocupar com a inserção do brasileiro na vida política e cidadã.

Do ponto de vista do ensino, apenas direcionar mais recursos para a educação não irá resolver o problema. Em algum momento teremos de recolocar o debate em torno da reforma das grades do ensino.

Para romper com esse status quo evidenciado pelo rumo das manifestações, seria necessário antes de tudo que aqueles que acreditam no desserviço que esse monopólio causa ao país comecem a se enxergar a sua inação como colaboradora para esse mesmo monopólio. O debate público está hoje mais do que nunca aberto à exposição de opiniões mais bem embasadas. Da parte dos professores, caberia ademais a preocupação de se perguntar em que medida estão colaborando para informar e educar os alunos na sociedade enquanto cidadãos, e não apenas portadores de diplomas. Por fim, seria necessário – ainda que utópico – considerarmos em que medida uma reforma geral da pedagogia do nosso sistema de ensino não deveria ser reformada. Da parte dos partidos, deveriam deixar o pedestal em que se situam e voltar a trabalhar com a base da população, também para quem sabe – sendo novamente utópico – pautar melhor seus próprios posicionamentos segundo o interesse da população.

Para terminar, acredito que vale a pena termos noção de como essa é uma preocupação que existe no Brasil desde longa data e que até hoje segue inconclusa.Em 1883, preocupado em fundar no Brasil o cidadão consciente necessário para a república do futuro, escrevia Rui Barbosa em sua proposta de reforma do ensino, citando um pedagogo francês:

  • ““Não será profundamente deplorável”, diz o inspetor geral da instrução pública na França, “que os alunos da escola primária deixem os seus bancos, sem possuir noção alguma dos grandes acontecimentos do seu tempo, e que, quando chamados a apreciá-los, sentenciando os indivíduos envolvidos nesses fatos, se vejam reduzidos a não nos conhecer, senão pelas polêmicas, ordinariamente apaixonadas, da imprensa quotidiana?”” – Rui Barbosa, Reforma do Ensino Primário e várias instituições complementares da instrução pública, 1883. Em: Obras Completas, Vol X., Tomo IV. Ministério da Educação e Saúde: Rio de Janeiro, 1946., pp. 355. Cit. GREÁRD, pp. 171.

Para quem concordar, mãos a obra.

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