Dreads

Por Lucas Pazetto.

rastafari 9

-E esse cabelo menino, não vai cortar?
-Ta grande né? Mas é que eu vou fazer dreads.
-Dreads? Mas por que???? (E aquela velha cara de desprezo)
-Ah.. porque eu quero. Você não gosta?
-Nada contra, só acho que não vai combinar com você/Nada contra, só fica um aspecto sujo/Nada contra.. Nada contra, só que…

Pros que procuram ser diferente, seja por gosto, seja por inspiração, o espelho de alguém, um significado pessoal, ou quem sabe cultural. Pros que querem mudar porque querem , e o querer aqui basta. Há de sempre trombar com os olhares tortos. E antes fossem tortos apenas em sua física expressão. Mas entortam a cabeça e as opiniões.

Minto… Opinar não implica imposição. Muito menos punição. E é isso o que fazemos diariamente. Vivemos na época do liberal de meia tigela e da punição disfarçada!

Sabe aquele cara que diz: “Nada contra os gays, só não vem se beijar na minha frente”. Então… para eles aparentemente o mundo gira em função da sua capacidade adaptativa. “Pode fazer, mas longe daqui.”

Será que percebem o tamanho paradoxo que vomitam?

Primeiro: Eles se julgam no direito de olhar o que querem. Meu amigo, se tranca em casa e vai ver seu filme preferido então. O mundo não te convida a participar dele. É um alistamento obrigatório que chumba sua existência no papel no momento em que você nasce.

Segundo: Se elevam como generosos. Olha só, generosos por fazer O FAVOR de aceitar a ”despadronização” alheia. E mesmo assim até onde convém, né? – “Nada contra percingis, mas na minha filha nunca!”

Terceiro: Punem sem perceber. A sociedade está muito mais sutil na arte do preconceito. As pessoas agem com toda a polidez mas deixam escapar suas pontadas estratégicas – “Ahhh… Mas você vai fazer tatuagem é? Bacana, só não faz grande, ai fica feio” – Ou olham com aquela cara de nojo e um amarelo sorriso.

Quarto: Consideram seus direitos mais direitos que o dos outros. Pego o exemplo do homossexual que se faz muito presente e claro. Bom, claro para quem se propõe a ver. A mãe que “aceita” a filha mas que não suporta a ideia de vê-la beijar a companheira. Mesmo que a mãe possa beijar o pai, ou quem sabe o padrasto. Oh! Mas que belo exemplo. Numa nova relação após um divorcio os pais costumam dizer que os filhos terão que aceitar esse novo laço. Isso envolve vê-los se beijar, andar de mãos dadas, dormir na mesma cama. Isso também não é de agrado aos filhos, mas pelo menos o bom progenitor tentará se fazer ENTENDER. O que é fundamental. Mas e ele tenta entender também?

Essa aceitação hipócrita carece da compreensão. São puros bons modos e por ai ficam.

Não adianta fazer-se de ”moderno” ou ”cabeça aberta” se de fato seu mundo continua pequeno. Isso não é uma ilustração. Talvez a vida não tenha te falado mas meias verdades não são verdades. E as verdades são todas e de todos. Livrar-se do preconceito é de fato se colocar em pé de igualdade no que se diz respeito a se entregar. Realmente entender a ótica do próximo. Ou não temer o diferente.

Quantos são os comportamentos que mascaram nossas reais necessidades? Qual a diferença em mudar a maquiagem todos os dias e ter uma tatuagem? É a permanência? Será? Talvez louco para um tatuado é quem não consiga satisfazer-se em sua própria imagem. Talvez aberração para um homossexual seja quem o violenta. Quem sabe masoquista para quem fura a pele, é aquele que não entende a dor em seu aspecto subjetivo e se machuque por não querer mudar.

Pode ser que sujo para um dreadlock seja o ato de julgar. E que seu cabelo seja a menor de suas preocupações diante de alguém que sorri amarelo e diz – ”Nada contra” – apenas por falar.

Por Lucas Pazetto

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2 responses to “Dreads

  1. muito legal sua reflexão.viver é bacana
    horas mais simples outras nem tanto
    mas maravilhoso

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