Alienado, eu?

Por Lucas Cabral Pazettoestudante de Psicologia pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP-Bauru) e colunista da Revista Vaidapé.

bealien

Arte por Beatriz Castanho

Obs: O texto a seguir é a primeira parte de uma reflexão sobre alienação. A linguagem é um pouco densa  e o trabalho relativamente extenso para uma coluna. Isso porque o tema é muito abrangente, antigo e o tratar de forma rápida  e resumida seria na minha concepção injusto e reducionista. (Mais do que já é apresentado). Mas o objetivo não é fazer ninguém virar ”expert”  no assunto e sim mostrar a magnitude da discussão para que possamos duvidar, refletir e produzir. Portanto, se você é daqueles que se justificam ”desencanados” ou preguiçosos… Sinto, mas o texto não lhe agradará. E se você é daqueles que leem  o nome ”Marx” e já se assusta por achar que existe algo comunista no meio, melhor nem começar. Faço uso de alguns pensamentos dele como de qualquer outro pensador que ache relevante sem ”segundas intenções”.

”São tantos falando sobre alienação. Virou praticamente moda o assunto.  As críticas estão se construindo  com uma duvidosa propriedade. É que agora a política e a exaltação dos protestos aparentemente deram certa liberdade em apontar o que é alienador e o que não é. E convenhamos, quase tudo virou o primeiro.  O futebol tem sua parcela de culpa quando falam da política do pão e circo. A mídia pelo seu poder persuasivo e suas alianças com o Estado. A internet ENQUANTO não produz mobilizações. Tudo se fez questionável.”

Esse era o começo da minha primeira tentativa em falar sobre alienação. Mas enquanto escrevia o resto, deparei-me com uma série de questionamentos que pareciam fugir do meu alcance e aos poucos fui me perguntando: ”O que diabo eu sei, de fato, sobre alienação?”. Afim de procurar ajuda conversei com uma antiga professora de história minha e mandei um email para outra – que no final das contas me rendeu mais dúvidas – o que foi bom.

A conversa foi essa:

Professora, obrigado por me atender. As minhas ideias estão muito embaralhadas ainda, mas tentei esclarecer as visões que ando adquirindo da melhor maneira possível.

Foucault diz que a alienação não existe. O que existem são verdades e verdades, não verdades e ideologias. Ou seja, a verdade é um discurso. É uma estratégia discursiva. A verdade é um saber construído sobre algo. Não está em algum lugar, pronta para ser descoberta, desvelada, como pensava Marx. (Ou isso está errado?)

A verdade é um exercício de poder.  Portanto, como saberemos quem é alienado ou não? Eu fico pensando, se for apenas um jogo de poderes a capacidade de persuasão seria o determinante para algo ser chamado hoje de verdade ou não. A principio tive a ideia de que a extensão que uma dita verdade atinge (as massas, um determinado grupo, etc.) é equivalente ao poder que ela tem e a sua fidedignidade. Mas então pensei no exemplo de um ditador, em que seu território tem quase que por garantida lealdade, em que as pessoas abracem seus discursos e se comprometam junto ao seu líder a entrar em guerra, explodir o mundo!

Vamos dizer que por uma questão religiosa – eu sei que é um exemplo incomum e radical, mas faz procurar semelhanças num plano mais micro – essa seria uma verdade para eles, mas não para o resto do mundo. Os demais países provavelmente, ENQUANTO não fossem seduzidos pela ideia, estariam contra. Pois então? Quem está certo? Ambos têm seus argumentos que possuem significações suficientes para que possam tomar uma posição. Não interessa se 2+2=4 para um ou banana+laranja=brócolis para o outro. O que está em cheque aqui é o quanto as pessoas acreditam nisso.

Lembro-me de uma aula em que a senhora falou rapidamente sobre o multiculturalismo. Usou o exemplo de mulheres apedrejadas no oriente médio e da modelo que nascera numa cultura em que se cortava o clitóris, dando isso como um abuso. Ao pensar nesses exemplos, sinto que não é certo, mas sei também que é pela minha visão ocidental reforçada principalmente a partir do século XVIII, com a Revolução Francesa, ou mais ainda com a Declaração dos Direitos. A dialética também – confesso – me corta as asas, pois tento compreender que nossas visões coexistem e que seria controverso pensar numa certa e em uma errada. O materialismo defendendo a existência da realidade independente de nossa percepção consciente me reforça essa ideia também. Parece-me que falta um norte!

Parei para pensar na essência da vida. Não em seu aspecto místico, mas o que de fato teria que ser defendido. No exemplo do ditador, a oposição no fim das contas digamos que fosse a favor da vida. Agora, por mais que a maioria entrasse num consenso de que a vida fosse a prioridade diante desse plano suicida, poderia não adiantar, pois dependeria do grupo que detém os meios (bombas) em realizar o plano ou não. Visto isso, penso… O consenso não é o bastante, há de se prestar atenção em quem detém os meios que capacitem a imposição de realidades sobre outras. O fato é que o mundo pode se acabar a qualquer momento, basta um louco. Não! Um louco não. Basta um crédulo em si o bastante que tenha como fazê-lo.  Sempre pensei o que nos faz agir ”bem” com os outros. Sabem… Coisas como devolver o troco errado, pegar uma carteira na rua e dar ao dono? Coisas que por muitas vezes são testadas. Como ter a oportunidade de prejudicar alguém que já fez mal a você, e mesmo assim não o fazê-lo? Pois então… A verdade é que eu não achei uma resposta contundente. Pois por mais que eu soubesse que era uma questão cultural/educacional eu senti que não sabia realmente os motivos do por que o fazia. Só por que eu não gostaria que isso acontecesse comigo? – Acho improvável, não sou adepto ao carma e meu nível de empatia a pessoa pode ser nulo.

Seria uma questão de consciência coletiva? Mas o que de fato sei sobre isso já é o determinante para que eu aja de acordo? Fui procurar num livro chamado ”O pequeno tratado das grandes virtudes” de André Comte. No primeiro capítulo ele fala da polidez que seria a origem das virtudes por condicionar nosso comportamento, mas que poderia não passar de apenas boas maneiras posteriormente. Até brinca: Mais vale um ”grosseirão” generoso que um nazista bem educado. Isso me remeteu ao mundo e as suas aulas. Agir não significa entender o porquê agimos. Então posso dizer que é uma afirmativa correta? E o conceito seria um discurso que acabara perpetuado por seu poder persuasivo e adaptativo no que viesse somá-lo ou reduzi-lo? Mas para quem? Quem de fato entende os chamados conceitos são os mesmos que determinam sua manutenção ou remodelagem, não? E isso não é feito diante de um consenso entre aqueles que detêm esse conhecimento?  E no exemplo do ditador… Alienado é o mundo ou ele? Em que aspectos, para Marx, consideram-se alguém alienado? Até onde o consenso pode ser considerado prioritário? O certo e o errado, vejo que não existem! Mas ganham caras novas de tempos em tempos. Como combater algo tão particular? Qual o norte de Marx?

Ufa, desculpa o desabafo e a desordem professora, mas isso está me engasgando.

Super agradecido!

Abraço, Lucas.

A resposta foi a seguinte:

Caro Lucas,

Não darei conta de responder todas as suas dúvidas!!! Até porque elas são a essência da filosofia. Desde que o mundo é mundo (humano) os homens se fazem essa perguntas! Como são “perguntas”, haverão respostas! Muitas respostas… Que, de certo modo, conduziram à existência de vários sistemas filosóficos, muitos deles, diferentes entre si. Nisso se inclui diferenças entre Foucault e Marx!!!

Primeiro ponto: Não haverá coincidência entre as ideias deles pois partem de bases diferentes. O primeiro é idealista (centralidade na consciência), o segundo materialista (centralidade na realidade concreta). Assim, para o primeiro não há mesmo alienação – qual seria o critério de validação para ideias? Ideias são ideias e se sustentam por sua funcionalidade (para que servem?).

Por outro lado, o conceito de alienação em Marx funda-se numa base que não é abstrata, mas concreta! Veja, a quem pertence a natureza? A terra, os rios, os minerais, as árvores, etc.? Para Marx, a todos os seres naturais que a coabitam (homens e animais). Se assim o é, o que a propriedade privada fez com esse preceito: Tomou (roubou) a natureza de alguns, apartou-os daquilo que a rigor lhes pertence. Aqui nasce o conceito de alienação em Marx. Seu estofo não reside no plano dos conceitos, mas no plano econômico. A alienação significa mutilação, retirar de alguns homens parte daquilo que lhe pertence por direito natural (todos os homens são partes da natureza, não apenas alguns).

Mas quem disse que isso não é só um ponto de vista, não é mesmo???

Quem valida isso ou aquilo, qual é o critério da verdade? Para Marx, o critério de verdade é a realidade concreta. Ela é quem anuncia algo como certo e errado (e não certo OU errado). Todas as ações humanas possuem em sua gênese um motivo, um porque (práxis) e têm dado resultados. Quais são os resultados? Os resultados podem seguir, grosso modo, duas direções: preservação da vida (e da natureza) destruição da vida (e da natureza). São ambas “possibilidades”. Porém, uma preserva, outra elimina. Se somos seres históricos só estamos aqui como produtos da “preservação” da vida (os dinossauros não existem mais – uma possibilidade que se concretizou!!!). Nós também poderemos ser extintos? Sim, claro! A ânsia pelo lucro nos mostra mais e mais essa possibilidade.

Portanto, quem indica os caminhos (seus riscos e possibilidades) não é nenhuma ideia genial, mas as consequências do ato humano no binômio, na tensão interna (na contradição) entre preservação e extinção, entre vida e morte. Então, esse é o critério de validação das ideias e dos atos humanos. Se ambas as possibilidades coexistem como polos opostos interiores um ao outro, há que se agir a favor de um polo e contra o outro (o que não significa que o polo desaparecerá). Portanto, para nós, a realidade objetiva ‘informa’, ela avisa qual polo tem sido prevalente. A essência da verdade é a luta pela preservação da vida, pela qual cada ser realize TODAS as possibilidades do gênero ao qual pertence (não é natural que um gato não mie… não é natural que homens e mulheres morram de fome, sejam amputados, mutilados…).  Mas de tudo isso, você pode se fazer outra pergunta: Afinal, e o que é a vida? Esse é assunto para outra conversa!

> Abs

> *** (resolvi censurar  o nome dela para que sua imagem não se relacionasse de forma distorcida e equivocada aos MEUS posteriores argumentos e conclusões).

Depois dessas mensagens – ao contrário do provável – não dei como opostas as concepções de Marx e Foucault, ouso dizer que por alguns lados elas até se complementam – mas posso estar falando baboseira também.

Veja bem: Não adianta falar para uma criança de 3 anos, sei lá, que 10×14=140. Há uma restrição psíquica que a impede de entender as lógicas por trás disso. Mas eu posso muito bem ensinar-lhe essa sequência de imagens e fazer com que ela as coloque na ordem certa. Não foi exatamente um discurso que a induziu, mas de qualquer forma, foi um condicionamento, algo que exerceu um poder sobre ela (um fator concreto e que interferiu diretamente sobre o seu comportamento).

Porém, ela não sabe a intencionalidade do adulto por trás disso e muito menos teve a oportunidade de relutar (um bom psicólogo behaviorista não teria dificuldades em focar sua atenção). O fato é: O  homem faz parte da natureza e seus discursos fazem parte do que é a realidade concreta .

Vamos pensar no aquecimento global: Cientistas e pesquisadores tomaram conhecimento  do derretimento das calotas polares. Discursaram, mostraram e convenceram uma parcela da população. Algumas medidas foram tomadas, hipóteses levantadas e práticas efetivadas. Tendo repercussões no ambiente (ou não).

Agora vamos imaginar que ninguém na história tivesse tomado noção do caso.

Isso ia impedir que elas derretessem? Ia evitar algum desastre ambiental posterior? Provavelmente não. Essa é a base filosófica materialista defendida por Marx. A realidade existe independente da percepção consciente do homem.

Agora fica a seguinte pergunta: Até onde vai o nosso conhecimento? Porque visto isso, percebe-se que ação e intencionalidade são íntimas da compreensão (ou a falta dela). Mas e nós, vemos o mundo até onde é permitido? Pegue o exemplo da criança e o transforme no que vivemos. Quantos de nossos comportamentos se assimilam ao dela? Quem detém os ”porquês” do fazer? E qual a importância de entender a funcionalidade das coisas?

[CONTINUA…]

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2 responses to “Alienado, eu?

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