A nossa primavera apenas começou

Escrito por Ricardo Targino e publicado originalmente no blog Trezentos.

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Desde junho, a elite política que ocupa os diferentes níveis de governo não tem mais conseguido dormir porque o barulho feito nas redes e na rua não cessa. No Rio, Cabral já não sabe mais como pedir pra que lhe deixem recuperar o sono. Em São Paulo, Alckmin acendeu todas as luzes de alerta com o escândalo do cartel milionário do metrô e um novo chamado às ruas feito pelo MPL, principal organizador daquilo tudo que vimos em junho. Enquanto isso em Brasília, apesar do esforço de Dilma em tentar viabilizar uma Reforma Política, o Congresso não faz mais questão de ‘mostrar serviço’, acreditam já estar livres do sufoco em que se viram com a multidão às suas portas.

Um fantasma ronda as redes sociais

Desde que o MPL anunciou sua volta às ruas marcada para a quarta-feira, dia 14, o sono tem ficado ainda mais difícil para todos eles. A multidão de volta às ruas em SP, em meio ao escândalo do tucanoduto, ao teatro da Reforma Política que subiu no telhado e às ocupações de Câmaras Municipais pelo país afora poderiam ser o estopim de questionamentos maiores e principalmente de um novo ciclo de protestos gigantescos como fizemos em junho.

Evitar que a multidão volte às ruas dia 14 e pare São Paulo tornou-se a principal ocupação do obscurantismo que liga o governador de SP, a elite tucana e ‘comitê central do conservadorismo’ cujos porta-vozes mais conhecidos são Reinaldo Azevedo e a Veja.

A estratégia pensada vem sendo usada habitualmente no Brasil: a criação de um ‘factoide político’ capaz de ‘dividir para conquistar’. Seguem à mesma lógica: trazendo a público alguma ‘revelação’ capaz de instalar uma ‘crise moral’ para dividir aqueles que espalham o chamado dos protestos. Pautados pela crise moral, eles se dividem em longas discussões de acusação e defesa, cujo resultado é desmobilização e o consequente fracasso do chamado às ruas.

A revista Veja, desde junho, procura construir ‘dossiês antídoto’ contra os organizadores dos protestos. O MPL, exemplar em sua organização e blindado pela vitória da revogação dos 20 centavos, dificultou a armação do factoide contra eles. Foi por isso que o alvo escolhido pelo obscurantismo do tucanato para boicotar o chamado às ruas foi a Mídia NINJA.

Plataforma surgida no calor das ruas, os NINJA alimentaram a rede social com a continuidade do processo aberto em junho. Não foi difícil para eles saber das críticas ao Fora do Eixo e de suas inegáveis contradições, tornaram-se o melhor alvo para instalar a crise moral. O convite ao Roda Viva, aceito ingenuamente pelos NINJA, já obedecia à estratégia de colocá-los no olho do furação. Ao mesmo tempo, buscaram incentivar ‘testemunhos’ que fossem capazes de impactar nas redes e por em colapso a organização dos novos protestos. Acertaram no alvo.

Qual organização está livre de críticas? Quem não tem entre seus ex-membros quem acuse incoerências? Gerando desconfiança e provocando a divisão, neutraliza-se ou minimiza-se compartilhamento das convocatórias e das transmissões online dos protestos. É preciso corrigir o rumo para não perder o foco e com isso a chance de amanhã sermos maiores. Basta verificar a queda sensível no compartilhamento NINJA para confirmarmos que atiraram no alvo certo.

As acusações feitas ao FdE obedecem à lógica do factoide.

Acusações gravíssimas para tornar a necessidade de apuração uma exigência que o próprio ativismo se veja obrigado a fazer e também para abrir a via legal de criminalização através do Ministério Público é mesmo o método tradicional do factoide. Mas quando falamos em ‘trabalho escravo’, ‘fanatismo’, ‘estelionato’, ‘abuso sexual’, etc não estamos falando de coisas graves demais para terem perdurado tanto tempo em silêncio?

É mesmo estranho demais que, poucas horas depois de postado, um ‘depoimento’ feito via Facebook se replique de forma ainda mais completa no blog de Reinaldo Azevedo e na Veja para sintonizar uma campanha difamatória e causar a repercussão que causou. A cineasta cujo depoimento foi o estopim da campanha e o blogueiro da Veja já seriam antes “amigos no Facebook”? Qual ‘duto’ da rede social ligaria os dois?

Conheço pessoalmente Beatriz Seigner e mantivemos longos diálogos sobre o Fora do Eixo. Em janeiro, durante o Festival de Tiradentes, passamos horas analisando o coletivo e suas limitações. Até então, não havia qualquer referência a ‘trabalho escravo’, ‘fanatismo religioso’, ‘estelionato’ ou ‘abuso sexual’ no relato de sua experiência com eles. Consultei outros amigos sobre as ‘denúncias’ expressas por ela e todos constatam que jamais tiveram o teor criminal que o ‘testemunho’ pós-Roda Viva trouxe dando início ao processo de satanização e ‘caça às bruxas’ feito contra este coletivo. O que mudou agora? Por quê? A última novidade da campanha é a criação de uma plataforma anônima de denúncia contra o Fora do Eixo na internet nos moldes do Wikileaks.

Não pretendo lançar qualquer dúvida sobre a participação ativa de Beatriz Seigner na armação do factoide. Não tenho dúvidas de que ela não aceitaria fazê-lo de modo explícito. Mas teria sido incentivada a fazer isto, nesta hora e neste tom?  Se sim, quem incentivou? O que pessoalmente mais me decepciona em relação àquilo que eu esperava de Bia é não ter visto qualquer texto seu, 10% sequer dos caracteres usados contra o Fora do Eixo, expressando seu repúdio à apropriação de seu depoimento pela Veja ou palavras suas que colocassem Reinaldo Azevedo em seu devido lugar. Alguém viu? Tem o link?

Atenção, senhores! Tentam nos desviar do foco!

Apurar e investigar o Fora do Eixo? Fala sério! Eu quero apurar a máfia dos transportes, o escândalo do metrô paulista, os estádios da Copa, as relações inescrupulosas da grande mídia. Eu quero lotar o Anhangabaú com o MPL no dia 14 de agosto. Eu quero que as manifestações convocadas na rede sigam seu curso vitorioso. Que os NINJA continuem ao nosso lado transmitindo a porra toda. Que não venham querer sabotar as lutas como se nós fôssemos otários. Não é hora de dividir! Não se faz isso quando a rua está viva e temos a obrigação de vencer. Precisamos, isso sim, é fortalecer as lutas.

Mudar o mundo exige bem mais que curtir e compartilhar. Vínhamos vencendo porque estávamos no caminho certo, apontando os alvos verdadeiros daquilo que nos sufoca. Não permitam que nos confundam o alvo. Não permitam que nos esvaziem as ruas. Não permitam estratégias sórdidas pra nos calar e vencer.

O bom combate continua.

A nossa primavera apenas começou!

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