Retratos de uma Europa esvaziada

Queda absoluta da população alemã e seu envelhecimento rápido expõem desmonte do estado de bem-estar social e rejeição a estrangeiros

Por Gabriela Leite, no Outras Palavras

000078Foto por Eduardo Fagnani

E se o Velho Continente estiver envelhecendo ainda mais? Ao que parece, isso está acontecendo. Pesquisas recentes apontam que a população da Alemanha, país mais populoso do continente, diminui progressivamente. Em 50 anos, deve chegar a 66 milhões — 19% menor do que a atual, de 81 milhões. O país, que é um dos mais ricos, além de líder político da União Europeia, não é o único. A Letônia e a Bulgária, por exemplo, estão em situação até pior. Mas, em meio à crise, estes não têm como fazer nada para reverter o processo — ao contrário dos prósperos alemães, que gastam 264 bilhões de euros por ano em subsídios às famílias.

Porém, estas medidas não têm sido tão eficientes quanto deveriam. O processo de diminuição da população, segundo artigo do New York Times, começou nos anos 1970, no lado capitalista do país, quando a taxa de natalidade caiu para 1,4 — número que se mantém. Demógrafos calculam que para uma população manter-se estável, esta taxa tem que ser de 2,1 filhos por casal. Subsidiar as famílias parece não estar sendo suficiente por questões mais complicadas: os valores e costumes alemães, como sua histórica falta de hospitalidade com estrangeiros.

Além de estar diminuindo, como já se sabe, a população do continente também fica mais velha. Hoje, na União Europeia, há cerca de quatro trabalhadores para cada aposentado — e em 2060, calcula-se, a proporção será de dois para cada um. Este fator, combinado com a redução do número de filhos por famílias, gera um grande problema para o mercado de trabalho alemão.

Algumas das medidas que certos “especialistas” sugerem vão em sentido contrário às políticas de bem estar social, mas já estão começando a ser implementadas. No momento, o governo alemão aumenta a idade de aposentadoria de 65 para 67 anos. Outra solução muito malvista na sociedade alemã, mas que os partidários das políticas atuais insistem em adotar, é a tentativa de fazer com que as mulheres que têm filhos continuem trabalhando. Para tentar reduzir o afastamento do trabalho, o governo aprovou lei que garante creche para todas as crianças acima de 12 meses de idade. Não se trata propriamente, no caso alemão, de uma vantagem. Há décadas, os salários dignos pagos às trabalhadoras, permitiam longos anos de dedicação às crianças.

Outra solução que seria de grande ajuda para resolver os problemas de falta de trabalhadores é uma maior abertura para estrangeiros. Apesar de ter uma história de difícil integração de populações vindas de fora, como os turcos, empresas e autoridades já estão estudando como fazer o país tornar-se mais hospitaleiro para os “melhores” vizinhos. A ideia principal é trazer trabalhadores de países europeus que sofrem com o desemprego, mas pesquisas já mostram que mais da metade dos espanhóis e gregos que vão morar na Alemanha, voltam em menos de um ano. Ao que parece, a solução que deveria funcionar a longo prazo — e não tiraria os direitos já conquistados dos alemães — é pensar em abrir ainda mais as fronteiras europeias, para o mundo.

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