Memória e mídia: o papel da grande imprensa no Brasil

Em entrevista exclusiva, o sociólogo Emir Sader discute o papel da mídia na consolidação do conservadorismo político no país

emirsader

Por Paulo Motoryn e Carolina Piai*

Há 202 anos, no Rio de Janeiro, então capital da colônia de Portugal na América, começou a circular o jornal Correio Braziliense, editado em Londres por Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça. O dia 1o de junho de 1808 foi, portanto, o marco inaugural do que hoje chamamos de imprensa brasileira. O caráter e a postura histórica que os veículos de comunicação assumiram desde seus primórdios, contudo, começaram a ser traçados muito antes.

Na Baixa Idade Média, quando o feudalismo já apresentava seus sinais de esgotamento, as Cruzadas tiveram papel fundamental na formação de uma nova classe social. Em função das novas rotas abertas e de um renascimento comercial e urbano propiciado pela reabertura do Mar Mediterrâneo, surgiram os burgos – cidades medievais no cruzamento dos caminhos dos mercadores. Nestes espaços físicos, nasceu a burguesia, classe protagonista de grande parte das mudanças estruturais no planeta dali para frente e intimamente ligada com a imprensa.

No Brasil, o cruzamento dos veículos jornalísticos com a elite vem do berço. O lançamento da primeira publicação impressa justamente em 1808, ano da vinda da Coroa Portuguesa ao Brasil, não é coincidência. Já que com a transferência da família real e consequente estabelecimento de estruturas de poder mais atentas ao território brasileiro, fez-se necessário um instrumento de legitimação do poder das elites: os veículos de comunicação.

Nestes dois séculos após o seu nascimento, o jornalismo brasileiro acumula episódios que comprovam o seu comprometimento com a consolidação e o aprofundamento do poder conservador. O reacionarismo das publicações coincide não necessariamente com o viés dos jornalistas, mas sim dos proprietários dos veículos de comunicação. A maior parte dos jornais, rádios, revistas e televisões no Brasil pertence a poucas e abastadas famílias, que controlam os grandes oligopólios de informação, servindo aos seus próprios interesses e contrariando a máxima de que o jornalismo é um serviço de utilidade pública.

Neste sentido, é essencial lembrar que a censura à imprensa fez-se presente em mais de um momento histórico no Brasil – na República Velha e durante um período da Ditadura decorrente do golpe militar de 1964, por exemplo. Entretanto, mesmo em tempos de uma dita “liberdade de expressão”, valores democráticos não são estampados de forma clara na imprensa nacional. A censura, cabe dizer, atinge as redações não mais pelos censores estatais, como ocorrera nos períodos acima citados, mas através de outros artifícios – dentre eles, destaca-se a autocensura, em que o jornalista nem sequer tenta procurar pontos de vista que fujam dos interesses do veículo no qual trabalha.

A relação da mídia com o poder segue inescrupulosa até os dias de hoje no Brasil, carregando ululantes evidências de seu caráter consolidador da ideologia burguesa. De acordo com o sociólogo Emir Sader, atualmente existe uma ligação direta do caráter da imprensa com a forma pela qual ela é financiada. “As empresas que constituem a grande imprensa são empresas privadas, que vivem não da venda das suas publicações aos leitores, mas graças às agencias de publicidade que são financiadas pelos grandes anunciantes privados”, afirma.

“Por este meio, as publicações e suas empresas têm o rabo preso com os grandes monopólios privados – bancos, telefônicas, etc. – que condicionam assim o processo político. Impõem suas visões privatizantes, antiestatais e contra os gastos em políticas sociais”, conclui. Se dizendo ciente do caráter manipulador dos monopólios midiáticos, Emir Sader revelou que recusa qualquer tipo de entrevista quando é abordado pelo que chama de “imprensa golpista”.

As estratégias condenadas pelo sociólogo e invariavelmente utilizadas por Folha, Globo, Estadão e demais veículos para conduzir a opinião pública são destrinchadas no livro “Padrões de Manipulação na Grande Imprensa”, de Perseu Abramo. Para o autor, “recriando a realidade à sua maneira e de acordo com os seus interesses político-partidários, os órgãos de comunicação aprisionam os seus leitores nesse círculo de ferro da realidade irreal, e sobre ele exercem todo o seu poder”.

Acompanhando a teoria de Abramo, Emir Sader critica fortemente a postura atual da imprensa em relação ao julgamento do “mensalão” petista. Para o sociólogo, além da própria atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) ser condenável, a mídia contribuiu para que houvesse uma espetacularização do caso às vésperas das eleições municipais no país, no ano passado. “A grande imprensa impõe sua agenda. Por exemplo, o processo no STF, que se centra no Estado, no governo e em um partido de esquerda, aparece como o tema central do Brasil hoje, ao invés da crise econômica internacional e suas repercussões no país, tendo em vista os riscos para a continuidade do crescimento econômico e das políticas sociais – eixo do sucesso dos governos Lula e Dilma”, avalia.

Ao lançar o olhar sobre o panorama das relações político-midiáticas, é interessante recuperar uma consideração do pensador italiano Antonio Gramsci, que decretou ainda no início do século passado que a imprensa se tornaria o mais fiel partido burguês. No caso brasileiro, a lacuna causada pelo descrédito de partidos políticos ligados ao pensamento de direita é preenchida justamente pelos grandes veículos jornalísticos, que reproduzem diariamente tais ideais. O grande problema, contudo, é que por ter o monopólio da informação, a imprensa condiciona a discussão política para que isso passe desapercebido pela população. O sucesso da tática, obviamente, é estarrecedor.

O PASSADO CONDENA

Por tal postura dos veículos de comunicação, acumulam-se manchas na história do jornalismo brasileiro. A interferência da mídia no processo político, por vezes, deixou de ser indireta e até abandonou a falsa bandeira da imparcialidade para mostrar sua verdadeira faceta: servir ao interesse de seus donos, ser subserviente ao capital financeiro internacional e criminalizar movimentos sociais.

A edição do debate do 2o turno das eleições presidenciais de 1989, entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva, exibida pela TV Globo em seus telejornais, foi assumidamente manipulada em benefício do candidato que seria deposto por impeachment anos depois. Como a corrida eleitoral estava tecnicamente empatada até a realização do debate, sua repercussão foi peça-chave no pleito, vencido por Collor. O próprio diretor de jornalismo da Globo à época, Armando Nogueira, em entrevista anos depois, admitiu a incoerência da edição. No entanto, se disse traído e responsabilizou um subalterno pelo incidente.

Alguns anos antes, em 25 de janeiro de 1984, no Viaduto do Chá, quando milhares de paulistanos se reuniam em manifestação a favor do movimento das Diretas Já, a Globo deu mais uma prova cabal de como o seu jornalismo é subordinado a interesses políticos e ideológicos. Aproveitando a coincidência da data do ato com o aniversário da cidade de São Paulo, a emissora carioca afirmou que “mais de 100 mil pessoas se reuniam no centro da capital para festejar os 430 anos da metrópole”. Revoltados, os manifestantes entoaram um grito que tornou-se símbolo da luta contra a ditadura midiática: “O povo não é bobo, fora Rede Globo!”.

Maior jornal impresso do país, a Folha de S. Paulo também tem uma íntima ligação com momentos históricos obscuros do Brasil. A empresa é acusada de ter emprestado carros para que policiais do DOI-Codi, órgão oficial de repressão da ditadura, prendessem e transportassem militantes da esquerda antes e depois das sessões de tortura. Em depoimento para a biografia de seu pai, o ex-dono do jornal, Octavio Frias de Oliveira, o atual diretor de redação, Octavio Frias Filho disse considerar possível que veículos da empresa tenham sido usados por policiais com essa finalidade.

A contribuição da Folha com a ditadura não foi apenas material, mas também editorial. Além do claro apoio ao golpe que tirou João Goulart da presidência, no dia 1o de abril de 1964, não faltam evidências de que o jornal era partidário do regime ditatorial. O editorial “Presos Políticos?”, publicado em junho de 1972, por exemplo, questionava a existência de pessoas presas por causa de suas posições políticas. Escondia, dessa maneira, as torturas, assassinatos e outros atentados que eram realizados nos “porões da ditadura”.

Não por acaso, em fevereiro de 2009, em um editorial criticando o governo de Hugo Chávez na Venezuela, a Folha se referiu à ditadura militar brasileira como “ditabranda”. Sob o argumento de que, “apesar de toda a sua truculência, foi menos repressiva que as congêneres argentina, uruguaia e chilena – ou que a ditadura cubana, de esquerda”. A utilização do termo gerou revolta imediata em alguns setores da sociedade. Nas edições seguintes, 19 cartas de leitores foram publicadas sobre o assunto, com destaque para a reação do jurista e professor da USP Fábio Konder Comparato, que disparou contra os autores do texto: “[Eles] deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro”.

O jornal O Estado de S. Paulo, concorrente histórico da Folha na capital paulista, não fica por menos. Apesar de deixar mais claro suas posições políticas, o Estadão também teve papel importante na ditadura militar. Em 1962, dois anos antes do golpe, o diretor Júlio de Mesquita Filho chegou a escrever o “Roteiro da Revolução”, procurando unir a oposição civil aos militares, o chamado “partido fardado”. Logo após o AI-2, que extinguiu os partidos políticos, em 1965, contudo, o jornal rompeu com o regime e passou a ser alvo ferrenho da censura prévia.

Apesar da oposição ocasional à ditadura no século passado, o Estadão também se notabilizou nos últimos anos por sua postura antidemocrática. Um dos recentes escândalos ocorreu em meio às eleições presidenciais de 2010, quando a colunista Maria Rita Kehl foi demitida após publicar o artigo “Dois pesos…”, favorável ao programa Bolsa Família do governo Lula e contrariando a linha editorial do próprio jornal, que havia declarado apoio ao candidato da oposição, o tucano José Serra, em detrimento da petista Dilma Rousseff.

DEMOCRATIZAÇÃO

O condicionamento do debate político pelas grandes corporações de comunicação gera um conflito acerca da participação do Estado como responsável por garantir a liberdade de expressão. Afinal, do ponto de vista prático, houve uma transferência da liberdade de expressão das pessoas para as empresas. Levando em conta as dificuldades técnicas, econômicas e políticas para se fazer ouvir, a liberdade ficou restrita aos mais ricos, que, por tal condição, perpetuam seus monopólios sem a necessidade de lidar com uma concorrência democrática. A liberdade de expressão individual fica impedida por ter de enfrentar as grandes corporações, que se protegem com o argumento da liberdade de imprensa.

Na Argentina, a “Ley de Medios”, iniciativa da presidenta Cristina Kirchner em democratizar os meios de comunicação, batendo de frente com o grupo Clarín, grande oligopólio midiático portenho, ao exigir limites de concessões ao conglomerado, gerou discórdia. Opositor ferrenho do kirchnerismo, o Clarín comandou uma grande campanha mundial para que se consolidasse a impressão de que a presidenta estaria atentando contra a liberdade de imprensa em um ato de censura. A condução do caso pelo jornal gerou revolta e protestos da população contra o governo.

No Brasil, a democratização da comunicação esteve em pauta nos últimos anos a partir de algumas iniciativas esparsas. Levando em conta seu pragmatismo, o governo federal – sob o comando do PT nos últimos dez anos –, avançou pouco nesta esfera. No fim de seu mandato, Lula delegou a Franklin Martins a função de capitanear as discussões com a sociedade civil sobre formas de democratizar a imprensa brasileira. Dessa maneira, a 1a Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), realizada no fim de 2009, chegou a esboçar os projetos que caminhariam no sentido de promover a liberdade de expressão de fato. Mesmo sendo protagonista do processo, a grande imprensa recusou-se a participar das discussões públicas e não enviou representantes, deixando claro que qualquer decisão tomada ali teria um caráter censor. Boicotada, a conferência não ganhou a projeção esperada.

A atual presidenta Dilma Rousseff, por sua vez, tem um caráter menos incisivo na luta contra os abusos da grande imprensa. Além de ter freado a iniciativa de uma discussão mais séria sobre a democratização, ela segue ajudando a consolidar as grandes corporações midiáticas. Sucessor de Martins na pasta das comunicações, o atual ministro Paulo Bernardo admite que nem sequer a consulta pública sobre o projeto será conduzida em um futuro próximo. Como se não bastasse, Dilma caminha no sentido contrário ao concentrar cerca de 70% das verbas da União para publicidade na “grande imprensa”. Assim, apenas aprofunda o cenário catastrófico da comunicação brasileira, condenada a ter sempre os mesmos veículos como protagonistas na difusão da informação no país.

Expoente da luta armada contra os militares na ditadura, Dilma evoca o período para contemporizar o atual papel dos veículos de comunicação. “É sempre preferível o ruído da imprensa livre do que o silêncio da ditadura”, afirma. A frase reflete a morosidade do atual governo em brigar por uma causa que geraria mudanças estruturais essenciais a um desenvolvimento social mais honesto. Entre o ruído de um jornalismo inescrupuloso e o silêncio ditatorial, a presidenta e o Brasil deveriam escolher o barulho de uma comunicação mais democrática, plural e justa, para que se expresse, enfim, a liberdade.

* Matéria publicada originalmente no jornal Contraponto, do curso de Jornalismo da PUC-SP, em dezembro de 2012.

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