O QUE OCORREU ENTRE 1988 E 2013?

Nos artigos anteriores, procurou-se sublinhar alguns paralelos entre as marchas atuais e aquelas das décadas de 1970 e 1980.  Em essência, os movimentos anteriores lutavam pela democracia e pelos valores do Estado de Bem-Estar. Hoje, eles questionam a qualidade da democracia e da cidadania social que vigoram no país. Essas conquistas dos movimentos anteriores estão sendo cobradas pelas marchas atuais. O que ocorreu entre 1988 e 2013?

Foto Gabriela Batista [FotoEnquadro]

Foto Gabriela Batista [FotoEnquadro]

Por Eduardo Fagnani[1]

O presente ensaio começa a discutir essa questão. A primeira vista, esta quadra parece reprisar episódios analisados por Celso Furtado que denotam a “secular capacidade de as elites preservarem o status quo social”. Analisando os antecedentes do golpe de 1964, o autor relembra que, quando os movimentos de massas ganhavam autonomia, e movida pelo temor de que a porta das reformas da modernização institucional estivesse sendo aberta muito rapidamente pelas próprias vias político-institucionais, a classe dirigente “apelou para as forças armadas, a fim de que essas desempenhassem agora o papel de gendarme do status quo social, cuja preservação passava a exigir a eliminação da democracia formal”.

Em outra passagem, o autor lembra que a imagem do Brasil como “País do Futuro”, muito difundida nos anos 70s, contribuiu para ocultar outros aspectos da realidade de um país “em que a miséria de grande parte da população não encontra outra explicação que a resistência das classes dominantes a toda mudança capaz de pôr em risco seus privilégios”. Em seguida, pergunta:

“A partir de que ideologia esses grupos conseguem racionalizar as próprias decisões, nas quais as preocupações de defesa do status quo social sempre prevalecem sobre os propósitos de desenvolvimento e definição de uma personalidade nacional?” (FURTADO:1979,1-2).

A indignação do autor permanece viva e traz elementos para compreender que entre 1988 e 2013, por diversas vezes, a soberania popular ganhou, mas não levou.

Nos anos 1980s, a manutenção do status quo social foi novamente ameaçada pela força do movimento social. Após cambalearem num primeiro momento, as elites retomaram o fôlego, enterraram a emenda da eleição direta, voltaram ao governo com o novo pacto conservador de transição, manipularam para evitar a vitória de Lula em 1989 e, a partir do ano seguinte, reassumiram suas cadeiras cativas no centro do poder. Passado o susto, conservados os privilégios, acataram o projeto liberal imposto pelos países centrais, abrindo mão de alternativas e de graus de manobras para a resistência política e econômica.

Aqui, abro parênteses para apresentar uma caricatura emblemática dessa recorrente capacidade de “mudar para permanecer”. Observe-se que as marchas das décadas de 1970 e 1980 lutavam contra a ditadura militar, cuja base de sustentação era dada por políticos como, por exemplo, José Sarney. Quase meio século depois, as marchas de 2013 contestam o Parlamento brasileiro presidido, até há pouco tempo, por José Sarney. De presidente do partido da ditadura (o atual “Democratas”), chegou à presidência da República (1985-1990) e do Congresso Nacional durante longos períodos (1995-1997; 2003-2005; e 2009-2012).

Longe de ser caso isolado, essa trajetória é emblemática da fantástica capacidade da classe política para mimetizar comportamentos  para representar os interesses do poder hegemônico (econômico, político, midiático), em cada conjuntura.

Observe-se o paradoxo que há em políticos identificados com a ditadura coordenarem a transição democrática; ou ainda, o fato de que partidos políticos identificados com as marchas populares dos anos 1970s e 1980s (como o PSDB e o PMDB, por exemplo), alguns anos depois coordenarem a implantação do antagônico projeto neoliberal em nosso país. O próprio PT, após resistir por longo período, fez alianças com esses setores retrógrados.

Nos próximos ensaios, destaca-se que a contraofensiva das elites começou em plena transição democrática e caminhou em marcha forçada entre 1990 e 2002. 


[1] Professor do Instituto de Economia da Unicamp, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho (CESIT/IE-UNICAMP) e coordenador da rede Plataforma Política Social – Agenda para o Desenvolvimento (www.politicasocial.net.br).

FURTADO, C. (1979). Brasil: da república oligárquica ao estado militar. In FURTADO, C. (Org.). Brasil: tempos modernos. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

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