Isso não é a Califa!

Através da história de três amigos, documentário mostra o papel do skate na subcultura de Berlim Oriental. Misturando diferentes técnicas e linguagens, diretor Marten Persiel brinca com os limites entre fato e ficção.

thisaintcalifornia

Por Marco Sanchez, no DW

Criado como alternativa para os dias sem ondas nas praias californianas nos anos 1950, o skate virou moda passageira na década seguinte. Nos anos 1970, a prancha com rodas foi reinventada. Jovens de uma decadente área de Los Angeles desenvolveram a personalidade do esporte, graças a rodas de poliuretano e à seca que transformou piscinas vazias em pistas para manobras. Mesmo que involuntariamente, o papel do skate foi sempre de reinterpretar.

“Reinterpretar o cinza que estava ao nosso redor e transformá-lo em um lugar para brincar”, reflete um dos personagens do This ain’t California sobre o papel do skate em sua infância na antiga Alemanha Oriental. O filme é uma espécie de documentário sobre como a subcultura do skate se desenvolveu nos anos 1980 ao leste do Muro de Berlim.

Nessa busca por transformar o feio em especial e achar outro significado na verdade, o diretor berlinense Marten Persiel lançou mão de material de arquivo, animação, reencontro com os protagonistas, fotos e reinterpretações da realidade para costurar seu enredo. Trata-se de entender, mostrar e romancear as transformações e objetivos da juventude em um ambiente onde o individual era marginalizado e o coletivo sempre organizado.

“Quando vemos uma criança brincando com um skate, não podemos deixar de notar que é pura improvisação, criatividade, velocidade e diversão. Compartilhar essa pequena aventura com os amigos é algo que amo até hoje. O skate é um esporte que não precisa de quase nada ou ninguém para ser especial”, declarou Persiel à DW Brasil.

"Pós-documentário" mistura imagens de arquivo e reconstituição de fatos sem deixar clara a verdade

“Pós-documentário” mistura imagens de arquivo e reconstituição de fatos sem deixar clara a verdade

Liberdade e “pós-documentário”

De uma maneira não muito convencional e até controversa, o filme gira em torno da liberdade e de como o skate funciona como seu catalisador. Isso se reflete também na maneira como a história é mostrada. A liberdade artística do diretor não deixa claro ao espectador o que é material de arquivo e o que é reconstituição de fatos.

Persiel conta a história de três amigos que compartilham uma “parte especial” de sua juventude na antiga Alemanha Oriental. O skate é algo que os une e, ao mesmo tempo, os exclui do mundo onde vivem. “O filme é sobre a amizade, o amor pela juventude, tentar novas coisas e ser um pouco rebelde, talvez como a maioria dos jovens que andam de skate”, diz.

Após a morte de Panik, protagonistas relembram o passado

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Os diferentes pontos de vista e certa manipulação narrativa confundem o espectador sobre o que é real. Em nenhum momento, fica evidente o que de fato aconteceu. “Não existe uma história real, mas sim a história que o diretor decide contar. Acho que cabe a mim respeitar e entender sobre o que estou tentando falar”, justifica.

This ain’t California não redefine o gênero, mas poderia ser considerado um “pós-documentário”. Uma definição subjetiva para um filme que encara a realidade como algo complexo demais para ser tratado de maneira convencional.

“Minha responsabilidade é não entediar o público. Para mim, não há diferença clara entre documentário e ficção. Cinema é manipulativo. Nenhuma imagem é o reflexo real da verdade. O que fazemos dessas imagens pode, às vezes, alcançar alguma verdade”, completa o diretor.

Diferentes linguagens

A fórmula do filme consiste exatamente em manipular imagens, brincar com a linguagem cinematográfica e achar a melhor maneira de mostrar os personagens, que relatam o que aconteceu do jeito que lembram.

O primeiro passo para entreter é criar um herói: Dennis, o garoto rebelde com um pai controlador que foge para Berlim. Sua atitude é despreocupada e inconsequente; sua beleza, delicada e selvagem. Ele não só vira um dos mais radicais skatistas da cidade, mas também a personificação do movimento e, consequentemente, alvo do controle das autoridades.

Praça Alexanderplatz, em Berlim, e suas construções de concreto eram palco para manobras

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A lenda de Panik, apelido pelo qual Dennis era conhecido, torna-se ainda maior através da animação de Sasa Zivkovic, que ilustra os sonhos dos jovens. “Foi a melhor maneira que encontrei para mostrar o que era especial e mágico”, explica Persiel.

A experiência do diretor com publicidade e videoclipes é evidente. “Os planos são curtos e rápidos, e isso foi intencional. Queria que assistir o filme fosse como andar de skate, que a plateia se sentisse como um adolescente suado e feliz com os joelhos sangrando”, completa.

A frenética edição é acentuada pela trilha sonora. Para o diretor, a música é “fundamental em um filme jovem”. A trilha pode ser dividida entre a parte histórica, com hits dos anos 1980; a parte mais punk e hardcore, que ilustra a realidade das ruas dos skatistas de Berlim Oriental; e a parte mais sensível, que mostra as dificuldades de crescer ao som de músicas de Troy von Bathalzar – compositor havaiano radicado em Berlim.

A animação de Sasa Zivkovic mostra o lado "especial e mágico" da história

A animação de Sasa Zivkovic mostra o lado “especial e mágico” da história

Filme sobre o amor

O filme levou três anos para ficar pronto, sendo grande parte do tempo dedicada à pesquisa. “Como alguém que cresceu na Alemanha Ocidental, tive que aprender sobre a vida no lado comunista para conseguir capturar o melhor dos personagens e criar a atmosfera ideal”, relata Persiel. O diretor buscou essa mistura também em sua equipe – um paralelo entre a amizade e a colaboração que havia entre os skatistas separados pelo Muro de Berlim.

E a equipe define a obra como um filme sobre o amor. Amor pelas ruas da cidade, pelos amigos, pela vida. E o amor que todos tinham pelo personagem Dennis – herói rebelde, selvagem e sensível do qual todo mundo se lembra e sente falta. Panik personifica a juventude, os verões, as festas, os beijos roubados e os ossos quebrados.

Tais lembranças cheias de amor são como aquelas que não podemos confiar, mas que adoramos desfrutar. Para quem não se importa em ser enganado pela verdade, ou a falta dela, This ain’t California é um dos filmes alemães mais intensos e divertidos de 2012.

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