Menos Jobs, mais Brecht

Por Paulo Motoryn

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“Quanto custa?” fica em cartaz até o dia 4 de outubro (Foto: Divulgação)

Uma das grandes contribuições de Bertolt Brecht à humanidade foi uma guinada no sentido social das peças de teatro. Antes dele, a encenação apenas consolidava valores hegemônicos das elites e não era capaz de escancarar mazelas sociais a fim de transformá-las. A partir das obras do alemão, o papel do teatro como arma para conscientização política e luta social ficou evidente.

A crítica, a provocação e a denúncia típicas dos textos de Brecht estão presentes de forma dura no suspense “Quanto custa?”, encenado no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro de São Paulo. Dirigida e adaptada por Pedro Granato, a peça fica em cartaz até o dia 4 de outubro, de quarta a sexta-feira, às 20h (excepcionalmente, não será exibida nos dias 18 e 25 de setembro).

Enquanto as salas de cinema de São Paulo lotam nas sessões do filme “Jobs”, sobre a vida e carreira do dono da Apple, “Quanto custa?” torna-se obrigação para evitar armadilhas típicas do mundo contemporâneo. O longa-metragem, que mostra a obsessão de Steve pelo sucesso de seus produtos, deveria ser exibido apenas após a plateia assistir Pedro Felicio, Ernani Sanchez e Luís Mármora interpretarem os textos de Brecht.

A valorização do espírito do homem de negócios obstinado, seu desapego à própria filha e aos amigos de outrora, refletem a escala de prioridades de Jobs no tripé sucesso, dinheiro e amor. Mesmo assim, a audiência do cinema se encanta pelo protagonista e seus iPods e iPads. A peça do CCBB, por sua vez, exala criticismo a valores que o filme exalta.

Denunciando a promiscuidade de três comerciantes vizinhos em relação ao aparecimento de um assassino nas redondezas, a encenação escancara o quão grave é, por exemplo, o peso e o poder de grandes corporações e o modelo utilitário e individualista da sociedade atual.

Intercalando cenas de extremo suspense com um humor refinado e essencialmente crítico, “Quanto custa?” é um espetáculo de exatos 60 minutos. No entanto, ecoa e incomoda por alguns dias. Afinal, perceber gravíssimos sintomas de doença da sociedade em que vivemos pode levantar uma velha questão: estar bem adaptado a ela é sinal de saúde?

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