CARICATURIZAÇÃO

Já parou pra pensar em como vivemos num universo de caricaturas? Somos personagens de diferente plateias. Cada pessoa é classificada. Seus traços mais marcantes e avantajados são explorados e exagerados nesse desenho imaginário. Nessa fábrica de cartoons.

Ilustração Guilherme Kramer

Ilustração Guilherme Kramer

Por Lucas Pazetto

Tem o bicho-grilo, loco, careta, irresponsável, ”neurótico”, certinho e por ai vai. Esses dias mesmo recebemos uma carta em minha republica escrita assim: “Parem de fazer gritarias de madrugada seus ”NOIA FDPS” vamos arrebentar com vocês na justiça. Aguardem. Vizinhos.”

Como se representássemos essa imagem exaltada de que somos drogados, vagabundos. Ou sei lá o que eles podem ter pensado.

Troca de bilhetes entre vizinhos

Troca de bilhetes entre vizinhos

Escrevi uma resposta e colei no portão de casa junto à carta deles:

“Ficamos pensando se quem escreveu esta carta foi alguma criança ou algum adulto de fato. A maioria das pessoas na casa não acreditaram que a mensagem teria vindo de algum vizinho, mas sim que seria fruto de alguma brincadeira.

Isso, pois primeiro: Pelo anonimato. Em segundo: pelo uso de um vocabulário ofensivo e informal. Quer dizer… como recorrer a justiça se em momento algum o autor desta carta se apresenta de modo formal? Dando, portanto, legitimidade a sua queixa? A sua ameaça foi infantil e carente de uma solução. POR FAVOR, não nos vejam como ”NOIAS FDP” assim como não procuramos pensar nos senhores como : PSEUDO-ADULTOS que mal conseguem resolver os problemas de vizinhança e que vivem uma vida ordinária e medíocre, apontando dedos e exaltando sua superioridade sem saber com quem estão falando.

Vamos procurar cessar o barulho assim como esperamos que os senhores deem as caras.”

E foi a minha resposta que fez pensar… Eu os enxergo como ”medíocres” assim como eles me consideram ”noia”. Estamos REDUZINDO uns aos outros. Um sobre a expectativa que se têm de vizinho e outro do que se têm de estilo de vida.

Quer dizer… Não existe  o Lucas.  Aquele que tem sua única história. Suas aflições, seus medos, objetivos, vitórias. Existe o Lucas “tal”, que se destaca tanto positivo quanto negativamente aos olhos alheios e vai se rabiscando com chances também reduzidas de mudar, auto explorar-se. Porque é cercado de expectativas na vida social que “cobram” dele diferentes comportamentos. Cobranças que não são sempre recusáveis, pois vão se assimilando às cobranças que ele tem consigo mesmo. Há uma auto-caricaturização.

O “eu”  é rendido. Prensado pela fantasia que lhe fizeram servir.

O psicologo suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) vê, por exemplo, como uma das principais estruturas da personalidade os seus denominados arquétipos: persona, a sombra, a anima, o animus e o self.

“Persona: O termo persona designa a máscara usada pelos atores no antigo teatro grego e representa a forma como nos apresentamos ou somos levados a nos apresentar ao mundo. Ela expressa nossa imagem pública, a ‘máscara’ que usamos para nos apresentarmos ao mundo. Assim ela é a ‘boa impressão’ com que todas as pessoas pretendem preencher seus papéis nas sociedades. Por outro lado ela também pode representar a ‘falsa impressão’ que usamos para manipular a opinião e o comportamento das pessoas.” – revista Psicanálise, Ed. especial encadernada 3 pág. 50]

E ai faz pensar… Qual será a relação que essas máscaras tem umas com as outras? Porque, afinal, elas tem algo em comum: Seu usuário! O “João do trabalho” é diferente do “João da família”, que é diferente do “João dos amigos”, “da festa”. Mas até onde? Eles agem de maneiras diferentes, têm mais liberdade num ambiente, vergonha em outro. Possuem funções distintas. Mas são a mesma pessoa e isso não pode ser ignorado.

É uma grande censura de si mesmo achar que você pode ser esse ator onipresente e multifuncional das diferentes peças de sua vida.  Como se pudesse separar a si. Nossa sociedade cobra muito essa metamorfose constante. Os nossos comportamentos sofrem adequações cotidianas. Seja na balada, em casa, na faculdade. E essa segregação de momentos e adequações segregam também a nossa ideia de um sujeito unificado. Fiel a si mesmo. livre-arbitrário.

Querendo dizer com ”livre-arbítrio” a possibilidade de agir de acordo com o que se pensa, porque pôde-se pensar.  Formando opinião sobre si mesmo e de seus papéis sociais. Ciente de sua inserção e atuação mútua com o mundo que o cerca.

Eu posso me adequar, devo me adequar. Não somos sós. Mas e quando somos privados de nos enxergarmos por detrás dessas máscaras? Vivendo a mercê das expectativas sociais?

Como se elas fossem inquebráveis, sólidas… E o pior… Naturais.

Aí Lucas deixa de ser Lucas.

Lucas até acredita que é lucas, mas ta distante de poder ser outra coisa.

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2 responses to “CARICATURIZAÇÃO

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