Mc: profissão de risco?

O assassinato de Daniel Pellegrini (Mc Daleste) deixou marcas profundas na família do cantor e no Funk Nacional. O caso repercutiu no mundo inteiro comovendo e, por mais bizarro que pareça, gerando “alegria e contentamento” em algumas pessoas com a morte do cantor. 

Campanha: “Eu pareço suspeito?” – Arte: Panikinho

Campanha: “Eu pareço suspeito?” – Arte: Panikinho

Por Fernando Morgato*, colunista da Revista Vaidapé.

Não irei escrever sobre o assassinato, pois, a meu ver, não há o que se escrever além do que já foi escrito. Irei falar sobre outro problema.

É sabido que pobre, negro e favelado sempre foi classificado como caso de polícia. Afinal, a sociedade teme a criatura (“monstruosa”) que ela mesma criou. Os jovens da periferia convivem cotidianamente com a violência de um Estado de exceção e com a ação truculenta da polícia – o que fomenta o ódio contra esta instituição. Essa realidade piora quando você a une com uma possível ascensão social (e econômica) vinda por parte desses jovens da periferia.

O “Funk Ostentação” chegou a São Paulo pela via de uma vertente que é criminalizada, o “Proibidão”. Esta vertente que, para alguns, traz em suas letras um discurso apologético ao tráfico de drogas também pode ser entendida (apesar das inúmeras rejeições – que sempre vem carregadas de preconceito) como pequenas crônicas de um cotidiano estruturado, simbólica e fisicamente, no caos.

Quem mora na periferia e, claro, é pobre, negro reconhece o tratamento “VIP” e diferenciado que recebe em cada beco e viela. Não é preciso ser um cientista político ou um sociólogo renomado para compreender que o tratamento da polícia na periferia com os jovens é desumano. Atrelado a essa violência temos a omissão do poder do Estado que não garante a segurança desses moradores. E onde há omissão do poder do Estado abre-se brechas para que outros poderes ocupem este espaço e construam o modelo de “ordem e progresso”.

E o “mercado”, caro leitor, não é preconceituoso, ao contrário, ele é “democrático”. O tráfico já financiou – e financia – de tudo nessa vida: campanha política; jogos (e jogadores) de futebol; departamentos policiais; Carnaval; Hip-Hop; Rap; Bailes Funk (sim, bailes funk!!!) etc. Não será surpresa que algumas pessoas ao ler essas linhas comentarão: “Aí, tá vendo, e depois querem que olhemos o Funk com bons olhos!”. Se você for uma dessas pessoas, pare agora esta leitura; senão, continue e acompanhe o meu raciocínio.

Se um ritmo cultural é financiado pelo tráfico, isso explica muita coisa, certo? Sim, e não. Explica que as Prefeituras e a Secretaria de Cultura não estão atuando nessas comunidades com políticas públicas. Mais uma vez: “onde há omissão do poder do Estado abre-se brechas para que outros poderes ocupem este espaço e construam o modelo de ‘ordem e progresso'”. É fácil, para não dizer cômodo, enxergar o financiamento do tráfico e transferi-lo como uma aliança ou sociedade ao Funk. O que poucas pessoas conseguem ver é que esse mesmo financiamento só acontece porque o Estado enxerga essas pessoas e a cultura produzida nas periferias como algo contraproducente.

Mas, espera! O Funk Ostentação – mesmo com toda a anulação social e cultural – não conseguiu produzir – mesmo que de um modo “contraditório” – um estilo de vida nos jovens da periferia e, mais que isso, instalou-se num território até então pouco visitado por muitas culturas, o território da nossa “querida” elite? Se isso realmente ocorreu, existe algo muito errado ai: ou a nossa Secretaria de Cultura e as Prefeituras não sabem o significado de “produtivo”, ou a nossa sociedade está realmente num estado crônico de letargia.

Esses debates só acontecem em decorrência do conflito que existe entre “cultura erudita” (“alta cultura”) e “cultura popular” (“baixa cultura”). Mas, recentemente, este combate recebeu mais um integrante, a “cultura de massa”. Este último deixou as coisas um pouco mais confusas. Um pouco ambíguo e bastante contraditório a “cultura de massa” também é, se podemos usar tal expressão, “democrática”. Ela permite (mesmo com recursos e produções reduzidas, fragmentadas etc.) que pessoas de diferentes classes sociais e étnicas compartilhem e conheçam diferentes culturas.

Este novo veículo permite que ritmos como o Funk atrevessem barreiras que até bem pouco tempo eram consideradas impossíveis. O problema é que alguns críticos enxergam essa pluralidade como algo negativo, contraproducente para ser mais exato. Para alguns, o conteúdo dessa nova “cultura de massa” chega aos receptores empobrecida por causa das transformações que sofre no percurso. Isso faria com que ela regredisse os sentidos e reproduzisse valores distorcidos.

Análises à parte, essa cultura também possibilita que jovens (mesmo que poucos) consigam alcançar a ascensão social – mesmo que pelas vias do discurso animalesco do capitalismo. A questão é que estes novos “patrões”, como gostam de ser chamados, incutam na juventude de hoje um desejo de ascensão social que o próprio sistema capitalista – e o Estado, diga-se de passagem – não conseguem. A diferença está nos desdobramentos desse ritmo e dos discursos proferidos por ele – e seus interpretes.

O Funk criou em muitos jovens – que eu tive o prazer de conhecer – o sentimento de criar e escrever as suas próprias letras e relatarem os fatos e casos que acontecem nas suas comunidades, ou a sua própria condição de vida – vide a música do Mc Daleste “Minha História”; ou Mc Andrezinho Shock, do Rio de Janeiro, “Injustiçado”.

Este fenômeno desvelou também uma critica que já muito tempo vinha sendo feita pelos educadores: “os jovens chegam ao ensino médio sem saberem ler e escrever”. Deste modo, muitos jovens buscaram por meio de Ong‟s e outros órgãos programas de letramento para recuperar este atraso. Estou fazendo um levantamento na minha comunidade, “Cohab Brasilândia B12”, onde busco a partir dos livros de cadastros das fábricas de culturas e Ong‟s o interesse de jovens pelo programa de letramento e alfabetização.

Muitos jovens estão querendo se tornar Mc‟s e, infelizmente, sabemos que apenas uma pequena parcela alcançará o sucesso dos atuais. Mas, podemos também observar uma transformação no cenário periférico. Os Mc‟s de hoje são uma inspiração, ícones para essa juventude exilada e excluída. E os próprios jovens reconhecem o risco que é ser Mc. Para alguns, ser Mc traz muitas responsabilidades, além de muitos riscos. Vai variar da vertente que você escolher seguir, pois, se você canta “Proibidão”, mesmo que o abandonando futuramente, você está fadado a ser alvo de milícias e outras gangues do tráfico.

Se os próprios jovens que não são Mc‟s reconhecem a violência que existe contra os Mc‟s que cantam as crônicas das periferias, como pode os órgãos competentes e responsáveis pelas investigações das mortes dos sete Mc‟s não reconhecerem?

Ser Mc, hoje, tornou-se uma profissão de risco, pois ao mesmo tempo em que você se torna alvo da “elite” pela sua ascensão social e por, de algum modo, estar alterando o modus operandi da classe “A”, você, dependendo da vertente que escolher, pode vir a ser mais um na lista dos milicianos, ou ser tachado de ladrão. Não há, hoje, uma resposta para a situação caótica e perigosa que se encontra o Funk. Há, entretanto, criticas e acusações exacerbadas, muitas vezes equivocadas, contra o ritmo e a posição social que muitos desses jovens veem buscando e enfrentando.

Minha sugestão é: precisamos urgentemente alterar este status quo de que para ser rico, ou possuir uma posição de destaque social ou econômico é necessário uma herança familiar. Só uma sugestão.

*Fernando Morgato é graduando da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e estuda o fenômeno do Funk e seus desdobramentos na cidade de São Paulo para a produção da sua monografia (TCC).

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