O rap e a música como literatura divergente

Não há uma definição que consiga separar definitivamente a poesia e a música. Literatura e rap confundem-se, principalmente nas periferias do Brasil.

Por Bia Avila

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A popularização do gênero musical, acelerada com o surgimento de grupos como Racionais Mc’s, criou uma literatura marginal nesses locais. “Para nós, a música não é só música”, resume GOG, um dos pioneiros do movimento rap no Distrito Federal, durante o evento “Literatura Negra e muito mais”, realizado no último sábado, dia 14, na Biblioteca Pública Alceu Amoroso Lima.

Genival Oliveira Gonçalves, nascido em Sobradinho (DF), adotou o pseudônimo GOG – suas iniciais – no final dos anos 80. É um dos artistas mais premiados do hip-hop brasileiro, entre os cinco primeiros do Prêmio Hutúz, principal premiação do gênero. O clipe Brasil com P ganhou como um dos quatro melhores videoclipes da década. Em 1993, lançou o Selo Independente “Só Balanço” para apresentar seus trabalhos e dar espaço a novos talentos que não conseguiam prosperar no mercado musical.

Com a evolução do Hip-Hop e do Rap, incentivada pela criação das rádios comunitárias, GOG e outros artistas puderam criar um tipo de literatura dentro das comunidades, inseridas nas próprias letras das canções. “Uma literatura divergente, vinda de um mundo divergente”, resumiu o artista.

Chamado de “Poeta do Rap Nacional” pelo produtor musical Fabio Macari, GOG apontou a força do hip-hop como fator transformador das periferias. “Através desse texto (do rap) que nos tornamos protagonistas da nossa própria história”, afirma, ressaltando que a letra das músicas é uma “convocação” para os moradores dessas regiões.

Genival ainda falou um pouco da responsabilidade que o artista tem quando vai escrever suas letras, sabendo que milhares de jovens vão ouvir aquela criação. “Minhas músicas são minha história, meu sofrimento, o que eu vi durante minha vida”, explica. “Mas encontro problema em como escrever, sabendo que ela vai repercutir em meus fãs”.

O rapper ainda encontrou espaço para falar sobre a exclusão do negro na sociedade brasileira. “Quando começamos, não éramos um movimento negro, mas sim negros em movimento”, brincou. “E o Brasil continua racista. Estão matando e prendendo cada vez mais os jovens negros”, lamentou.

Em julho deste ano, o rapper anunciou o encerramento de sua carreira para dedicar-se mais a sua família. Seu último show está agendado para novembro.

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