Alienado, Eu? [parte 2]

No último texto dei um exemplo de como podemos ser levados a “agir” sem sabermos os “porquês” e indaguei a importância de entendermos a funcionalidade das coisas, tal como nosso próprio comportamento. Além de discutir um pouco também sobre as divergências entre a concepção materialista marxista e o idealismo de Foucault.

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Ilustração Beatriz Castanho

Por Lucas Pazetto

Bom, afim de procurar mais informações sobre o primeiro artigo utilizei do livro “O que é ideologia” da professora de filosofia da USP Marilena Chauí e alguns conhecimentos que adquiri sobre a psicologia sócio-histórica.

De forma resumida e, portanto assumindo uma superficialidade do tema, quero lembrar que o intuito desses textos e seus posteriores tem valor didático e não procura encontrar uma ”revelação” ou conclusão da visão certa ou errada. Mas sim dar a oportunidade para que, mais um vez, possamos entender a amplitude do tema e a necessidade de nos conciliarmos com as visões já existentes e de notoriedade dele. Nesse e no próximo texto em especial abordarei a concepção marxista para posteriormente fazer o mesmo com a de Foucault, para que depois possamos compará-las e entendê-las melhor.

Para Marx o homem se constitui, desde a formação de seu psiquismo até as formas de organização social, por um processo de apropriação da natureza e interação social. Uma troca mútua com o “meio” por meio do trabalho (que não é necessariamente esse que conhecemos) mas sim a atividade do homem transformando a natureza e sendo transformado por ela, promovendo a produção das condições de sua própria existência social e de sobrevivência. A tão proclamada práxis.

”[…]Mas o que interessa realmente à dialética materialista não é a simples relação dos homens com a Natureza através (pela mediação) do trabalho… O que interessa é a divisão social do trabalho e, portanto, a relação entre os próprios homens através do trabalho dividido. Essa divisão começa no trabalho sexual de procriação, prossegue na divisão de tarefas no interior da família, continua como divisão entre pastoreio e agricultura e entre estes e o comércio, caminha separando proprietários das condições do trabalho e trabalhadores, avançam como separação entre cidade e campo e entre trabalho manual e trabalho intelectual. Essas formas da divisão social do trabalho, ao mesmo tempo em que determinam a divisão entre proprietários e não proprietários, entre trabalhadores e pensadores, determinam a formação das classes sociais e, finalmente, a separação entre sociedade e política, isto é, entre instituições sociais e o Estado.”

Ou seja, há uma separação, um distanciamento paulatino entre as condições sociais do homem e a sua práxis. Sua atividade parece não ser mais a própria formadora de sua organização social e material.

Ao falar da divisão entre o trabalho manual e o intelectual lembro-me de um exemplo dado em uma de minhas aulas: O modo como nossa própria fisiologia se desenvolve a partir de nossa atividade dominante. Alguém que manuseie uma inchada por toda sua vida pode sentir dores ao tentar escrever e vice-versa. Isso pois a musculatura vai se formando de maneira diferente para as duas atividades. E isso faz pensar… Essa segregação está distante de ser apenas uma questão abstrata. Ela ocorre em nossos corpos, em manifestações físicas, fazem parte de nossa realidade concreta. Assim como a alienação.

Agora, como isso ocorre? Para Marx principalmente através das IDEOLOGIAS.

“[…] A divisão social do trabalho torna-se completa quando o trabalho material e o ‘espiritual’ se separam. Somente com essa divisão ‘a consciência pode realmente imaginar ser diferente da consciência da praxis existente, representar realmente algo, sem representar algo real […] Nasce agora a ideologia propriamente dita, isto é, o sistema ordenado de idéias ou representações e das normas e regras como algo separado e independente das condições materiais, visto que seus produtores – os teóricos, os ideólogos, os intelectuais – não estão diretamente vinculados à produção material das condições de existência. E, sem perceber, exprimem essa desvinculação ou separação através de suas idéias. Ou seja: as idéias aparecem como produzidas somente pelo pensamento, porque os seus pensadores estão distanciados da produção material.”

“[…] Assim, por exemplo, faz parte da ideologia burguesa afirmar que a educação é um direito de todos os homens. Ora, na realidade sabemos que isto não ocorre. Nossa tendência, então, será a de dizer que há uma contradição entre a ideia de educação e a realidade. Na verdade, porém, essa contradição existe porque simplesmente exprime, sem saber, uma outra: a contradição entre os que produzem a riqueza material e cultural com seu trabalho e aqueles que usufruem dessas riquezas, excluindo delas os produtores. Porque estes se encontram excluídos do direito de usufruir os bens que produzem, estão excluídos da educação, que é um desses bens.

Em geral, o pedreiro que faz a escola; o marceneiro que faz as carteiras, mesas e lousas, são analfabetos e não têm condições de enviar seus filhos para a escola que foi por eles produzida. Essa é a contradição real, da qual a contradição entre a ideia de ‘direito de todos a educação’ e uma sociedade de maioria analfabeta é apenas o efeito ou a conseqüência.”

A palavra “contradição” acima não se assemelha a ideia de oposição. O conceito de contradição para a dialética materialista NÃO procura tratar duas coisas com propriedades distintas e independentes uma das outras em sua existência e análise, por exemplo: O escravo e o senhor. Mas procura tratar a existência delas como algo inter-relacionado, dependentes de sua existência mútua sem poderem ser apartadas das condições nas quais se criam e se relacionam (negam): Não existe o escravo sem o senhor. Assim como não existe o senhor sem o escravo. E já aproveitando o exemplo do último parágrafo faço o meu:

Imagine um sistema escravocrata. No qual o escravo é ameaçado gradativamente a partir de novas leis. Vamos pensar que uma dessas leis é a proibição da chibata. Pois eu lhe pergunto: Proibir a chibata fará do escravo menos escravo? Alguns acreditarão que sim.

E é isso que as ideologias promovem, uma verdadeira censura da realidade! Pois fazem com que o homem discuta abobrinhas sobre abobrinhas acreditando lutar por interesses coletivos sem perceber que essa luta só existe pois vivemos a própria contradição material de sua existência. Como dizia Marx: “De bem intencionados, o inferno está cheio”.

Pois eu digo… A classe média também, não? – Uma generalização, caso hajam críticos de plantão – Mas isso é conversa pra outra hora. Assim como também seria falar das empresas juniores das universidades estaduais.

Bom, dito isso, entende-se que a alienação não é um simples engano da consciência, mas é um fenômeno objetivo.

“A alienação é um processo ou o processo social como um todo. Não é produzida por um erro da consciência que se desvia da verdade, mas é resultado da própria ação social dos homens, da própria atividade material quando esta se separa deles, quando não podem controlá-la e são ameaçados e governados por ela. A transformação deve ser simultaneamente subjetiva e objetiva: a prática dos homens precisa ser diferente para que suas idéias sejam diferentes.”

Vale lembrar que a teoria, enquanto não ideológica (como a de Marx), não procura causar uma “conscientização” para que aja mudança, ou uma quebra dessa alienação, apontando uma consciência real e uma falsa. Ela procura apontar quais as condições históricas e reais relacionadas a atividade do homem em sua prática que implicam a dominação de uma minoria sobre uma maioria. “A teoria está encarregada de apontar os processos objetivos que conduzem à exploração e à dominação E aqueles que podem conduzir à liberdade”.

Agora, isso abre espaço para duas novas discussões. Visto que estamos todos engendrados nesse processo histórico – e por que não, Alienado -, eu pergunto:

Que liberdade é essa? E o que seria então livre arbítrio?

[Continua]

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