40 anos do golpe chileno: memórias de um sobrevivente

Foto Marcela Reis

Ênio Bucchioni, professor e sobrevivente da Ditadura Pinochet: Foto Marcela Reis

Ênio Bucchioni, sobrevivente da ditadura Pinochet, fala sobre a força das massas chilenas durante o governo Allende e sobre o golpe de 1973

Por Marcela Reis

Há 40 anos, o Chile sofreu um violento golpe de estado, que instalou uma ditadura opressora sob comando do general Pinochet. No último dia 15, a memória de diversos grupos de esquerda massacrados, de milhares de militantes torturados e de dezenas de amigos mortos foi resgatada pelo professor Ênio Bucchioni, que é um sobrevivente da ditadura brasileira e chilena, na sede do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) em São Paulo. O professor, no evento que foi aberto a todos, contou um pouco de sua história, marcada pelas lutas contra a ditadura na América Latina.

Na década de 60, Ênio começou a estudar Engenharia na FEI (Faculdade de Engenharia Industrial) e era muito ativo no movimento estudantil. Como não se identificou com o curso, saiu da faculdade e prestou vestibular para Matemática e Ciências Sociais na USP (na época era possível se matricular em dois cursos diferentes na mesma universidade). O Brasil passava por uma “ditadura feroz”, como define o professor, e ele começou a se interessar pelo socialismo.

O general Médici, que presidiu o Brasil de 1969 a 1974,  implantou uma política extremamente violenta. “Eu achava errado como elas agiam, acreditava que as massas é que fariam história”, afirma Ênio sobre as guerrilhas, criadas em 1969, com objetivo de fomentar uma revolução socialista no Brasil. E completa: “Eles eram minoria e, como dizia Rosa Luxemburgo, sem a maioria do proletariado não se deve fazer revolução nenhuma”.

Nesse período, a namorada de Ênio na época, Lena, foi presa. Um professor dela pediu-lhe um favor: para que guardasse uma mala em sua casa. Ela aceitou sem saber que ali estava uma grande quantidade de dinheiro, proveniente de um assalto, e de munição. Lena ficou presa durante uma semana, pois a polícia foi atrás de seu professor, que denunciou que o dinheiro roubado estava na casa dela. Meses se passaram e a Operação Bandeirantes (OBAN) continuou atrás de Lena, então ela e Ênio resolvem se exilar fora do Brasil. Foram para o Uruguai, que era uma democracia, e depois para a Argentina, que também passava por uma ditadura militar, porém mais branda que a brasileira. Em 1971, resolveram ir para o Chile, que era como um “paraíso terrestre para a esquerda”, nas palavras do professor.

“Chegando no Chile, me espantei com um comício realizado pelo recém-empossado presidente da época, Salvador Allende, que teve a participação de 300.000 pessoas levantando bandeiras vermelhas”. A política esquerdista do presidente, marxista e fundador do Partido Socialista (PS), era totalmente diferente da ditadura militar brasileira que Ênio tinha vivido por anos. “Certa vez houve até uma manifestação em prol da estatização de uma empresa, e quem reivindicava isso era um ministro do governo”, completa o professor.

Nas eleições de 1970, Allende concorreu como candidato da coalizão de esquerda e conquistou 33% dos votos. Para assumir a presidência, assinou um documento que previa quais estruturas não poderiam ser alteradas: a constituição, a educação, as Forças Armadas e os meios de comunicação. Seu governo passou a controlar 60% da economia do país e se caracterizou pela relação entre instituição e revolução: o presidente tentou ganhar as instituições por dentro, sem modificar suas estruturas.

Allende ficou conhecido por implementar um reformismo radical, sendo que algumas das medidas que tomou foram: nacionalização de bancos e de minas de cobre; aumento de todos os salários; crescimento do PIB em 8%; orientação do crédito para pequenos empresários; redução dos juros; construção de prédios populares, que serviram de moradia para os sem-teto; aumento da produção industrial em 12%; redução do desemprego; crescimento da distribuição de renda; projeto que estabeleceu que toda criança tinha direito a um litro de leite por dia.

“O Chile se encontrava numa situação pré-revolucionária, a prole estava no ataque e a burguesia na defensiva, acontecia o inverso do que sempre ocorreu no Brasil” afirma Ênio. Em outubro de 1972, estoura uma greve do patronato em âmbito nacional e começam a faltar alimentos e produtos, os juros sobem e o mercado negro passa a ser muito procurado. A situação só não piorou devido à auto-organização dos trabalhadores, o proletariado tomou as fábricas e aumentou em larga escala a produção. Os cordões industriais (regiões fabris) se formaram e os sindicatos, que eram por unidade de fábrica, passaram a coordenar a produção. “Não aconteceu só aquilo que a gente sempre leu nos livros, a prole, além de deter os meios de produção, tomou as fábricas” aponta o professor. Os camponeses se apropriaram das fazendas, as comunas se organizaram para ajudar na colheita e no transporte, e os policiais se posicionaram do lado dos trabalhadores. Durante 26 dias, o proletariado controlou a economia, Ênio afirma que “a revolução havia começado, todos viram que um país funciona sem a burguesia, ela é desnecessária”.  E completa: “Marx estava certo o tempo todo”.

Em contrapartida, essas situações revolucionárias são curtas, o poder chileno estava na rua e ninguém obedecia ninguém, faltava ordem. Em toda revolução surge o conceito de “duplo poder”, designado por Leon Trotsky, a massa constrói seu próprio poder por uma necessidade e a burguesia, consequentemente, se contrapõe. Passou a ser comum os policiais fazerem vistorias nas fábricas para buscar armas, sendo que apenas as Forças Armadas poderiam detê-las. “Todos sabiam que o golpe viria, não dava pra negar. Em 29 de junho houve até um ensaio de golpe para ver a reação do governo”, conta Ênio.

Devido a essa conjuntura instável, a economia chilena começou a retroceder: faltavam montadoras, prejudicando os transportes; a Bolsa de Londres, que controlava o preço do cobre, o baixou drasticamente; a inflação cresceu muito e faltava comida. O governo esquerdista de Allende passava por um mau momento, muitos setores que apoiavam seu governo mudaram de lado, uma parte do proletariado passou a fazer greve para que os salários aumentassem.

O ministro de Allende da época, Carlos Prats, renunciou a pedido do povo, e em seu lugar o general Augusto Pinochet assumiu. Os militares tomaram o poder em 11 de setembro de 1973 sob o comando do novo ministro. “O golpe foi um verdadeiro massacre, bombardearam as fábricas, não pouparam os trabalhadores” lamenta Ênio, que dois dias após o golpe foi preso por ser estrangeiro. O Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), que estava razoavelmente preparado em termos de armamento, lutou contra o exército, mas não escapou do massacre. Alguns batalhões policiais de esquerda se rebelaram e foram fuzilados sem piedade.

“Eu respeito o Allende por sua coerência e por ter se dedicado ao que acreditava, mas do ponto de vista político eu o acho responsável pela morte de cem mil pessoas” afirma Ênio. Completa dizendo que “há décadas a História já havia registrado que esse caminho que ele tomou não daria certo, existem vários exemplos que comprovam, como a Revolução Russa, a Frente Popular da França e a Revolução Espanhola da década de 30. Todos os casos não foram bem sucedidos, terminaram com fascismo”.

Após o exílio de três anos no Chile, onde ajudou a fundar o Ponto de Partida, Ênio retorna ao Brasil e contribui para a formação da Convergência Socialista e do PSTU, além do Coletivo Socialismo e Liberdade (CSOL) e o PSOL, do qual ainda é militante. Atualmente, ele participa da construção de uma nova corrente interna do PSOL, que engloba o CSOL, Enlace, CLV, entre outros.

Pinochet, em 1980, promulgou uma constituição que legalizava sua política ditatorial e, como consequência, grupos organizados começaram a pressionar o governo. Um plebiscito foi realizado e sete anos depois foi decidido que ele não poderia mais permanecer no país. O processo de redemocratização do Chile, que desde 1973 vivia sob uma ditadura, se iniciou em 1989, com eleições democráticas. Patricio Aylwin foi eleito e iniciou a punição dos militares envolvidos nos crimes ditatoriais, o que até hoje não aconteceu no Brasil.

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