Assange: “A liberdade de todos é mais importante que a minha”

Em videoconferência para o público paulistano, fundador do Wikileaks tocou em assuntos delicados, como a espionagem estadunidense

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Por Andressa Vilela e Marcela Reis

“Julian Assange e Edward Snowden são heróis, devemos reconhecer o serviço que prestaram à democracia e à soberania brasileiras ao revelar os documentos secretos dos Estados Unidos” afirmou Juca Ferreira, secretário de Cultura de São Paulo, em abertura da videoconferência com o jornalista e fundador do website Wikileaks, Julian Assange. O evento, que aconteceu no último dia 18, compôs o seminário “Liberdade, privacidade e o futuro da internet” realizado no Centro Cultural São Paulo (CCSP) com entrada franca. Além da videoconferência, outras três mesas de debate que discutiram a internet na atual conjuntura mundial também integraram o seminário realizado pela Secretaria Municipal de Cultura e pela Boitempo Editorial.

Após o vazamento de inúmeros documentos diplomáticos secretos dos Estados Unidos em 2010, Assange, que está há quase um ano exilado na embaixada equatoriana em Londres, passou a ser mundialmente conhecido. Ele diz ter sido preso sem acusação, o Pentágono afirmou que o jornalista queria destruí-lo quando o Wikileaks declarou que iria publicar os 251 mil telegramas trocados entre Estados Unidos e Iraque e Afeganistão. “O que foi publicado não pode ser desfeito e as pessoas têm o direito de saber o que acontece no mundo” se defendeu Assange. Ele completa dizendo que o Wikileaks tem a função de enfrentar a pressão e tornar público assuntos delicados. “Muitas pessoas estão solidárias a nós”, afirmou.

Juca Ferreira apontou a internet como um meio de serviço cultural democrático que deve ser usado a favor de todos os setores da sociedade, principalmente a cultura. “Tudo se modifica a partir desse meio, que amplia também a possibilidade de controle social”, pontuou. O secretário ainda parabenizou a presidente Dilma Rousseff por sua decisão de cancelar a viagem que faria a Washington depois das denúncias de que os Estados Unidos espionam o Brasil. Juca também aproveitou para fazer um apelo: que Dilma concedesse asilo para Edward Snowden, jovem que tornou pública toda a ação de vigilância do país norte-americano.

A mesma atitude foi repetida por Natalia Viana, jornalista da Agência Pública e representante do Wikileaks no Brasil, que afirmou que tudo o que o Brasil sabe sobre a espionagem veio de Snowden e por isso seria uma obrigação conceder abrigo a ele. Para ela, o país é, atualmente, a “grande Meca” da vigilância, devido aos megaeventos que se aproximam e às manifestações populares que se tornaram frequentes. A palestrante pontuou, ainda, que a atividade do site Wikileaks é “jornalística por essência”.

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Guerra contra o terror

Poucos dias depois do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, o Departamento de Justiça norte-americano aprovou a lei de mobilização contra o terrorismo, que legitimou a quebra de sigilos e o uso de escutas telefônicas para investigar possíveis atos terroristas. Com a justificativa de “guerra contra o terror”, o governo americano montou um aparato de espionagem em âmbito global. Para Assange “a administração de Obama é perigosa, pois ele persegue muito mais os denunciados por terrorismo do que todos os presidentes anteriores”. Para ele, os Estados Unidos serão isolados se continuarem com sua política invasiva.

Os Estados Unidos têm um aparato de segurança nacional capaz de controlar até 98% das comunicações da América Latina. Sobre o caso do Brasil, especificamente, o jornalista declarou que “a estrutura de comunicação do país foi roubada”. Afirmou ainda que “o Brasil está sendo invadido por uma jurisdição dos Estados Unidos, que está fazendo sua lei valer no estrangeiro”.

Liberdade de imprensa

No Iluminismo, a liberdade de imprensa foi conquistada e em toda a história dos Estados Unidos foi considerada um valor de extrema importância. Mas casos como o de Assange, que é investigado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e corre o risco de ser processado, mostram claramente que essa liberdade conquistada há séculos está se perdendo – ou talvez nunca tenha existido. O jornalista defendeu que “esse processo é parte de um colapso que deve acontecer para que a liberdade imprensa avance”. E completou: “Faz parte da natureza deles [governo dos Estados Unidos] odiar a imprensa e o público”.

Acerca da sua situação e a de outros exilados políticos, Assange revelou não ter pensado muito em si nos últimos meses. “Há coisas mais importantes que a minha liberdade: a liberdade de todos nós”, afirmou. Aproveitou o espaço para incentivar que o exílio de Snowden, na Rússia, seja renovado por mais tempo. Segundo o jornalista, quando alguém faz o que Snowden fez é um incentivo para que outras pessoas revelem muitas coisas.

Apesar de todo o pessimismo envolvendo a ação da internet, Assange pontuou que é devido tamanho avanço que comunicações como a que ocorria durante a palestra –uma videoconferência- podem acontecer. Ele acredita que é necessária uma nova política internacional para que seja possível lidar com todos os problemas causados pela globalização tecnológica e que se possa definir onde estão as fronteiras entre o que é Estado e o que não é.

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Quando questionado sobre o papel dos governos na estrutura tecnológica global, Assange respondeu que primeiro é preciso saber o que está acontecendo, o que significa toda essa tecnologia a serviço do homem. É preciso também ter em mente que esse serviço é aprimorado diariamente e terá cada vez mais impacto na sociedade. Num segundo momento, afirma que os cidadãos e governantes devem modificar seu comportamento a fim de tomar as precauções necessárias em relação ao mercado econômico e político. Mais uma vez o posicionamento da presidente Dilma veio à tona: “Ela teve que cancelar sua reunião com Obama, pois viu que o povo e pessoas do governo não tolerariam outra ação. Ela tem a obrigação de proteger os brasileiros”, afirmou o jornalista.

Sobre o futuro, Assange não pôde dar um parecer categórico, mas crê em mudanças, pois “o Ocidente passa por um colapso do estado de direito”. Ele defende que uma nova civilização global está se formando porque um novo grupo pode comunicar-se de maneira ampla e harmônica. O autor do livro “Cypherpunks”, que fala sobre a vigilância em massa, censura e liberdade na internet, explicou que existem dois mundos: um Estado pós-moderno, secreto e vigilante, e um corpo político que, atualmente, percebe-se melhor. Ambas as realidades ocupam um mesmo espaço e influenciam o mundo. Resta saber qual conquistará o maior espaço no futuro.

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