Os limiares entre jornalismo e literatura portuguesa

“O jornalismo não está em uma fase fácil para ninguém”. A constatação é quase óbvia, mas ainda há quem custe a entender.

fotopauliceia literaria

Por Rodolfo Almeida

Quem faz a análise – e a faz com propriedade – é a jornalista e escritora portuguesa Inês Pedrosa.

Iniciada no jornalismo em 1983, Inês integrou a equipe e a ajudou a fundar diversos veículos em Portugal como O Independente, Expresso e o Jornal de Letras, Artes e Ideias, militando também pelas questões de gênero, em favor do aborto legal e do casamento homossexual. Mais tardia, sua estreia na literatura se daria em 1991, com o livro infantil Mais Ninguém Tem.

Desde então, publicou mais de dez obras entre infantis, contos, romances e peças de teatro e hoje, diretora da Casa Fernando Pessoa, abandonou a prática jornalística para dedicar-se integralmente a literatura. Assim como outros de sua geração.

Pedro Rosa Mendes é um destes. Também português, firmou-se como um dos mais conceituados jornalistas e escritores do país, iniciando-se no Jornal de Coimbra e mais tarde integrando as equipes do Público e da revista Visão. Cobriu conflitos pela África e oriente médio e investigou denúncias de corrupção no governo de Angola, pelas quais sofreu forte censura e contra a qual militou ativamente. A partir destas experiências descobriu “quanta coisa possível de se acontecer no mundo: de poesia, de horror e de beleza”. Hoje colabora com contos e ensaios em diversas publicações e, tendo se distanciado do jornalismo, dedica-se a literatura e ao campo acadêmico de história e ciências sociais.

Ambos participaram, ao lado de Michel Laub (ex-editor da Bravo) e Ronaldo Bressane (ex-redador da Trip) do debate Ficção e Reportagem, Aqui e Acolá, que integra a programação do Paulicéia Literária, evento de literatura organizado pela Associação dos Advogados de São Paulo (AASP), cuja primeira edição ocorreu no último fim de semana.

Todos os quatro conciliaram as funções de escritor e jornalista. E todos pertencentes a uma geração de jornalistas que, a exemplo de Inês, viveram diversos momentos do jornalismo e acompanharam de perto as bruscas mudanças pelas quais a área passou. Hoje, refletem sobre o que viram.

“Entrei no jornalismo pela necessidade de ganhar a vida”, conta Inês. “Cursava Letras e minha família temia que não fosse conseguir me sustentar. Fui, então, para a área que mais tivesse maior proximidade com a escrita. Entretanto, sempre fui atraída pela imagem do jornalista-literato que, incrivelmente, chega a sofrer preconceito por um suposto academicismo exagerado”.

Pedro, que não vê como dissociar a função jornalística de sua conjuntura política, enxerga, nesta recusa do academicismo, um claro exemplo da situação política portuguesa. “Portugal é o exemplo mais triste de um projeto de desenvolvimento de informação que falhou. No âmbito do mercado de trabalho, é tamanha a precarização da profissão do jornalista que um jovem, hoje, tem de esconder suas qualificações para ser empregado. Parece não existir espaço para o profissional de qualidade”.

Sobre esta conjuntura política que pesa as costas do jornalismo, Pedro se utiliza de seu próprio exemplo para enumerar algumas das mais graves questões do campo: “Entre as razões que me fizeram abandonar o jornalismo cedo, aos 24 anos, esteve uma compreensão do contexto jornalístico em Portugal – que não é muito diferente do brasileiro. Primeiramente, não há dinheiro na imprensa e muito menos autonomia econômica nas empresas de mídia. Isso leva a comprometimentos com anunciantes, com acordos de concessão governamentais funestos e outras circunstâncias que minam a atividade jornalística”.

“Existe, também, um entendimento social acerca do jornalismo. A classe média portuguesa não paga um euro por dia pela assinatura de um jornal de qualidade, mas gasta 30 euros por semana com uma garrafa de vinho tinto em um jantar com amigos. Existem prioridades de ordens diversas que passam pelo âmbito cultural e temo que o Brasil possa se confrontar com as mesmas ilusões da Portugal da década de 1970”.

O incômodo com o jornalismo, para Inês, está embrenhado não só na conjuntura política, mas também na própria estrutura da função. “Frustrei-me enquanto autora ao perceber os vícios e os caminhos fáceis que o jornalismo toma. Não faço diferença entre literatura e jornalismo. Muitas peças jornalísticas são da mais alta literatura e muitas obras literárias não passam de uma nota no jornal.”

”Entretanto, o Jornalismo tem este vício de nos prender ao olhar dos outros, à expectativa de agradar a um público extremamente diverso, que quer tudo e nda ao mesmo tempo, e caímos em uma inércia de comodidade em decorrência disso. E é só escrevendo, com tempo e reflexão, que podemos nos sentir verdadeiramente livres para exercer um trabalho de qualidade”.

Pedro compartilha das mesmas angústias: “A literatura possui um viés reflexivo que o jornalismo, por sua base cartesiana, não aceita livremente. E é justamente nesta intersecção que mora o real jornalismo”.

“A profissão, atualmente, é extremamente fragilizada. Lembro-me antigamente quando se pensava no jornalismo como uma carreira de prestígio social. Hoje é o oposto. E viver com a faca no pescoço. E a verdade é que se o jornalista não está trabalhando para incomodar, não serve, e este é um péssimo papel para se ter com a faca no pescoço”.

Contudo, Inês não enxerga uma perspectiva negativa para o futuro. Pelo contrário. “Sou otimista em relação à imprensa. Há um filósofo que sempre constata que ‘vivemos em um mundo catastrófico’ e sempre que leio isso me pergunto o quão catastrófico seria ir ao dentista antes da invenção da anestesia. Então não estamos lá tão catastróficos. Ora, sempre há futuro e sempre há otimismo.”

“Fazer previsões futuras catastróficas é sempre mais fácil porque, invariavelmente, coisas más irão acontecer. Das coisas boas é que ninguém suspeita. Ser pessimista ou otimista não passa de uma escolha, e eu prezo pela minha sanidade sendo otimista. Ainda há muito que conquistar”.

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