A herança das ditaduras e a consciência na América Latina

Mulheres que lutam pela verdade, justiça e memória de seus países. São assim as professoras e pesquisadoras que compuseram a mesa “Herança das ditaduras latino-americanas” da semana de Relações Internacionais da PUC-SP, na terça-feira

Cena do documentário

Cena do documentário “O dia que durou 21 anos” mostra o conflito cívico-militar da Ditadura no Brasil

Por Andressa Vilela

Maria Lygia Quartim de Moraes, presidente da Comissão da Verdade e Memória Octavio Ianni, da UNICAMP, e também professora e pesquisadora da universidade, concentrou sua fala na ditadura militar brasileira. Maria Lygia explicou que durante qualquer período ditatorial, o Estado procura aniquilar os inimigos e criar um ambiente de medo a fim de que os opositores ao regime mantenham-se calados e inertes. Segundo a pesquisadora, esse medo paira sobre o Brasil até hoje e para que a justiça de transição aconteça de maneira completa esse medo deve ser enfrentado, além do que, precisa haver apuração, reparação e penalização dos crimes cometidos à época. Nesse enfrentamento, os movimentos sociais têm um papel decisivo, assim como as Comissões da Verdade, que, para ela, são a “possibilidade de transmissão de uma experiência”.

Já a psicanalista Isabel Marazina, argentina que lutou contra a ditadura em seu país nos anos 70, explica que um regime militar não deve ser encarado apenas como militar, mas sim como cívico-militar. Segundo ela, uma ditadura constrói-se com a cumplicidade e o apoio de certa classe social que vê seus interesses em jogo e procura beneficiar-se. Além disso, há sempre uma parcela da sociedade que se vê desamparada e, por medo, passa a sustentar o Estado de exceção, o que a psicanalista trouxe à tona como a servidão voluntária descrita por E. de La Isabel, que também é pesquisadora, disse que em seus trabalhos sempre compara Argentina e Brasil, já que vive aqui desde o período em que precisou exilar-se. Ela acredita que ospaíses diferenciam-se conforme seus pactos sociais e, por isso, os períodos pré, pós e ditatoriais se dão de maneiras muito distintas em cada lugar. O pacto social brasileiro é definido desde os tempos de colonização, e concentrou-se num modelo monárquico, segundo a psicanalista. Já o Argentino, se deu através de guerras civis, o que originou uma sociedade extremamente militarizada, seja por parte do exército nacional ou da militância da guerrilha armada. Ela disse ainda que durante a ditadura Argentina pretendeu-se podar a capacidade de pensamento do cidadão e, para isso, proibiu-se o tratamento público para pacientes que sofriam de distúrbios mentais. “Foi a privatização da saúde, das políticas públicas e sociais”, afirmou Isabel, que ainda pontuou, como Maria Lygia, que a ditadura é a configuração de um Estado autoritário que prega o medo.

A professora chilena Yolanda Gloria, por sua vez, relacionou a ditadura no Chile com uma pesquisa por ela realizada, sobre obediência. Conforme a pesquisadora, o regime de Pinochet teve o desafio de impor obediência a uma população engajada, que estava pronta para resistir e não obedecer. A partir disso, iniciaram-se práticas a fim de criar seres dóceis e obedientes: torturas, castigos e, por fim, o desaparecimento dos militantes, tudo isso com técnicas importadas do Brasil. No campo econômico, o regime ditatorial chileno impôs o modelo neoliberal, que gerou extrema acumulação de capital e desigualdade social, índices que aumentam até hoje no país. Isso acontece porque a opinião pública criou laços com tal modelo e a população cedeu aos novos luxos, tornando-se, assim, uma sociedade altamente endividada, segundo Yolanda, que acredita ser essa uma nova forma de impor obediência.

A herança da ditadura no Chile ainda vai além: o modelo neoliberal afetou outros espaços públicos e o mais notável deles é a educação. A recente “Revolução dos Pinguins”, na qual alunos chilenos secundaristas protestaram contra a privatização da educação, mostrou, entretanto, que ainda existem vozes de resistência no país. A mediadora Marijane Lisboa, integrante da Comissão da Verdade da PUC-SP, aproveitou o espaço para pontuar que a maior herança adquirida a partir desses períodos de terror é a construção de uma consciência latino-americana. A professora ressaltou também o contraste existente entre a forma que o Brasil e outros países da América Latina vivem e encaram os períodos pós-ditatoriais: “Aqui se tentou deixar pra lá, fingir que nunca aconteceu. É uma tentativa de apagar a memória e o passado do Brasil”, disse. No que as quatro mulheres da mesa concordam que reconhecimento social é fundamental para encarar o que se passou em todos esses países.

Perto do final do encontro, Isabel Marazina fez uma observação que se mostra extremamente atual e necessária, ao responder a pergunta de um aluno sobre a possibilidade da formação de uma ditadura nos dias de hoje. A psicanalista afirmou que não existe mais essa necessidade, uma vez que já existem outras formas de controle, muito mais sutis. “O Estado de exceção continua, só que em outros moldes, que geram apatia e subservência”, afirmou. E, citando Foucault, disse que somos todos capturados diariamente por tais mecanismos de biopoder.

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3 responses to “A herança das ditaduras e a consciência na América Latina

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