A vida musical de Fuminho Kid

A trajetória de Fuminho Kid se confunde com a história da música paulistana nas últimas décadas. Ex-integrante do Lira Paulistana e do Quinteto em Branco e Preto, ele relembra “causos” marcantes para a Vaidapé

Por Roberto Oliveira

– Desde os 5 anos eu queria ser músico, já tocava tudo que tinha direito em casa. Imitava Cauby Peixoto e Nelson Gonçalves, e aí chegaram os Jackson Five. Eu era moleque, mas aquilo já me impressionava.

(Nascido no Tucuruvi em 1959, em uma família pobre, de mãe negra alcoólatra, natural de MG, com pai indígena de AL. Aos noves meses, foi doado por dona Cida a uma família rica – seu José e dona Aurora, que não podiam ter filhos. Entretanto, conviveu com sua mãe de sangue até os 18 anos, pois seu José e Dona Aurora ajudavam dona Cida com mantimentos básicos. Aos 14 anos, perdeu o pai adotivo e, aos 18, perdeu a mãe de criação.)

– Minha influência musical começou com seu José, meu pai, que escutava música o dia inteiro. E sempre fazia um som, acompanhado de cachaça com pepino, no zoológico do seu Agenor, um ex-caçador que amava os animais. Eu ficava do lado deles, só escutando as músicas e as histórias.

Aqui começa minha história com música, porque meu pai cortava o cabelo com um Seu Zezinho… Seu Zezinho não, era seu Toninho, que tinha uma cadeira no quintal de casa, perto do zoológico do seu Agenor, onde ele cortava o cabelo dos amigos. Quando meu pai ia cortar o cabelo, me levava pra cortar também, e eu ficava escutando chorinho – Pixinguinha e os chorões antigos.

Até que um dia, eu tinha uns 6 anos talvez, eles me deram um tamborim, feito ainda com pele de gato, e nem era redondo o tamborim, era quadradinho, a maderia pintada de azul e o couro eles pintavam de prata, porque era a cor dos chorões – azul e prata. Era massa, porque eles tocavam mesmo à caráter e aquilo me encantava. Então eu levei meu tamborim pra casa, fiquei o dia todo tocando – tic tac tic tac -, eles me ensinaram uma batidinha simples, e daí pra frente, cara, eu só me lembro de música. Meu vizinho, pra completar, era baterista, o Marrom, e já tocava em bares. A gente ficava em cima das lajes, porque naquela época a criançada brincava nas lajes, de tarzan ou de matar passarinho. Eu era o Fuminho Kid, porque o pai do Marrom gostava de botar apelido na molecada e dizia que eu era pretinho parecido com fuminho, então ficou Fuminho Kid. A gente subia nas lajes e ficava observando o marrom e a banda dele ensaiar, Elton John, Rolling Stones, Beatles, rolava de tudo, cara, eles tocavam tudo.

Teve um dia que eu tava lá espiando e o Marrom disse pra eu descer, me botou no banquinho da bateria… eu sentei naquilo e achei demais, queria saber como tocava e comecei a bater em tudo, moleque você sabe como é, e ele foi me ensinando, aqui é a caixa, ali é prato, aqui você faz assim, ali você faz daquele jeito… Dessa sentada nesse banquinho em diante, minha vida de moleque foi só tocando bateria, dos cabos de vassoura de casa eu fazia as baquetas, e tudo pra mim podia ser uma caixa ou um prato, eu tirava som de tudo, eu era o Fuminho Kid…

“Like Ringo Star”

Eu tinha quatorze anos e era época de Natal, eu escrevi uma cartinha para o Papai Noel pedindo uma bateria. Nisso os caras que trabalhavam comigo na empresa de transporte viram a cartinha e tiraram a maior onda, e todo mundo ficou sabendo disso. Aí a minha chefa soube da história e perguntou a um dos meus amigos se ele sabia quem poderia vendê-la uma  bateria. E alguém tinha uma bateria Pinguim sobrando, que era a bateria mais conhecida no Brasil porque era a cópia da Ludwig, bateria que o Ringo Star usava. Então um dia de dezembro ela chegou pra mim e disse que tinha comprado um presente de Natal, que ele ligasse pra tal pessoa para buscar meu presente. Quando eu liguei e o cara disse pra eu passar na casa dele pra pegar uma bateria, eu parecia que tinha virado o Jaspion e dei um jeito de pegar essa Pinguim  no mesmo dia. E foi aí que virei o Bili de vez, porque eu já cantava o Bili Poker, me amarrava no som dele.

Aos 18 anos entrei na Fundação das Artes de São Caetano dos Sul, que formou músicos impressionantes, que hoje estão tocando com caras como Chitãozinho, Leonardo, Djavan. O Café mesmo, que é um amigo meu, tocou no primeiro disco do Djavan. Daí em diante, cara, minha vida foi de músico profissional. Saí de onde eu trabalhava na época, porque sempre trabalhei desde pequeno, e comecei a trabalhar em teatro, fazendo a parte musical das peças, tanto que quando minha mãe faleceu, nessa época, eu tava viajando profissionalmente. Quando cheguei foi um baque, mas como a gente era de criação espírita, eu acho que lidei melhor com isso da morte, porque eu acredito mesmo que isso aqui é tudo uma grande escola pela qual a gente passa…

fuminhokidFuminho Kid, agora Bili, sempre alegre e musical

Lira Paulistana

Então depois disso que vendi a casa e fui pra Vila Madalena. Chegando lá eu me sentia um almofadinha, de calça de veludo, sapatinho, e os caras todos cabeludos… E quem eu encontrei assim que cheguei? O pessoal do Arembepe. Hermano Pera, que é do Partido Verde hoje, Tiago Araripe. Isso era 1979, que foi quando rolou o Lira Paulistana. E aí, cara, rolou a grande guinada musical da minha vida e acho que da vida da grande maioria de musicos independentes. E os grupos foram surgindo, de Santo Amaro, do Brooklin, como Renatinho Consorte e Eduardo Contreira, um grande percussionista. Só da Vila Madalena, do Lira Paulistana, conheci e tive o prazer de estudar com Arrigo Barnabé, Itamar Assunção, Basculantes, Violetas de Outono, Titãs do Ieié, Carne Viva, Ira, muita gente boa surgindo daquela cena, como o Guelo, que está com a Zizi Possi, o Xantelee de Jesus, que tocou comigo a vida toda. Só sei que nesse periodo de 1979 a 1986, que foi até quando durou o Lira, não só toquei lá como morei um tempo também, porque tavam precisando de alguém pra ajudar na manutenção. Foi uma grande escola de música e de vida.

Nesse período, cheguei a ir também para o Uruguai, onde toquei com muita gente boa que tava exilada. E numa viagem para Alagoas, conheci o Geraldo Azevedo, porque tinha um amigo que havia tocado comigo, o Toninho, que acompanhava o Geraldinho e ele estava tocando num bar. Então fui com eles. E conheci também, nesse mesmo bar, o Cazuza, que tinha acabado de receber a notícia da doença dele e tava meio abalado. Ele xingou a plateia pra cacete durante o show! Mas mesmo assim, depois, ele levou um carinha para o banheiro do bar e ficou lá pra mais de hora…

(Em 1984, Billi tocou em um festival no Tuca, onde conheceu sua companheira e atual esposa, dona Silvia. Depois, mudou-se para o Jardim Ângela, constituiu família e teve duas filhas)

Quinteto em Branco e Preto

E a minha história com música foi rolando. Mas chegou um momento que a gente precisava ganhar grana, porque com música tanto se ganhava muita grana como não se ganhava nada. Às vezes aparecia 30 bares, às vezes 20, às vezes nada. E nesse tempo eu toquei com todos os caras de samba, de escola de samba, Chapinha, Polem, Marcelinho X9, Agnaldo Amaral, Carlinho do Cavaco, Bily do Cavaco, todos do cavaco possível, fiz parte da banda de axé, axé mesmo, das Rosas de Ouro. Até que a Beth Carvalho chegou e batizou os caras com quem eu tocava de Quinteto em Branco e Preto – e eu era o sexto elemento. Um dia, cheguei para o Maurílio e falei que era muito legal tocar com eles, mas eles eram o quinteto, eu o sexto elemento, e já tava meio cansado, muitos anos nessa vida, toca aqui e ganha, toca ali e não ganha. Isso era 1998, mudei com a família do Jardim Ângela para Pirituba, porque o referencial de grana também tinha que mudar.

Chegou uma hora que eu tava num momento diferente da vida. Comecei a trabalhar com outras coisas de novo, muita coisa se passou, até que certo dia me chamaram para ajudar na organização da festa de inauguração da nova sede da Apropuc (Associação dos Professores da PUC-SP), eu aceitei. E por aqui fiquei e estou há 11 anos.

(Luis Carlos de Oliveira Quagliotti, ex-Fuminho Kid e atual Bili, trabalha na Apropuc fazendo de tudo – inclusive música. Ele gosta de passar o tempo livre no sítio com a família e, é claro, curtir um som. Está lendo o livro “A Origem Mística da Música” e é fã de Pirituba Smurfs – banda que faz parte e que acredita ser uma das melhores, ao lado de Criolo, na cena musical contemporânea)

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