“É a insatisfação que leva às ruas, não a internet”

Por Marcela Reis*

Foto Gabriela Batista [FotoEnquadro]

(Foto: Gabriela Batista [FotoEnquadro])

“O velho já está esgotado, mas o novo ainda não se consolidou” afirma, durante evento promovido pela PUC-SP, o jornalista e professor José Arbex Jr. a respeito da conjuntura atual e das jornadas de junho. Ele, juntamente com o sociólogo e articulador do movimento Software Livre Sérgio Amadeu e o membro do Movimento Passe Livre (MPL) de São Paulo Luca Fuser, compôs a mesa de debate sobre “Formas de mobilização social da sociedade civil”, no último dia dois, na 11ª Semana de Relações Internacionais da PUC-SP.

As jornadas de junho levantaram a uma série de questões como: A política passa pelas redes sociais? Os partidos políticos são dispensáveis? As antigas maneiras de fazer política ainda são válidas? Para Amadeu, as redes sociais são um instrumento de organização social, mas não promoveram a indignação da população e, portanto, não são as responsáveis pelas mobilizações. Arbex aponta que assim como a Primavera Árabe foi causada pela fome e não pelas redes sociais, as jornadas de junho foram a consequência de uma população insatisfeita, e não da internet. Fuser defende que as manifestações não são fruto do aumento de 20 centavos no preço da passagem dos transportes públicos, mas da abusiva tarifa de R$ 3,20. E acrescenta que “as jornadas são a consequência de uma problemática urbana no Brasil, principalmente São Paulo, devido à falta de políticas públicas”.

Segundo Amadeu, “é inegável o hibridismo entre rede e rua nas manifestações, a internet cria condições de ação e deve ser usada para articulação política”. Para o jornalista, as mobilizações expressam a realidade social, porém, as redes sociais e a internet não substituem a militância. “Tomar as ruas é um ato político, não valem mais leis de trânsito, polícia, governo” conclui. Já Fuser defende que tomar as ruas é só um meio, uma tática, e não é por si só fazer política.

“Como disse Rosa Luxemburgo, a resposta está na conjuntura”, pontuou Arbex. A greve dos petroleiros em 1995, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, durou 32 dias e não atraiu a população como o esperado. Já as mobilizações de 2013 levaram grande parte dos brasileiros às ruas. Essa analogia só confirma: é a conjuntura. A população descontente e impulsionada pelo MPL, resolveu reivindicar suas pautas e finalmente sair às ruas. Em contrapartida, Fuser afirma que “não há uma nova conjuntura, pois a propriedade continua existindo, não no molde industrial, mas no digital. Porém, ainda se tem a mesma situação.”

A respeito da necessidade de partidos políticos, Arbex aponta que “eles organizam os diversos segmentos dos movimentos de massa e suas reivindicações específicas e parciais”. Como mudar as instituições políticas a partir de ações dispersas? É preciso unificar as reivindicações fragmentadas e centralizá-las, o que é o papel do partido. “É dessa forma que o poder será tomado e a expropriação do capital será alcançada” conclui. Já para Fuser, que é membro de um movimento horizontal, “não existe política só dentro dos partidos, junho provou isso”. As manifestações não tiveram lideranças, foram horizontalizadas e tiveram em torno de 678 coletivos anônimos.

Amadeu discorre sobre a mudança na capacidade de comunicação dos movimentos sociais a partir da incorporação da rede e defende sua importância. Arbex e Fuser também têm acordo nesse sentido: não se pode abrir mão das ruas ou da internet, mas só o movimento concreto trará novos rumos. O que resta é descobrir como conciliar ambos, refletindo nas ruas a mobilização que os meios permitem para conquistar mudanças reais.

* Colaboração de Bruno Matos

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