Rio de Janeiro para além de junho

Por Bruno Matos

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Manifestantes são alvo de intensa repressão policial no Rio de Janeiro (Foto: Divulgação/CBN)

“Acabou o amor, Sérgio Cabral bateu em professor”. A palavra de ordem expressa bem o sentimento dos cariocas que participaram do ato por melhorias na educação e em solidariedade aos professores no último dia 7. A passeata unificou diversos movimentos a partir da bandeira da valorização dos profissionais da educação e contra a repressão policial. Seis dias antes, um protesto convocado por estes mesmos professores fora duramente reprimido pela PM do Rio de Janeiro. De passagem pela cidade, pude presenciar uma grande demonstração de força de uma população que mostra saber bem o que quer.

A garoa que se fez presente algumas vezes durante a passeata, acompanha da temperatura relativamente baixa, compunha um cenário atípico para a cidade maravilhosa. Mesmo assim, o clima das últimas semanas, de enfrentamento entre professores e governo, manteve o ambiente bem aquecido. As recentes ocupações da Câmara, da Assembléia Legislativa, das moradas oficiais de prefeito e governador e a greve dos professores, que dura desde 8 de agosto, dão mostras do que vive a capital fluminense. Mesmo antes da concentração para o ato já era possível sentir essa atmosfera através das mensagens deixadas em muros e faixas.

Difícil precisar o número de manifestantes que tomaram a Avenida Rio Branco na segunda-feira. Para alguns dos organizadores, por exemplo, os números variam de 25 a 100 mil pessoas. Certo é que essas dezenas de milhares de vozes deram o recado: a indignação do povo carioca não acabou em junho e não se limita a uma reivindicação. O apoio da população em geral ficou claro nos acenos de incentivo de trabalhadores que ainda cumpriam seu expediente nos comércios do centro e viram passar aquele mar de gente.

MANIFESTACAO  RIO DE JANEIRO - RJ - 27/06/2013

Milhares de pessoas seguem ocupando as ruas do Rio de Janeiro (Foto: G1)

A criminalização do movimento, declarada em entrevistas recentes, teve efeito contrário ao do desejado por Sérgio Cabral e Eduardo Paes. Além do uso de balas de borracha, bombas de gás e spray de pimenta nos protestos anteriores, os governantes passaram a ameaçar os professores grevistas com o corte de ponto. A resposta foi dada nas ruas. “Vândalo é o Estado” era o slogan propagandeado numa série de cartazes. Já outros continham declarações de apoio de estudantes das redes municipal e estadual.

Mesmo tendo sido mais uma manifestação chamada pelos professores, as reivindicações expostas em faixas, cartazes e palavras de ordem não se restringiam ao impasse acerca dos planos de carreira destes profissionais. Mas, diferente do ocorrido nas mobilizações de junho, a convergência política foi claramente expressa numa linha de esquerda, sobretudo através das bandeiras da defesa da educação pública somadas às de direitos humanos.

“Cabral, queria que você investisse em educação e esquecesse a UPP”, cantavam os manifestantes.

Com o movimento dos profissionais da educação à frente, os movimentos estudantil, popular, antiproibicionista e de cultura, ao lado de petroleiros, bancários e bombeiros organizados, além de indivíduos solidários aos professores uniram uma enxurrada de reivindicações históricas da esquerda – desmilitarização da PM, educação pública de qualidade, não ao leilão do petróleo etc. – numa só: Fora Cabral!

A resposta, tal como esperado, veio pela repressão policial. A chuva apertou no momento em que a tropa de choque da PM começava a dispersar os manifestantes, que se concentraram em frente à Câmara para o encerramento do ato. Mais uma vez spray de pimenta, gás lacrimogêneo, e balas de borracha fecharam a noite. A grande maioria dos manifestantes foi para casa. Sobraram os Black Blocs; não restaram vidraças.
Como de praxe, o retrato elaborado pela grande imprensa para noticiar a passeata se resume à cena final, como se as três horas anteriores não tivessem sido dignas de nota. “Protesto termina em vandalismo”, resumiram os detentores do monopólio da mídia sobre a noite de segunda. Não seria preciso lá ter estado, entretanto, para afirmar que a violência vem de antes dos protestos e é permanente. UPP, fuzis, bombas de gás e cassetetes são as políticas públicas em vigor no Rio.

O rumor que ecoa pelos morros cariocas clama pela saída de Sérgio Cabral. “Ô, Cabral é ditador”, reafirmaram os manifestantes antes e depois de sentirem a truculência do braço armado do governo. Há quem veja como possibilidade real a queda do peemedebista antes do fim do mandato. O Rio respira ares de revolta. Poucos períodos na história recente do país se mostraram tão apropriados para o exercício desse tipo de pressão. O se diz por lá é que amanhã vai ser maior, nas ruas e na luta. Cresce também o abalo que faz balançar o acuado governador.

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