Relaxar, gozar e julgar

Vídeo divulgado por meio do WhatsApp circula de forma estrondosa e escancara o moralismo machista da sociedade, que julga severamente comportamentos sexuais daqueles que são expostos em sua intimidade

Por Carolina Piai e João Marcos Previatelli

negahamburger

(Arte: Negahamburger)

Um vídeo, inicialmente divulgado no Whatsapp, abriu espaço à visão mais conservadora da nossa sociedade e se popularizou na internet durante essa semana. Dessa vez, foi a vez dos (e das) machistas mostrarem a cara e criticarem com as palavras mais absurdas uma mulher, Fran, que teve um vídeo íntimo divulgado. Deixando de lado as referências que você provavelmente deve ter visto, os comentários em relação ao vídeos demonstram não apenas uma visão opressora de quem comenta como também uma tendência em culpar a vítima por algo que ela mesmo sofreu. Infelizmente, não há surpresa pela repercussão, o machismo é histórico.

Como é impossível argumentar com a violência, desconsideremos os xingamentos mais fortes e falemos sobre alguns comentários que tive o desprazer de ler, como: “Ela foi extremante ingênua..” ; “A culpa foi dela que deixou ser filmada” e “Isso é burrice e ignorância”. Ou seja, o erro foi DELA em confiar em alguém que a decepcionou.  Em geral, fazem um julgamento do caráter  da mulher pelo seu comportamento sexual, algo totalmente pessoal que não deve ser colocado em questão, por mais que alguma atitude estúpida o torne público. Quase religiosamente, esses comentários vêm seguidos da frase, “mas eu não sou machista” (Uma dica: se seu pensamento abre margem à dúvida, ele provavelmente é).

A hipocrisia, irmã siamesa dos preconceitos, se esconde sob os comentários moralistas que atacam as ações individuais. Vale ressaltar que aqui não há uma crítica àqueles que pensam dessa forma, mas sim ao conjunto de fatores que nos empurram para esse tipo de pensamento. Os preconceitos são acompanhados de um medo de admitir nossos erros e de uma ignorância sobre a realidade. Realidade que assassina uma mulher a cada uma hora e meia no país*.

Por outro lado, quando fotos – também íntimas – do ator Caio Castro vazaram na internet, há cerca de um mês, os comentários foram outros. Os comentários de sua foto diziam: “Querido, não é seu aniversário, mas você está de parabéns”. Não é difícil perceber a diferença de tratamento nesses dois casos, apesar deles corresponderem ao mesmo tipo de situação. Tanto Fran, quanto Caio tiveram sua intimidade escancarada para todo mundo ver – nenhum dos dois queria isso. Hoje, Fran praticamente não sai de casa, teve até que parar de trabalhar – estava sofrendo assédio. Já Caio Castro continua sendo o galã da mulherada.

Depois do vazamento, o ator mostrou sua indignação com firmeza. E – olhem só que estranha coincidência! – com sexismo. Ao se referir à garota que divulgou suas fotos, afirmou: “O papel de vagabunda quem fez foi ela”. Ao invés de a reconhecer por seu delito, o ator decidiu se juntar àquela maioria que confunde o caráter com o comportamento sexual da mulher. Chamar a garota que espalhou suas fotos de vagabunda nada tem a ver com seu caráter. Ou tem? A sociedade diz que sim. Digo que não: isso é machismo.

* http://noticias.r7.com/brasil/a-cada-uma-hora-e-meia-uma-mulher-morre-vitima-de-violencia-masculina-no-brasil-diz-ipea-25092013

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