Nova classe operária, novas lutas sociais

A crise do capitalismo e a precarização do trabalho provocaram levantes do proletariado em todo o mundo

Por Andressa Vilela e Bia Ávila

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O internacionalismo e a classe operária foram discutidos por Osvaldo Coggiola, Ricardo Antunes e Antonio Mazzeo

Os movimentos sociais europeus surpreenderam ao mundo após a crise econômica de 2008. Cidadãos de praticamente todos os países do continente protestaram (e ainda protestam) contra as medidas de austeridade tomadas pelos Estados durante a recessão financeira. As demissões em massa, a redução de salários e de recursos para serviços públicos como saúde e educação balançaram a estabilidade política das nações europeias. A crise econômica atingiu o Estado de bem-estar social europeu, o qual fornecia uma série de bens e serviços públicos para todos os indivíduos. A política de garantia à educação, assistência médica, renda mínima, aposentadoria e outros foi colocado de lado por esses governos na tentativa de salvar os bancos e as grandes empresas, em um movimento contrário ao que deveria acontecer. Afinal, foram essas instituições, também apoiadas pelo Estado, que causaram a crise.

A postura dos governos perante a crise causou grandes revoltas no continente. “Na Europa, a classe operária perdeu o que conquistara no Estado de bem-estar social com essas medidas de austeridade”, explicou Ricardo Antunes, durante o Simpósio Internacional “Um mundo em convulsão”, realizado na Universidade de São Paulo (FFLCH) nos dias 8 e 9 de outubro. O sociólogo e professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp ressaltou ainda que o problema vai muito além da Europa. A precarização do trabalho ocorre em escala global e, junto com uma crise estrutural do capitalismo, provocou um levante operário no mundo inteiro. São movimentos mais heterogêneos e que contém um embrião anti-capitalista, o que Ricardo apontou como novidade. Outra mudança foi o perfil do proletariado. “Vivemos em uma contrarrevolução burguesa durante os últimos anos, o que afetou a organização da classe operária e dos sindicatos, que agem na defensiva”, exemplifica.

“Os movimentos sociais atuais são despolitizados, sem organização ou liderança, e geralmente tem uma reivindicação imediada”, analisa Antonio Mazzeo, doutor em História Econômica pela USP e especialista em Marx. Para ele, a atuação dos partidos comunistas europeus ajudou a degradar ainda mais a situação dos trabalhadores ao apoiar acordos que colocavam o trabalhador como subjugado. O professor ainda enxerga uma forte criminalização dos movimentos sociais, apoiada principalmente pela grande mídia, que acaba por prejudicar sua articulação. ”Falta organização política, consciência imediata. Acho que os partidos políticos são necessários para consolidar esses movimentos”, opinou. Antunes também criticou a falta de organização política, afirmando que há uma nova morfologia do trabalho que se relaciona com essa nova movimentação das lutas sociais, já que os trabalhadores não se veem mais representados pelos sindicatos. O sociólogo acredita que essas novas lutas precisam de um projeto que as guie, uma vez que o capital é extremamente organizado e os projetos que existiam antes foram desmontados pelo neoliberalismo contemporâneo. “Os desafios atuais são a necessidade de resgatar partidos, sindicatos e a organização da luta de classes”.

Para Osvaldo Coggiola, graduado em História e em Economia pela Universidade de Paris VIII  e um dos organizadores do Simpósio, a tarefa mais difícil e necessária da luta de classes é a construção do internacionalismo do proletariado. O problema é que hoje a classe tem cerca de 2 bilhões de pessoas de diversos países e culturas e que são exploradas de maneiras diferentes. “O capitalismo só pode ser derrotado em nível internacional, pois é nesse nível que ele se baseia. A emancipação dos trabalhadores só poderá acontecer a partir de suas próprias lutas”, assegurou.  O historiador reiterou, ainda, que o proletariado só terá as respostas políticas para as crises (políticas e econômicas) que acontecem ao redor do mundo quando houver uma unidade e uma dirigência consolidada. Nesse sentido, Coggiola acredita que uma Internacional Operária seja a melhor maneira de unir os proletariados de forma centralizada e politizada a fim de elaborar um projeto histórico e encaminhar o mundo a uma revolução.

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