O perigo fascista e as novas faces do racismo

Por Victoria Azevedo

IMG_5111Luiz Martins, Beatriz Bissio, Kabegenlê Munanga, mediador da mesa, Zilda Iokoi e Renato Queiroz estiveram na USP

O Simpósio Internacional “O mundo em convulsão” foi um evento realizado na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP nos dias 8 e 9 de outubro. Foram dois dias de discussões e debates sobre a situação mundial, com mesas sobre desde a Primavera Árabe até o questionamento do poder norte americano.

É sabido que, em tempos de crise, econômica, política ou social, há uma ascensão de movimentos direitistas com, às vezes, caráter fascista; como mecanismo de manutenção da ordem política e social vigente, se estabelece a tendência da sociedade civil em adotar medidas conservadoras, ao legitimar suas atitudes preconceituosas, racistas e xenofóbicas.

A mesa em questão contou com a participação de Zilda Iokoi, professora do Departamento de História da USP, Beatriz Bissio, professora do Departamento de Política da UFRJ, Renato Queiroz, antropólogo e Luiz R. Martins, professor do Departamento de Artes Visuais da USP, e debateu o perigo fascista e as novas faces do racismo nos dias de hoje.

Beatriz Bissio, que já viajou por diversos países africanos, acredita que o fascismo sempre esteve presente na história do homem, seja ele representado pela “exclusão do outro” ou pela recusa de suas diferenças – é uma discriminação permanente e que é embutida nas profundezas do indivíduo, “essa porta do racismo está sempre aí”.

Para Luiz Martins, atravessamos uma crise sistêmica que se manifesta através de uma instabilidade política e econômica, revelando um quadro complexo e de mudanças bruscas, que tem como característica a hegemonia marcante e contrastante da direita, nos últimos 40 anos. Utiliza-se da definição do novo fascismo feita pelo cineasta italiano Pasolini, que estava interessado em intervir na realidade italiana. Sua inovação está no fato de chamar os partidários da expansão econômica de “os novos fascistas”, levando em conta a revolução do consumismo e da expansão econômica e das transformações da subjetividade associadas a esse processo. Essa ascensão do novo fascismo tinha como agente portador e ativo a juventude urbana, caracterizada pelo hedonismo, consumismo, desmascaramento e disfarce, o fetichismo de tudo e a desconsideração da história da humanidade.

E como resultado, a decomposição do Estado do Bem Estar Social e a coisificação do outro – patologia narcisista, traço marcante da subjetividade contemporânea. Para o professor, o racismo atual é flexível e compacto e manifesta-se quando não falamos do “eu”. Termina sua fala dizendo que “eventos pontuais e aberrações existem ainda, mas do ponto de vista do consenso global é muito raro aparecer uma voz defendendo figuras patológicas como Pinochet, Franco etc” – isso, também, por conta do peso que o termo “politicamente correto” tem em nossa sociedade atualmente.

Renato Queiroz, por sua vez, acredita que o etnocentrismo tem grande papel na inclinação segregacionista da sociedade, cujas relações interculturais são muito segmentadas e plurais. Critica a pretensa superioridade de uma nação perante outra, revelada através do etnocentrismo, racismo e da xenofobia – “as nações criam uma ideia de pureza, de que não devem misturar com outros, porque as piores qualidades serão herdadas, seja geneticamente ou culturalmente”.

Por fim, Zilda Iokoi trabalha a ideia de que os dominantes acreditam representar os dominados ao falar em seu nome, excluindo-os do seu próprio direito a fala, apesar de o fazerem com um tom de superioridade. Continua dizendo que a classe dominante mascara o racismo, fascismo e descriminações no geral e invertem a realidade – “a sociedade não se reconhece como violenta”. Não existe na nossa sociedade o sentimento de alteridade e, portanto, o outro é subjugado e submetido através da atitude de compadrio que nada mais é do que o reforço dessa lógica repressora. Critica ainda “o entulho autoritário que ainda não foi eliminado” e que é resquício direto do período militar que ocorreu no Brasil, como por exemplo, a impunidade e os modelos de organização da sociedade.

Advertisements

One response to “O perigo fascista e as novas faces do racismo

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s