O que está por trás do ensaio fotográfico de Bárbara Paz

Domingo, dia 20 de outubro. Mais um dia da guerrilha pela informação é alimentado pela repercussão de um episódio pitoresco na história recente do país. 

Meme de Barbara Paz que circulou nas redes sociais

Meme de Bárbara Paz que circulou nas redes sociais

Por Paulo Motoryn e Pedro Lopes Do Val

Durante as manifestações de junho, o país foi tomado de efervescências e levantes. Depois daquele mês, várias categorias de trabalhadores, cada uma a seu modo, foram tomadas por uma maior combatividade e ímpeto político. Estudantes lutaram por um transporte público de qualidade e hoje lutam pela democracia nas universidades, bancários fizeram greves, professores fecharam avenidas e foram violentamente repreendidos. Médicos – apesar da postura na recepção dos colegas cubanos – fizeram suas reivindicações, militantes ocuparam câmaras e prefeituras e também receberam em resposta a violência sistêmica da Polícia Militar.

De maneira surpreendente, o clima de protestos no Brasil ganhou caráter profundo e ainda reverbera em todo o território. Conseguiu incutir nos cidadãos uma certa consciência política – ainda que sem tanto acúmulo e sem clareza metodológica ou estratégica – que não se tinha há muito tempo, talvez, desde que derrubamos Fernando Collor.

Mas então, eis que o país começa a mostrar o outro lado desse levante político causado pelos protestos do meio do ano. Pessoas antes desligadas da esfera política também começaram a expor suas opiniões e as redes sociais se tornaram um grande palco para que esses personagens ecoassem seus gritos de indignação.

Fotos de atrizes “em luto” pelo adiamento do mensalão começaram a circular em “protesto contra a corrupção”. Poses vazias para criticas vazias, pouco estruturais. O julgamento, tomado como símbolo da luta contra a corrupção é símbolo também da espetacularização e da interferência da mídia no sistema judiciário brasileiro. Mas não, o mensalão não foi tema de debates acalorados e conscientes entre artistas, ao invés disso, causou luto. Entre as indignadas, Barbara Paz, que protagoniza também, o episódio deste último domingo. Um ensaio para uma marca de joias “inspirado nas manifestações de junho e nos black blocs”. Uma completa aberração, mas que tem sua razão de ser.

Foto: Anderson Borde/ Ag.News

Foto: Anderson Borde/ Ag.News

A consolidação do povo como ator político causou, no sistema vigente, uma grande instabilidade. O grande capital, bem como a classe política e o aparelho midiático, sentiu as ondas que batem às portas de seus prédios, com coquetéis molotov e ação direta. Uma desobediência civil que está longe de ser o único método relevante nas ruas do Brasil, mas que somado à ação organizada e desorganizada amedronta o poder hegemônico. A primeira grande arma contra a reconquista do espaço público é a força policial, truculenta e, sim, letal, porque bala de borracha pode matar e a presença policial nas periferias é brutalmente assassina, genocida, muito além do gás de pimenta.

O aparelho midiático, por sua vez, age em desacordo com as ruas. Ora criminalizando, ora tentando desvirtuar ou impor suas bandeiras, não consegue refletir o descontentamento e a insatisfação que levou o povo às ruas. Se em suas publicações editorias o poder hegemônico não deu conta de frear o ímpeto político, os anúncios publicitários agora tentam enquadrar uma das principais novidades das ruas – a tática black bloc – em sua lógica: de apropriação de todas as esferas da vida humana para fins comerciais, mercadológicos.

Bárbara Paz, que há pouco fez um claro ato político ao declarar luto pelo julgamento do mensalão, agora contribui para esvaziar uma das grandes conquistas das ruas: ser um espaço para discussão de pontos fundamentais para a sociedade. Assim, o país mostra mais uma de suas facetas: a contradição política de ressurgir com movimentos sociais fortes e com reivindicações claras, por um lado, e por outro, de criar uma classe de aberrações políticas, que reivindica tudo sem saber de nada e faz o papel daqueles que não têm o menor compromisso em mudar o país.

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