Vida e luta: Hamilton Octavio de Souza

Demitido por greve no Estadão e na Caros Amigos, fundador e crítico do PT, Hamilton é prova viva da luta pela informação no Brasil

Por Cristiano Sindici, Jorge Kanazawa e Paulo Motoryn

“Ser de esquerda é isso. Eu acho que é criar o direito. Criar o direito. Acho que não existe governo de esquerda. Não se espantem com isso. O governo francês, que deveria ser de esquerda, não é um governo de esquerda. Não é que não existam diferenças nos governos. O que pode existir é um governo favorável a algumas exigências da esquerda. Mas não existe governo de esquerda, pois a esquerda não tem nada a ver com governo.”

A definição acima é do filósofo Gilles Deleuze. A história do jornalista Hamilton Octavio de Souza, um dos grandes nomes da mídia alternativa no pré e pós-democratização no Brasil, tem uma íntima ligação com a forma de atuação política a partir de um posicionamento de esquerda. É aí que Deleuze nos ajuda a entender a figura sóbria porém combativa de Hamilton.

Relação com o PT: da fundação à crítica

Um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, Hamilton é hoje crítico do governo petista, da sua pouca agressividade na busca por alternativas ao neoliberalismo e de sua falta de ímpeto para um novo ciclo de redução das desigualdades socioeconômicas. “Eu participei, eu sou um fundador do PT. Estou na lista dos 101 que assinaram a inscrição do partido na Justiça Eleitoral. E participei da Convenção do Colégio de Sion”.

“Se você pegar o PT até 89 e o PT depois de 89, na derrota do Lula, dá pra ver que o partido começa a perder de forma muito forte as propostas, a linha de atuação, aquilo que vinha fazendo. Até 89 era um partido agressivo, combativo, em defesa da transformação profunda da sociedade. A partir de 89 foi começando a fazer concessões na linha política”, analisa.

“No começo de 2000, eu já estava bastante desligado da participação do partido. Fui chamado por um amigo meu pra participar de uma campanha de prefeitura no interior em 2004. Coordenei a campanha e foi aí que eu tive a maior decepção da minha vida ao ver no que tinha se tornado o partido. Falei ‘pra mim acabou, chega, tô fora’.”

Atuação na grande imprensa e mídia alternativa

Como se não bastasse, mesmo tendo trilhado período relevante de sua carreira na grande imprensa, é defensor ferrenho da democratização dos meios de comunicação no Brasil.

Hamilton Octavio de Souza contraria a lógica. Sua fala mansa está longe de simbolizar o espírito do jornalista e também professor da PUC-SP. Sua atuação vai muito além de uma postura militante nos grandes meios de comunicação, entre 1972 e 1979 na reportagem geral e política de O Estado de S. Paulo e entre 1983 e 1986 na Folha de S. Paulo.

“O Estadão era um jornal que na época fazia parte da resistência ao regime militar, já sofria com a censura e era uma ótima escola de jornalismo, aprendi muita coisa no Estadão dos anos 70”, afirmou em longa conversa com a Revista Vaidapé, que aconteceu logo após o professor dispensar mais cedo seus alunos da disciplina Produção e Análise do Jornalismo Econômico.

Em 1974, Hamilton participou da cobertura da Revolução dos Cravos, em Portugal. O momento de transformação estrutural no país lusitano certamente inspirou o jornalista a aprofundar-se na luta social em plena Ditadura Militar no Brasil. “Eu era incentivado a fazer matérias críticas, mas sempre havia a questão da censura do estado. Estávamos sendo censurados pelo regime militar. Mas nessa época também havia muito entusiasmo com a imprensa alternativa. No Estadão, nós tínhamos um grupo que fazia jornal de sindicato”, disse.

“Na área política, o Estadão tinha uma briga muito forte com o governo Laudo Natel e ao secretário dos transportes que era o Paulo Maluf. Então eu fiz várias matérias criticando o Paulo Maluf, por exemplo de contratos irregulares no recapeamento de estradas, na construção de acessos. Era um processo que estava no tribunal de contas e eu levantei para uma matéria que eu fiz do Maluf na época que eram 70 contratos irregulares na gestão dele na Secretaria dos Transportes”, lembra.

Foi por meio do sindicalismo, quando foi diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo de 1975 a 1978, que ele levou sua atuação política ao extremo e sua permanência no Estadão passou a ser insustentável. Na greve dos jornalistas de 1979, teve participação intensa: “Quando os jornalistas entram em greve, os empresários da comunicação fazem um corte brutal. O Estadão demitiu mais de 50 jornalistas. Eu, inclusive fui demitido depois da greve de 79”, relembra sem sombra de arrependimento.

Àquela época, a linha editorial já não deixava Hamilton confortável: “O Estadão tinha brigado com o governo Médici por causa do AI-5, da censura, da tortura. O Estadão deu guarida às denúncias da luta do Hélio Bicudo contra o esquadrão da morte, denunciando as torturas e a repressão violenta do regime. Mas no processo de distensão lenta, gradual e segura do Geisel, ele (Estadão) se aproxima do governo militar”, lamenta.

A saída de Hamilton para compor a equipe de repórteres da Folha de S. Paulo se concretizou em um momento que os dois principais jornais do país invertiam seus posicionamentos: “A Folha, que tinha sido durante muito tempo subordinada ao regime militar e muito fiel à ditadura no período mais duro dela, passa por um processo diferente. Apostam na distensão como um período de liberalização, democratização e começam a se abrir mais no ponto de vista editorial, de ter colaboradores no campo da esquerda. A Folha ganha com a redemocratização, o Estadão se fecha”.

Em 1981, antes de chegar à Folha, recebeu o Prêmio Wladimir Herzog de Direitos Humanos por reportagem sobre a repressão política no Cone Sul, publicada no jornal Movimento, um dos principais folhetins de resistência ao regime militar.

A greve da Caros Amigos

A carreira de Hamilton no jornalismo e sua intensa dedicação à construção e luta por alternativas à realidade imposta pelo capitalismo ganharam novo capítulo no ano passado: a greve da Caros Amigos. Editor-chefe da revista, ele foi informado pelo diretor Wagner Nabuco, da Editora Casa Amarela, que a redação sofreria um corte violento. O orçamento para salários cairia pela metade.

“Tinha gente que estava trabalhando e não tinha registro em carteira. O pessoal estava pedindo que registrasse e o Wagner: “Não, não vou registrar ninguém”. Aí começamos a negociar a questão do salário de 2013. Ele colocou o reajuste no nível mais baixo possível. Aí ele fala que tem que cortar a redação pela metade. Aí é difícil. Cortando a redação pela metade, nós não iríamos funcionar”, explicou Hamilton.

“O pessoal da redação achava que nós tínhamos que fazer uma greve pra forçar a negociação. Nós entramos em greve e ele demitiu todo mundo. Se você faz isso no Estadão, te chamam pra negociar, se faz isso na Folha, te chamam pra negociar. Lá (na Caros Amigos), ele demitiu”, e completa: “E eu fiquei triste, claro, eu era editor chefe de uma equipe muito legal e outra que isso me bateu bastante, inclusive nas minhas relações com muitas pessoas”.

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