Hospital

Por João Marcos Previatelli

foto1Arte: Coletivo OPNI

Após o pai sofrer um acidente, às 6h da manhã ele conheceu o Hospital Municipal de Cotia. Tudo ótimo: atendimento rápido, exames rápidos. Na sua cabeça sempre imaginou que o SUS era ruim, mas viu que podia ser mais preconceito do que realidade. Enquanto a ambulância do convênio ia demorar horas, a do SUS chegou em 10 minutos. Na verdade, a do convênio desistiu pela distância.

Infelizmente, o tempo mostrou o contrário.

Assim que chegou foi falar com o médico. O doutor tinha os olhos vermelhos e uma olheira que parecia maquiagem. Com o sorriso meio sem graça de quem não pode dar noticia boa, tentava acalmar quem estava por lá. Junto, assim estavam as enfermeiras, outros médicos e todos os funcionários lá. Enquanto as intermináveis horas dos exames passavam, os pacientes iam chegando, chegando, chegando: o que ele imaginava era real.

O médico mostrou a sala onde só um pequeno trocador separava o pai, que estava levando pontos, de outra consulta: do outro lado, um garoto e sua mãe estavam conversando com um médico. Coitado, a expressão de susto daquela criança era terrível, principalmente quando ouvia os gritos de dor vindos do outro lado. Parecia querer desistir da consulta, sair correndo daquilo tudo.

Quando seu velho saiu para outro “quarto”, dividiu o espaço com mais três ou quatro pessoas, mesmo estando na ala de emergência. Continuou na maca, cama não tinha.

Resolveu conhecer os outros espaços e ouvir o que conseguisse. Não foi difícil: a mãe daquele mesmo garoto o seguiu pelos corredores, perguntando: “Viu o doutô?” Não. Nunca mais viu o médico e ficou em dúvida se a mãe voltou a ver.

O nó na garganta apertou e ele voltou para o corredor, já cheio de macas. Ali, espaço parecia luxo de quem teve a “sorte” de se machucar antes. Uma senhora o pediu ajuda, queria uma cadeira para poder esperar sentada. Nessa hora ele já estava sem camisa, tinham vomitado nela. Conseguiu uma cadeira que estava jogada em um canto e estranhou porque ninguém estranhou que um cara sem camisa andava com uma cadeira pela emergência. Ali, todo mundo faz tudo.

Ela agradece, se escora, e conta: “Minha mãe já está no segundo derrame, tem febre. Acho que é pneumonia, o que você acha?”. Nó na garganta. Tenta dar uma expectativa melhor, afinal pode ser só uma gripe, essa época de tempo seco, quem sabe? Ela agradece, mas seus olhos percebem que só queriam fazer ela se sentir melhor. Com certeza ele não deve ter sido o primeiro a falar, sua mãe estava mal. Mas ela queria mais que uma verdade ou uma mentira, queria um ouvido. Ela também pergunta o porquê que ele estava ali, dá uma risadinha de qualquer coisa e o aconselha a dar o chá de camomila com boldo na recuperação. Queria ajudar, já que na merda, todo mundo quer fazer tudo.

Na sala ao lado, a assistente social (ou diretora do hospital. Lá, todo mundo deve fazer tudo) explicava para outra família que eles podiam pedir transferência, mas que possivelmente não adiantaria: “Vocês não tem plano de saúde. Podem pedir transferência pra outro hospital, mas pela minha experiência, é mais possível que caiam em outra fila para esperar tratamento. Recomendo deixar aqui”. Um dos parentes estava desolado. Devia ter uns vinte e poucos anos, estava todo sujo de tinta e repetia: “Ele vai morrer sem o plano… Como faço para arranjar um? Como faço?”. Ele sabia o que precisava para um plano de saúde. E talvez só conseguisse um plano se trocasse o pincel por uma arma.

A família dele tem plano de saúde, mas eles eram apenas pessoas, e pessoas não valem mais que dinheiro para os planos. Desespera-se e desabafa para assistente responsável pelas remoções: estava simplesmente ensandecido com o plano. Ela o “acalma”, dizendo que o seu plano era o melhor: “O seu costuma demorar só horas. os outros demoram dias. Já perdemos alguns pacientes por causa disso. O plano demora tanto que a ultima ligação que recebem é nossa, avisando que não precisam mais vir, o paciente morre né?”.

Calmo não é exatamente a palavra de como ele ficou. Sai e ouve o choro de várias crianças. Na fila, uma mãe grita ao telefone: “Tem várias crianças aqui desde o meio dia! Já são 17h! Isso aqui está um absurdo, inacreditável”. Lá dentro aqueles médicos não param nem um segundo. Uma ambulância chega com a sirene ligada. Estaciona do lado de fora e logo desce uma enfermeira: “Preciso de uma maca urgente para o paciente”. O segurança responsável abaixa a cabeça, evita os olhos dela e diz baixinho: “Olha, maca não tem. Tem cadeira de rodas, serve?”. Ele olha lá dentro e vê um homem machucado, sangue por todo o lado, as pernas enfaixadas e ele absolutamente imóvel. Não, uma cadeira não serve. Um médico chega e tenta dar alguma assistência ali, naquele estado.

Finalmente, outra ambulância chega para transferir o pai dele. Alívio para família, depois de mais de 12h alguém chegou. Alivio do médico, vagou uma maca.

Começa a andar em silêncio em direção ao carro. No portão consegue ouvir uma enfermeira que saia do turno: “Dia tranquilo hoje”.

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