Terapia psicodélica: entre avanços e censura

Por Pedro do Amaral Souza

coguma

O final dos anos 60 marcou um declínio dos psicodélicos não apenas como substâncias recreativas mas também como objeto de estudos científicos. Mas na medida em que paradigmas começam a ruir, eles estão retornando com força na comunidade científica, que está investigando seus potenciais terapêuticos como possível tratamento para diversos distúrbios.

Os primeiros estudos com psicodélicos foram conduzidos nos anos 50, quando os potenciais terapêuticos do LSD, substância sintetizada pelo químico suíço Albert Hoffman, chamaram a atenção de cientistas e psicólogos. Também foram investigados os potenciais de duas outras substâncias como a psilocibina, encontrada em diversas espécies de cogumelos, e a mescalina, encontrada em cactos como o peyote. Nesta época, os psicodélicos eram vistos pela comunidade científica como uma possível chave para entender a mente humana e tratar problemas que variam do autismo à depressão, do alcoolismo à esquizofrenia.

A principal figura na onda de experimentos dessa época foi Timothy Leary, o psicólogo de Harvard que conduziu uma série de estudos usando o LSD e psilocibina. Um dos mais famosos estudos de Leary é o experimento da prisão de Concord, que usou terapia com LSD para reduzir o índice de recidivismo (o ato de repetir comportamentos indesejáveis) em prisioneiros. Outro de seus estudos foi o experimento da capela de Marsh, conduzido em 1962 com o intuito de investigar a psilocibina como meio de induzir experiências místicas. Além de Leary, outros pesquisadores da época investigaram o uso de psicodélicos para tratarem alcoolismo e aliviar ansiedade em pacientes com doenças terminais.

Apesar do sucesso dos estudos, a preocupação com psicodélicos por parte do governo começou a aumentar devido a uma explosão no uso recreativo entre os jovens. Ao longo dos anos 60 foram implementadas leis restringindo seu uso e desencorajando estudos científicos. As restrições culminaram com o Ato de Substâncias Controladas em 1970, que colocaram os psicodélicos na mesma classe que drogas como a heroína, impedindo assim a realização de estudos.

Mesmo com as restrições, as pesquisas continuaram em pequena escala na medida em que pesquisadores se aproveitaram de pequenas brechas nas leis, mas com pouco progresso. Em 1990, foi fundada a MAPS (Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos) pelo americano Rick Doblin, com o intuito de educar o público e trazer o retorno das pesquisas, o que ocorreu 1993 quando o Instituto Nacional de Abuso de Drogas e o FDA (Administração de Drogas e Alimentos, em português) aprovaram pesquisas com psicodélicos desde que estas tenham aprovação do governo.

Esta aprovação marcou o começo de uma nova era para a pesquisa com psicodélicos, novos estudos começaram a investigar os benefícios terapêuticos de diversas substâncias. Os estudos com maior repercussão na mídia foram os realizados com a maconha, que encontraram nela potencial para tratar doenças e distúrbios que vão desde glaucoma até falta de apetite e insônia em pacientes de câncer, abrindo assim portas para seu uso medicinal, que se espalha cada vez mais.

Mas diversos estudos foram feitos com outros psicodélicos nas últimas décadas, com resultados promissores. Um dos mais famosos foi conduzido pela universidade de John Hopkins em 2006 utilizando psilocibina para produzir experiências místicas em voluntários. Os resultados publicados pela universidade demonstram que uma única dose aplicada em um ambiente clínico pode induzir mudanças duradouras na personalidade como uma redução de ansiedade e depressão além de uma visão mais positiva em relação á vida e um senso de espiritualidade. Outro estudo realizado com psilocibina entre 2004 e 2008 pela UCLA (Universidade da California em Los Angeles) com paciêntes de câncer demonstrou redução de ansiedade e depressão a longo prazo em todos os voluntários.

Outra substância que está entre as mais estudadas hoje em dia é o MDMA, devido aos seus efeitos empatogênicos que facilitam sessões de terapia. Por enquanto os principais estudos conduzidos com a substância investigaram seu potencial para tratar o transtorno de stress pós-traumático, por facilitar o acesso de memórias traumáticas. Mas já há diversos centros de pesquisa tentando obter autorização para outras pesquisas com a droga, e recentemente o MAPS conseguiu aprovação do FDA para estudar seu potencial em facilitar a integração social de pessoas com autismo.

Além da psilocibina e MDMA, cada vez mais estudos estão sendo publicados com os potencias terapêuticos de substancias como a Cetamina, Ibogaína, DMT e LSD entre outros, mostrando potencial terapêutico no tratamento de vários distúrbios.

Apesar disso, ainda há uma série de restrições que impedem que os estudos sejam realizados livremente, que de acordo com o psiquiatra britânico David Nutt representam “a pior censura científica desde a época de Galileu”. Mas estas restrições estão aos poucos sendo quebradas, com mais estudos publicados. E este processo está ocorrendo com um discurso científico e profissional que contrasta com o liberalismo utópico de Timothy Leary nos anos 50 e 60.  O que virá a seguir só o tempo irá dizer, mas pesquisadores como Doblin acreditam que em poucas décadas veremos o uso de tratamento com psicodélicos em larga escala trazendo inúmeros avanços à medicina.

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