Os papeizinhos do sorteio do Paulistão e o preconceito linguístico

Por Paulo Motoryn

gafe

Na última quarta-feira, dia 30 de outubro, um episódio curioso agitou a manhã dos principais portais esportivos de São Paulo. No evento de sorteio e definição das chaves para o Paulistão 2014, os papéis com os nomes de alguns clubes foram apresentados com a grafia incorreta. A Portuguesa, por exemplo, virou “Assossiação Portuguesa de Desportos”. A Ponte Preta também teve grafado erradamente o seu nome, virou “Assossiação Ponte Preta”.

Os repórteres esportivos presentes no evento se pensaram perspicazes. Ora, o que noticiar de uma solenidade burocrática, loteada por discursos enfadonhos de cartolas no pior sentido da palavra? A escolha foi cruel: poucos minutos depois, as redes sociais de todo o Brasil já circulavam o fato. Muitos gargalharam sua risada mais diabólica em tuítes e postagens. O caso reflete o pouco compromisso da imprensa com o interesse público, com a informação, com a reflexão. Berrar aos quatro cantos os erros gramaticais cometidos por alguém, como fizeram os principais veículos, revela um traço feroz do comportamento da sociedade brasileira: o preconceito linguístico.

Tenha certeza que o que há aqui não é uma apologia aos erros de português, mas uma provocação: afinal, qual o motivo de uma grande parcela da população falar, ler e escrever de uma maneira diferente daqueles mais cultos? E, indo além, qual o motivo de um erro linguístico causar tamanha repercussão, piada e preconceito?

De acordo com o linguista Marcos Bagno, o “alto grau de variabilidade e diversidade linguística no Brasil tem como uma de suas causas a injustiça social, geradora de um abismo linguístico entre a norma padrão e não padrão”. Sim, é a desigualdade econômico-social do Brasil, uma das maiores do planeta, o fator primordial que levou o encarregado de escrever os nomes das equipes paulistas nos malditos papeizinhos a, segundo o UOL e o Globoesporte.com, “cometer gafes”.

Fica claro que, provavelmente de uma forma inconsciente, os jornalistas responsáveis pela cobertura do sorteio do Paulistão 2014 reforçaram mais um dos preconceitos da sociedade brasileira, aquele que não se vê na cor da pele ou na religião, mas sim em papeizinhos de sorteios e na boca do povo: a língua.

Assim como a cena política e o aparelho midiático, a título de exemplo, esse preconceito linguístico apenas mascara os interesses de classes sociais. No caso, a língua se concretiza como elemento de exclusão e segregação social.

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