Indústria que mata todos os dias

Por Carolina Piai

Foto: Gorda e sapatão

Ontem fui violentada. Impuseram-me o que não era de minha vontade. Estranho que, em alguns momentos, me peguei querendo o que me era imposto. Teria eu superado aquela violência e até gostado? Não.

Ontem quase todas nós, leitoras, fomos violentadas. Quem nos violentou, nesse caso, foi a mídia. O bombardeio de imagens que retratam como devemos ser e agir pode ser pior do que qualquer outra bomba. Não só isso, ele também é assustadoramente eficaz.

“O que a mídia expõe é o consumo do corpo da mulher para os homens e para alimentar a indústria da beleza. É só isso. A nossa depressão alimenta a indústria da beleza. E a indústria da beleza mata. Ela mata todos os dias”, disse Jéssica Ipólito, da Marcha Mundial das Mulheres. Ipólito foi uma das participantes da mesa “A Violência da Mídia Contra a Mulher” da Semana de Combate à Violência Contra a Mulher, realizada neste mês pela Frente Feminista da USP.

A militante tem um blog, chamado “Gorda e sapatão”, em que reconstrói a imagem da mulher comparada àquela divulgada pela grande mídia – na qual as mulheres são magras e brancas, em sua esmagadora maioria.  Para Ipólito, suas leitoras “não se veem em nenhuma mídia e aí encontram aquele espaço onde se reconhecem, porque a maioria é gorda, tem problema com a alimentação, tem distúrbios alimentares, etc”. Acrescentou ainda que “a maioria tem uma série de problemáticas a desconstruir e não consegue fazer isso através de outras mídias, porque a imagem da mulher gorda não vende: não é cara, não é bonita”. A blogueira aproveita, então, seu espaço na internet para dar espaço a todo tipo de mulher.

Ana Mielki, do coletivo InterVozes, também participou da mesa. Ao mencionar a pesquisa realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Data Popular, Mielki escancarou a violência pela qual as mulheres passam na nossa sociedade. A pesquisa, que teve amostra de 1501 casos (homens e mulheres), retrata que 56% das pessoas não acreditam que as propagandas na TV mostram a mulher da vida real. No entanto, 60% consideram que as mulheres ficam frustradas quando não têm o padrão de beleza das propagandas de TV. Para a palestrante, “é um sistema de dominação muito forte e muito produtivo. Porque ao mesmo tempo em que você quer se ver na TV, no fundo, no fundo, no fundo – não tão fundo assim – você está correndo atrás daquele padrão”. “E você não faz isso porque é ingênua, você faz isso porque foi violentada anos e anos e anos com aquela imposição de padrão de beleza e é difícil reconhecer aí uma violência e, com isso, sair dela”, acrescentou.

De acordo com Mielki, isso acontece porque a mulher “não consegue desassociar a ideia de que existe um padrão de beleza da realidade dela”. Ou seja, a violência contra a mulher é naturalizada. Internalizada.

Já Rachel Moreno, do Observatório da Mulher, que compôs a mesa junto com Ipólito e Mielki, acredita que além da imposição do padrão de beleza, a mídia violenta as mulheres ao realizar o processo que chama de invisibilidade seletiva. No caso, isto significa não considerar que existem outros tipos de mulheres que não àquelas que são representadas na mídia. Como participante do Observatório da Mulher, organização que luta pela democratização da comunicação, afirmou: “A gente acha que esse controle que é sutil, que é delicado, que é intenso e que realmente pega na gente é uma espécie de controle muito eficaz que eles exercem sobre a população. E eles são meia dúzia de famílias proprietárias dos meios de comunicação”. Concluiu ainda: “Em nome da liberdade de expressão, que é justamente um conceito em disputa política, é que nós reivindicamos um espaço para todo mundo na democratização do acesso aos meios de comunicação e um controle social que garanta que a imagem da mulher, do negro e do índio, por exemplo, seja efetivamente a que reproduza essa pluralidade e essa diversidade. Não seja essa que reproduz os estereótipos e continua alimentando os preconceitos na sociedade, mas que caminhe no sentido de uma igualdade e de uma inclusão”.

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