O CONSUMIDOR (DA CULTURA OSTENTAÇÃO) COMO HERÓI DA MODERNIDADE

funk

Por Fernando Morgato

Análise de Discurso das Músicas “É bem assim que a genta ta[1]; Ostentação e luxuria[2]”, de Mc Tchesko e Menor do Chapa, respectivamente.

[…]a abundancia do consumo ocidental representa um sonho para quase todos os homens, erigindo-se como uma aspiração generalizada, um ideal de vida de dimensão universal. Em nossos países, até os mais desprovidos de recurso interiorizam os valores consumistas e tornaram-se mais ou menos hiperconsumidores, particularmente de imagens e mídias. (LIPOVETSKY, Gilles, 2011, p. 19)

Em pleno fervor do liberalismo e da produção desenfreada, os problemas sociais se afloram e as possibilidades de erigir uma sociedade mais justa e igualitária se esvaiam. Entretanto, “A saída”, um novo ideal de pertencimento e representação surge em meio ao caos urbano e a crise de identidade, o consumo. Apresentado ao cidadão comum, comedido de outrora, o consumo chega como a porta de entrada no mundo das possibilidades. Coloca-se como representante legitimo do levante social e econômico. Esta nova cultura do hiperconsumo evoca uma ideologia perigosa e prejudicial para a Humanidade, pois condiciona seus pensamentos e comportamentos das mais variadas formas possíveis as necessidades e objetivos do capitalismo. Como explicou Pirre Bourdieu (2010, p.11),

É enquanto instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e de conhecimento que os “sistemas simbólicos” cumprem a sua função política de instrumentos de imposição ou de legitimação da dominação, que contribuem para assegurar a dominação de uma classe sobre outra […]

Dentro deste cenário do hiperconsumo, nesta realidade alternativa (mas possivelmente realizável), surge um novo movimento dentro do universo da musica popular nacional. Esta vertente conhecida por seus criadores e adeptos como Funk “Ostentação” exacerba os valores do capitalismo massificando o individualismo e tornando-o o cerne da realização pessoal. Esta categoria exalta e enfatiza o consumo ostensivo, o gozo irrefreável, ou seja, é a cornucópia da cultura hedonista. Estes novos consumidores vangloriam-se das condições materiais que outrora não gozavam e extrapolam na utilização de significantes para afirmar sua nova posição. Em seus discursos, estão todos “Com mansão a beira mar/ Na praia de Guarujá; Porshe cayene (e) 1100 pra cilindrar”. Para estes novos hiperconsumidores o dinheiro tem um papel fundamental no gigantesco universo das possibilidades, suas letras evidenciam as possibilidades (e a forma) de fugir das dificuldades e problemas do cotidiano, como bem afirma Menor do Chapa, o “Dinheiro traz fartura/ E ameniza o sofrimento”.

Os adeptos dessa nova cultura estão sempre “naquele pique/ tipo top sem limite/ Com várias de 100 no bolso/ curtindo só a área vip”. Essa realidade, essa cultura do “Yes we can”, ou como alguns especialistas da teoria do consumo[3]nomeiam “os sem limites”, massificou a ideologia do mercado de consumo de produtos e a lógica do Capital. Na ilusão de que produtos e serviços possam trazer a felicidade e a realização pessoal, ou melhor, de que esses produtos e serviços são a personificação da realização pessoal e a felicidade (vide o Rei do Camarote), a maioria desses indivíduos acabam por serem domados, tornam-se dóceis e creem no conto de fadas da Industria. Dito de outro modo, permitem que o Capital (e todo o sistema composto por este) se tranquilize, pois, enquanto houver alguns milhares que consomem, outros centenas de milhões perecerão à margem e as custas do gozo alheio. O produto, a mercadoria para esses novos hiperconsumidores cria vida própria. Como bem afirmou Marilena Chauí (2008, p. 58), “A mercadoria passa a ter vida própria, indo da fabrica à loja, da loja à casa, como se caminhasse sobre seus próprios pés”. Todos exaltam e buscam a famosa “vida nível A”. Ser cidadão, hoje, é ser consumidor. O Capital, infelizmente, conseguiu inculcar no imaginário das pessoas que o único meio de se conseguir prestígio e reconhecimento social é pela via do consumo, ou seja, tornar-se consumidor. Essa esquizofrenia tornou todas as pessoas fantoches desse sistema simbólico de reconhecimento e valorização. Nas palavras do sociólogo Don Slater (2002, p. 40),

O consumidor é uma personagem esquizóide no pensamento moderno. Por um lado, é uma figura ridícula: um escravo irracional dos desejos materialistas, triviais que pode ser manipulado na direção de um conformismo infantil massificado por astutos produtores de larga escala. […] Por outro lado, o consumidor é o herói da modernidade.

Contudo, a realidade destes novos hiperconsumidores nem sempre foi esta regada de “Ostentação e luxuria”. Como Mc Tchesko faz questão de ressaltar, “Vim de uma quebrada pobre/ Mas minha rica vontade/ Fez correr atrás do corre/ Não seja lock vá em frente que nem eu/ Tive muita fé em deus/ Olha o que aconteceu”. O Mc reconhece que sua antiga condição era simples, por vezes precária, de morador de periferia, e que “Antigamente era só role de bike/ Agora é nave na pista de Amarok”. A situação (social e econômica) da grande maioria desses Mcs antes do sucesso é ruim, muitos atuam como prestadores de serviços, a grande parte deles não consegue alcançar o tão desejado sucesso, e por isso muitos se frustram. A pequena minoria dos artistas que alcançaram o sucesso e a fama ostenta “o tamanha da Mansão/ A grossura do cordão” mostrando que seu reconhecimento se dá por meio do que podem ostentar, apontando explicita e violentamente a desigualdade social e de classes, e para chegar aonde chegaram, dizem eles, “Tem que ter fé e disposição”.

Neste ciclo de sociabilidade descartável todos precisam “renascer das cinzas”, para não desaguarem no limbo do esquecimento. A lógica de Mercado e o sistema do Capital implodiram no imaginário social suas leis e regras de condicionamento de modo que o grau de vigilância hoje (ou seja, o quanto você consome e pode ostentar) é o mais agressivo da história. Nossa mente, hoje, devido as ilusões do Mercado e da Mídia, acaba por não refletir a realidade diretamente, e acabamos por perceber o mundo através das convenções, estereótipos e esquemas, que se entrelaçam de uma cultura à outra. O entrelaçamento, os esquemas, as convenções e os estereótipos criados são regidos pelo Mercado e seus administradores especializados (marqueteiros, publicitários e afins). Eles determinam, como bem apontou Caio Colombo (2012, p. 134), “sua ‘Novilíngua’ econômica, o que as pessoas deverão desejar (comprar o tempo todo) e o que seria considerado ‘crimideia’ (não comprar o tempo todo). Nas palavras da antropóloga cultural Luci Gati Pietricolla (1986, p. 13),

A sociedade de consumo tem como meta fundamental produzir mercadorias, vendê-las, produzir outras, vendê-las e assim num eterno ciclo vicioso envolve todos os homens numa rede de relações sociais, em que o produzir e adquirir mercadorias se tornam o eixo condutor de todas as ações (relações) humanas.

Esta nova cultura, antes a do Consumo, agora, a do Hiperconsumo, não surge do nada, do vácuo social, ao contrário, esta nova cultura surge justa e principalmente da lógica do Capital e do mercado econômico que em suas múltiplas faces analisa o crescimento e desenvolvimento social a partir do quanto cada cidadão consome, e/ou acumula. E todo país preocupa-se com a nota que pode receber do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). E, claro, a mídia tem papel fundamental dentro dessa perspectiva de desenvolvimento a partir do consumo, afinal, basta ligarmos a televisão e o rádio (durante o horário nobre) e analisarmos as frases proferidas pelos apresentadores: “vamos faturar; voltamos já após os reclames do plim plim; fique agora com mais essa oportunidade imperdível”. Todas essas frases compõem, junto ao cenário semiótico da cidade (outdoors, anúncios que gritam em frente às lojas, nos postes, telefones públicos, pulando a cada clique durante uma simples navegação na internet) o universo do Hiperconsumo… A propaganda e a publicidade transformaram o simples ato de consumir em dádiva, num culto eterno ao prazer e a mercadoria. Afinal, toda mercadoria/produto hoje possibilita o cidadão mostrar a sua importância social a partir do que ele consome (e onde ele consome). Este cenário nos permite compreender o porquê desse desejo e necessidade desenfreada por consumo apresentando-nos elementos que nos permita criar formas de resistir e lutar contra essa cultura que perpetua a desigualdade social, possibilitando assim a queda do muro dos marcadores da diferença de classe.

_______________________________________________________________________

Referências

BORDIEU, Pierre.  O poder simbólico. 14 edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

CHOMSKY, Noam. O lucro ou as pessoas: neoliberalismo e ordem global. 5 edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.

COLOMBO, Caio. Hiperconsumo: comunicação, condicionamento e compras das décadas de decisão à década de descontrole. São Paulo: RG Editores, 2012.

LIPOVETSKY, Gilles. A cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

PIETROCOLLA, Luci Gati.  O que todo cidadão precisa saber sobre sociedade de consumo. 2 edição. São Paulo: global, 1986.

SLATER, Don.  Cultura do consumo & modernidade. São Paulo: Nobel, 2002.


[*] A expressão, “herói da modernidade” foi retirada do livro do sociólogo Don Slater, “Cultura do consumo e modernidade”, São Paulo: Editora Nobel, 2002.

[2] Linque com a letra da música: http://www.vagalume.com.br/menor-do-chapa/o-cara-do-momento.html

[3] Noam Chomsky; Nestor Garcia Canclini; Jean Baudrillard; Caio Colombo entre outros (vide referências).

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s