O rei do camarote, a ostentação e a desigualdade

O Rei do Camarote virou piada nas redes sociais, mas o caso é grave (Foto: Reprodução)

Por Thiago Gabriel

A Revista Veja desta semana conseguiu escancarar e glorificar o seu elitismo. A reportagem de capa de Veja SP, o complemento paulistano da publicação, deflagra uma ode à ostentação e ao consumismo. provoca no leitor uma busca incessante pelo padrão performatizado pela revista.

Na matéria intitulada “50.000 reais em uma noite”, o empresário Alexander de Almeida é exaltado por sua capacidade de atrair atenção através da ostentação de seus bens consumíveis. Entre outras coisas, ele demonstra como é uma noite de luxo na capital paulista e ainda oferece os “10 Mandamentos do Rei do Camarote”, onde explica a importância que terá sua vida se você possuir um carro de luxo, cartão de crédito ilimitado e belas mulheres rodeando seu bolso.

Claramente direcionada a um público específico (que possua alguns milhares de reais para gastar em uma noite), a matéria exibe o papel performativo da revista, criando no personagem retratado atrativos que permitam ao leitor reconhecer-se e inspirar-se nele. Dessa maneira a revista exibe “uma apresentação que constrói figuras de sucesso a perseguir que orienta a vida do homem da classe média, um indicador de modos de se conduzir, uma agenda temática de aprendizado”, conforme escreveu José Luiz Aidar Prado, em seu artigo “O Papel dos Vencedores” em Veja.

Esse público específico encontra-se em um momento delicado. Desde que o cidadão paulistano abastado e privilegiado começou a identificar a intromissão de outros segmentos sociais em seus espaços, a situação tem provocado desconforto e revolta dos mesmos.

Não é de hoje que a classe média vive assombrada com o fantasma do favelado. Desde que o indivíduo nascido e criado em uma comunidade passou a enxergar uma possibilidade de ascenção social e acesso aos bens de consumo dos quais a classe média sempre sentiu-se exclusiva, a reação é de desvalorização e necessidade de diferenciar-se destes “intrusos”. Inconformados com o “empobrecimento do ambiente”, cada vez mais essas pessoas tem buscado alternativas as quais essa classe emergente ainda não consegue ter acesso.

É tomando esse gancho que a revista decidiu exibir um contraponto ao seu leitor que encontra-se num beco sem saída, encurralado por esses criminosos invasores do arauto da sociedade de consumo brasileira. Eis que surge “O Rei do Camarote”, um sujeito jovem, bem-sucedido, descolado e rodeado por mulheres e artigos de luxo.

É o “Super-Coxinha”, a salvação para quem não aguenta mais ter de entrar no restaurante e encontrar a sua diarista na mesa ao lado, ou ir comprar uma roupa no shopping e desistir porque achou o público da loja “meio estranho, gente meio feia”. A solução está dada: gastar até estourar o limite do cartão de crédito em uma balada em que nem entra quem não atender aos padrões estéticos do local.

A ideia é deliciar-se e relaxar vendo as fotos de dezenas de garrafas de champanhe acompanhadas de belas mulheres em um camarote privado, com acesso controlado pelos seus próprios seguranças. “Imagina só que bom se eu pudesse escolher quem pode e quem não pode ficar ao meu lado…”, devem ter pensado os mais entusiasmados. A criação do personagem que comanda a noite de luxo paulistana enche os olhos de qualquer leitor de classe média que já estava prestes a mudar de cidade ao ver seu glamouroso território invadido pela população recém-incluída na esfera socio-econômica.

Ironicamente até a ostentação tão característica dos mais ricos perdeu sua exclusividade diante dos novos segmentos de estilos musicais que buscam valorizar o consumo e a exposição de artigos caros. O funk e rap ostentação, como vem sendo chamado, demonstram que a sociedade produzida a partir da acumulação indiscriminada de bens vêm se estendendo por todos as camadas sociais da população.

A revista Veja tentou deliciar os paulistanos com os luxos e privilégios da alta classe em um momento em que os movimentos sociais ganham espaço e adeptos. Em um momento em que as ilhas que separam a classe média dos mais pobres estão tendo suas margens alongadas. Em um momento em que as forças conservadoras se mostram temerosas e tementes por uma solução forte para conter as ruas, que ameaçam seus privilégios. Em um momento em que é melhor esquecer tudo isso e apreciar um bom champanhe.

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