Uma manhã sem Douglas

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Foto Bruno Scatena

Por Harumi Visconti

“Verme! Igual ao que tirou a vida do meu filho!”.

Rossana de Souza foi mais uma mãe a perder seu filho de forma trágica e arbitrária em São Paulo. Seu primogênito, Douglas Rodrigues, de 17 anos, foi baleado “acidentalmente” por um policial que averiguava uma denúncia de perturbação de sossego, no Jaçanã, Zona Norte, no domingo (27).

Estava no lugar errado, na hora errada, sob a mira da arma de um PM.

Neste feriado de Finados, familiares e amigos se reuniram na avenida Mendes da Rocha, no Jaçanã, para organizar um ato em memória do filho, irmão, sobrinho, primo e amigo Douglas Rodrigues – morto pelo principal braço do Estado na periferia: a Polícia Militar.

Naquele sábado ensolarado, cerca de cento e cinqüenta pessoas vestiam camisetas brancas, com o rosto de Douglas estampado. A frase “por que você fez isso comigo?” – pergunta feita por Douglas momentos depois de levar o tiro – acompanhava a foto do jovem.

Flores brancas foram distribuídas para as mulheres e balões brancos de gás hélio para os homens.

Uma enorme faixa laranja com a frase “Por que o senhor atirou em mim?” foi estendida na Avenida, bloqueando momentaneamente o acesso à via. A passeata estava prestes a sair quando um carro-forte desrespeitou o bloqueio e passou por cima da faixa. Por pouco, o automóvel não atropelou os que ali estavam. Vaias e gritos cortaram o breve silêncio na rua.

Foi nesse momento – o único momento em que ouvi sua voz – que a mãe de Douglas, Dona Rossana, conhecida no bairro como Baixinha, gritou uma frase que arrepiou a todos. “Verme, igual ao que tirou a vida do meu filho”. Nenhum dos presentes conseguiria entender a dor daquela mãe. Não há argumento que console. Não há abraço que diminua a dor. E não há paz sem justiça.

A passeata começou pouco depois das 16h. O comércio local estava fechado, mas as pessoas saíam de suas casas para acompanhar o cortejo até a igreja no Parque Edu Chaves. Carros da Força Tática o tempo todo circulavam pelas ruas adjacentes. Os balões brancos contrastavam com o cinza, a cor mais comum do cenário paulistano. As mulheres à frente seguiam cantando músicas religiosas. Fechavam os olhos e cantavam canções sobre um outro mundo, uma outra realidade. Naquele momento, era tudo o que elas precisavam ouvir.

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