Sobre ironia e realidade

Por Otavio Silvares

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Foto: Reprodução

Recentemente um texto de Antonio Prata dividiu opiniões na rede virtual*. A polêmica deveu-se mais à multiplicidade das interpretações do que ao conteúdo em si. Trata-se de uma ironia (hoje admito que muito bem construída) sobre o pensamento do reacionarismo raivoso que contamina a cultura política brasileira.

O interessante foi observar que os comentários variaram entre aplausos tanto da esquerda – que captou o estereótipo – quanto da direita que ingenuamente gratificou o escritor pela “integridade” de suas ideias. Por outro lado as críticas também vieram dos dois setores: uma parte da esquerda que não compreendeu a ironia atacou Prata (inclusive este que vos escreve), enquanto a diminuta ala da direita esclarecida se sentiu ofendida com a brincadeira.

De minha parte posso dizer o que me ocorreu para criticar o autor. Recentemente fui exposto a tantas ideias grotescas do reacionarismo espumante, que me sinto insensibilizado por ironias como as de Prata, que as exponham e critiquem. Nada mais me surpreende.

Marco Feliciano considero a primeira dessas anomalias intelectuais aberrantes. Uma verdadeira ironia ambulante que, no entanto, está lá nos altos escalões da política onde nunca deveria ter chegado. Outras bizarrices chegam a assumir contornos mais patológicos do que políticos, como é o caso do blog “Homens de Bem” (por Deus não achei o link), que defende abertamente o extermínio de homossexuais e a escravização da mulher como gênero inferior e serviçal ao homem. Tem também aquelas de que até deus duvida, como o rapaz possuído por uma entidade demoníaca que faz discursos à favor de Edir Macedo, referindo-se diretamente ao bispo e até ao Ministério Público.

A lista de obscenidades é tão vasta quanto as leituras que se fazem delas. Alguns dão de ombros, outros se indignam em face dessas anomalias intelectuais, mas há ainda aqueles que compram tais discursos com a mesma convicção dos fiéis evangélicos ao pagarem seus dízimos. Por ter sido aplaudida – ainda que à revelia – pelo ultra-conservadorismo, a ironia de Antonio Prata pode não ter tido o êxito que se espera de uma ironia, mas teve o enorme mérito da ambiguidade. E não estamos falando aqui daquele relativismo estúpido que me permite chamar uma melancia de banana se eu assim achar que deve ser. A ambiguidade aqui reflete o panorama real da cultura política nacional, o verdadeiro jogo de forças em nosso ringue ideológico.

Ainda que bem claras, num mundo de tantos absurdos as ironias talvez estejam perdendo sua força de criticar através de estereótipos. Mas quem sabe ganhando outra função igualmente importante: a de denunciar, intencionalmente ou não, uma realidade surreal e perversa que já não nos permite mais reconhecer uma ironia.

*http://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2013/11/1366185-guinada-a-direita.shtml
** http://www.youtube.com/watch?v=0d4qoPNszys

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2 responses to “Sobre ironia e realidade

  1. Identifiquei a ironia de primeira.
    A incapacidade de identificá-la não é fruto do contexto atual (de tantos absurdos reais), como defende a interpretação auto-condescendente do autor, mas da ignorância/dificuldade cognitiva do leitor, seja de direita seja de esquerda (a burrice está em ambos os lados).

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