Nosso sistema de produção e consumo de alimento é insustentável. Motivo? Ao terminar de ler esse título, uma criança terá morrido de fome no mundo.

Por João Previattelli

O modelo de alimentação promovido atualmente falhou da produção ao consumo. A ONU estima que anualmente jogamos fora 1,8 bilhão de toneladas de alimento, ou seja, um terço de tudo que é produzido. O sistema capitalista que mercantiliza o direito ao alimento assassina uma criança a cada cinco segundos no mundo. Por dia, 56 mil pessoas são mortas pela fome. 1 bilhão de pessoas são permanentemente subalimentadas.

Dados da FAO mostram que seria possível alimentarmos 12 bilhões de pessoas por dia com 2,2 mil calorias. Produzimos quase duas vezes mais do que o necessário (visto que a população mundial é de 7,2 bilhões de pessoas), continuamos aumentando nossa produção, desperdiçando recursos hídricos e energéticos, e ainda comemos alimentos com baixo valor nutricional e cheios de agrotóxicos. Quando tratamos da humanidade, o sistema falhou em garantir nossa sobrevivência.

Grande parte do alimento produzido no Brasil se perde durante sua cadeia produtiva. Em uma estimativa realizada pelo Instituto Akatu (2003), aproximadamente 64% de tudo que se planta no Brasil é perdido ao longo de sua cadeia produtiva, como pode ser visto no quadro abaixo.

hortas

A lógica de consumo imposta afasta os locais de maior consumo da produção, desenvolvendo um desnecessário sistema onde toda a produção ocorre nos chamados “cinturões verdes”, zonas de plantio periféricas para alimentar as grandes cidades. Para exemplificar, bastar pensar em São Paulo: cidades como Cotia e Ibiúna são responsáveis por plantios de hortaliças que são transportadas em caminhões para centros de distribuição como o CEASA e os mercadões. As frutas, por exemplo, chegam a vir de outros estados por rodovias precárias.

Se a mudança desse sistema é algo longe da realidade social e pautas políticas, adaptações do ambiente urbano para a produção de alimentos têm sido utilizadas com sucesso em diversos países. Ao assumirmos a atitude de produzir uma horta caseira, passamos a criar novos hábitos de consumo, estabelecemos uma nova relação com o alimento que consumimos.

A aproximação do individuo com o alimento que consome é objeto crescente de estudo nas universidades. Igor Nogueira Jacob, Pedro Mello Bourroul e Tomás Maurício Almeida Carvalho, membros do Nheengatu – Núcleo de Agroecologia Esalq/USP, trabalham diretamente com a questão, e exemplificaram alguns benefícios da prática no cotidiano das grandes cidades: “A elaboração de horta é uma terapia muito positiva para a mente e corpo humanos. Ao longo do último século se inventou o distanciamento entre alimento e remédio, fato muito estranho. O cuidado com o corpo começa pelo cuidado com a alimentação, e a produção do seu próprio alimento é o melhor jeito de ter certeza do que está ingerido”.

A maior dificuldade para quem produz seus alimentos nas grandes cidades é manter a qualidade em meio a fontes difusas de contaminação: “Qualquer metrópole apresenta índices altíssimos de poluição e estes são ainda mais elevados em São Paulo. É possível também plantar em hortas suspensas (vasos ou jardineiras), elevadas do chão, onde se controla a qualidade do substrato (base) que é utilizado”.

Como cada região possui dificuldades e facilidades locais, não existe uma “receita” para a realização das hortas. Entretanto, sua eficiência já pode ser notada em diferentes lugares: “em Piracicaba, onde vivemos, há cerca de 80 hortas urbanas e algumas iniciativas de compras coletivas para estimular a produção orgânica e a participação do consumidor. O sucesso dessas hortas, como o hortão da Casa Verde em São Paulo, é a prova viva de que elas são sim viáveis economicamente”.

Da produção ao consumo, do plantio ao preparo. Os moradores de centros urbanos podem fazer de sua alimentação não apenas um objeto de consumo, mas um hábito saudável. Se por um lado ainda nos é imposto um modelo de globalização que visa padronizar nosso cotidiano, há um crescente movimento de resgate de culturas tradicionais onde assumimos não sermos meros consumidores. Abandonados pelas políticas públicas e modelos governamentais, a alteração dos paradigmas de consumo existente no nosso cotidiano está mudando em diversas atitudes individuais. Cabe também a nós mudarmos. Revolucione-se.

*Esta matéria foi baseada em uma entrevista elaborada coletivamente pelos membros do Nheengatu (Núcleo de Agroecologia Esalq/USP):

  • Igor Nogueira Jacob
  • Pedro Mello Bourroul
  • Tomás Maurício Almeida Carvalho

Para saber mais sobre o assunto, benefícios das hortas orgânicas, modos de fazer e as bases para o preparo, acesse a entrevista completa aqui.

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