Os antigos, os novos e o hoje: Movimentos sociais e uma geração

Por João Previattelli

Vivemos um período de transição. Passado o marasmo da primeira década dos anos 2000, uma série de manifestações se espalhou pelo mundo em uma sequência nunca vista. Em três anos vimos protestos pela educação no Chile, anticapitalistas nos Estados Unidos e Europa, pelo direito ao transporte no Brasil, entre outros tantos que explodiram nas praças e locais públicos. Jovens tomaram os espaços públicos que haviam sido negligenciados nas gerações anteriores e os ocuparam com barracas e inflamados discursos. Todos que se discordavam do sistema saíram às ruas e mostraram que não são poucos. Parece que então assumimos a responsabilidade de desenvolver um novo espírito para o nosso tempo, um zeitgeist novo e mais esperançoso.

Com a sociedade civil organizada não foi diferente, pois encontrou um novo cenário onde a movimentação popular ascendeu paralelamente a setores conservadores e retrógrados. Um novo campo de disputa política se instaurou, onde nem a esquerda ou a direita tradicional conseguem apoio popular. Para o uruguaio Raul Zibechi, escritor e pesquisador de movimentos sociais, “este é um período de mudanças que não sabemos até quando vai durar, mas que não vai deixar nada para trás. Internacionalmente, a tensão é de continuarmos a ver a queda dos EUA e a ascensão de novos atores. Eu acho que não serão imperialistas como antes, mas também não podemos descartar esse tipo de ascensão em países como China ou até Brasil”.

A conversa ocorreu durante o Seminário Internacional – A Sociedade Civil Organizada e o Processo Democrático na América Latina. A dimensão global dos movimentos tomou forma também entre os palestrantes; um mexicano e um uruguaio. Para Jorge Balbis, presidente da Asociación Latinoamericana de Organizaciones de Promoción al Desarrollo (ALOP), “existem não só novos, mas também novíssimos movimentos sociais”.

Os debatedores também levantaram possíveis rumos para os movimentos atuais: Jorge afirmou que “movimentos como o movimento sem teto ou até o MPL são filhos dos lutadores sem terra, mas nas cidades e de outra geração. Por isso está surgindo algo que parece um ciclo de novos protestos no mundo, com alguns pontos em comum, como: o horizontalismo; o federalismo (no âmbito de ação, atuam coordenados em diferentes estados); o apartidarismo, o que não significa serem contra partidos”. Já Jorge acredita em novos rumos para os novos movimentos: “Nesse sentido, eles não sentem a necessidade ou a intenção de permanência, nem passam por processos que historicamente os movimentos sociais atravessaram.”

A discussão sobre as últimas manifestações costumam passar pela presença das redes sociais como mecanismo de comunicação e convocatória. Entretanto, Jorge ressalta a utilização pela direita dos mesmos meios com a mesma intensidade: “Temos como exemplo as enormes manifestações organizadas pela direita francesa contra o casamento gay”. A relação entre as bases da direita e esquerda assumiram um novo espaço de debate, sem limites para agressões ou movimentos extremistas: “Estamos em um momento de disputa entre diferentes agentes e suas agendas, onde todos tentam legitimar suas reinvidicações”.

No Brasil, os protestos não cessaram, mas de certa forma migraram. Agora de maneira mais difusa e com diversas pautas regionais, as manifestações começaram a se espalhar pelas periferias dos grandes centros. 2014 se anuncia como um ano de mudanças, sobretudo pelos eventos internacionais que o país irá receber, sob o protestos de milhares de pessoas. Resta saber como será a construção do novo espírito do nosso tempo.

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