Autônomos Futebol Clube: anarquia e resistência

Por Paulo Motoryn, Pedro Ferrari e Victor Labaki

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Autônomos F.C. conquistou a Taça Aziz Vanzolini de 2013 (Foto: Paulo Motoryn)

“Dizia Emma Goldman que se não pudesse dançar não seria a sua revolução. Pois bem: se não podemos jogar, não é a nossa”. É assim, transformando o futebol em fator de luta social e atuação política, que o Autônomos Futebol Clube consegue caminhar na contramão das demais equipes de várzea e ganhar cada vez mais notoriedade nos campos de terra da capital paulista.

Em meados de 2006, um grupo de fanáticos pelo futebol, e com inspiração anarco-punk, cunhou o nome da equipe em homenagem ao movimento autonomista, surgido na Europa no século passado. Fiel ao espírito revolucionário do marxismo, mas renegando o poder das burocracias sindicais e partidárias, o autonomismo significa se manter à margem do modo de vida dominante imposto pelo capitalismo.

Como buscar alternativas à realidade imposta é o primeiro passo para estigmatização e preconceito, não é difícil entender porque os jogadores da equipe são jocosamente chamados de “roqueiros da Lapa” ou “doidões anarquistas” pelos adversários. Para romper paradigmas, buscar o feixe de resistência na equipe varzeana e entender sua dinâmica, a reportagem acompanhou algumas partidas do Auto – como é carinhosamente chamado –, do apito inicial ao churrascão de comemoração.

A militância do Autônomos começa antes mesmo da bola rolar. Privilegiando sempre a disputa nos enlameados campos de várzea, a equipe costuma jogar no Bento Bicudo, campo vizinho à Marginal Tietê, na Lapa, e dentro da comunidade Bicudão. Fazendo apologia aos campos de terra, que estão sorrateiramente sendo eliminados da paisagem paulistana, o Auto consolida sua luta contra a especulação imobiliária, que, além dos campos, inferniza e incendeia os mais pobres.

O uniforme mais tradicional do time também exemplifica a ideologia do Auto: suas cores são o vermelho e o preto, dispostos de maneira exatamente igual a bandeira usada pelo movimento anarcossindicalista em todo o planeta. Mesmo assim, engana-se quem pensa que a luta política da equipe acaba nas faixas libertárias e antifascistas que são penduradas no gramado antes dos jogos.

Além de reacender o debate sobre o anarquismo, levando seus símbolos e suas ideias para os mais inóspitos campos de várzea da cidade, o time possui uma atuação muito forte fora das quatro linhas. Organizados, estão presentes em diversos atos, manifestações e protestos. Desde mobilizações contra a realização da Copa de 2014 até as manifestações contra o aumento da passagem de ônibus.

O Auto possui uma relação íntima e profunda com diversos movimentos sociais, dentre eles o Movimento Passe Livre, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, o Comitê Popular da Copa, entre outros. Ao fim dos jogos do time, que se reúne todos os sábados, não é difícil ver camisetas, conversas e menções aos mais diversos coletivos e movimentos políticos da cidade.

Foi em uma manifestação promovida pelo Passe Livre em junho deste ano, que um dos seus jogadores ficou detido por 3 dias e só foi liberado após o pagamento de uma fiança de aproximadamente 5 mil reais. Motivo de vergonha para a equipe? Que nada. “Em 2011, fizemos embaixadinhas na frente da Tropa de Choque da Política Militar em um dos momentos mais tensos do protesto”, relembra Matusa, um dos fundadores e mais experientes jogadores do Auto.

Além obviamente da crítica à violência estatal por meio da Polícia, as bandeiras defendidas pelo Autônomos são claras: a luta contra o racismo, o machismo – o Auto já atuou diversas vezes com equipes mistas –, e as demais opressões que constituem o preconceito dentro do futebol e também em toda a sociedade.

A homofobia também é um ponto discutido pela equipe. Quando, neste ano, o atacante Emerson Sheik, do Corinthians, foi bombardeado de críticas por ter publicado uma foto dando um selinho em um amigo, o Auto não deixou por menos: logo viralizou na internet um retrato de dois jogadores do elenco se beijando, em claro gesto de solidariedade à causa.

Em função de uma viagem à Inglaterra em 2008, custeada por um time com inspiração política similar de Bristol, conheceram uma casa que sediava o clube inglês e voltaram determinados a ter o seu próprio espaço. Foi assim que surgiu a Casa Mafalda. Localizada na Lapa, é um espaço sócio cultural autogerido que promove debates, discussões, festas e oficinas.

Hoje em dia, a gestão da Casa Mafalda se divide entre diversos coletivos anarquistas, não mais apenas o Autônomos, mas ainda sedia diversos encontros da equipe rubro-negra. Um dos jogadores do time, contudo, mostra preocupação: “A Veja publicou uma matéria sobre os black blocs e o repórter disse que esteve em uma festa na Mafalda, o que muito nos assusta”, disse um dos atletas, fazendo menção ao caráter pouco popular da revista semanal.

O modelo adotado pelo Auto também é o da autogestão, ou seja, não existe hierarquia dentro do time e todos cooperam, para fazer o time continuar existindo e resistindo.

A várzea resiste 

A várzea, celeiro de muitos craques brasileiros, não é o palco ideal para o gingado perfeito ou para lances de mágica com a bola nos pés. Salários, direitos de imagem, empresários, nada disso existe nos campos e terrões castigados da várzea. O futebol mercantilizado não passa pela grade do Bicudão.

Na final da Taça Aziz Vanzolini, conquistada pelo time rubro-negro após vitória por 1 a 0 sobre o IME, da USP, a reportagem presenciou uma discussão entre um membro do time e um torcedor na arquibancada. Entendendo que a torcida estava exagerando nas críticas ao juiz da partida, um jogador do Auto mandou sua pequena legião de fãs calar a boca. Em resposta, ouviu: “Joga bola sua besta quadrada”. Ao fim do jogo, os dois se abraçaram e comemoraram o título como se aquela tivesse sido mais uma cena de um espetáculo inóspito.

O sentimento pelo título, após anos de esforço, emocionou os jogadores: ‘’Vocês não tem ideia de quantos sábados perdemos sorrindo, ainda em um espírito nem tão competitivo, para chegar aqui. Apesar de ser várzea, é sério. Isso é um sonho realizado’’, disse Matusa.

A várzea é uma ferramenta de resistência ao futebol subordinado às imposições do mercado, da televisão e do dinheiro. O Autônomos, por sua vez, uma incansável trincheira contra o que chamam de geração Neymar: “Outro dia tivemos que passar fita isolante na chuteira de um dos jogadores. Acredita que ele veio jogar de chuteira amarela? Maldito futebol moderno”, lembra um atleta.

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