Um papo com Rael: a música entre o mercado e a independência

Rael e a luta contra as imposições do mercado (Foto: Sérgio Carvalho)

Rael e sua luta contra as imposições do mercado (Foto: Sérgio Carvalho)

Por Bira Iglecio

A música independente é resistência ao sistema de mercado, que usa e abusa da arte. Theodor Adorno, filósofo alemão da escola de Frankfurt, teorizou sobre a Indústria Cultural, que busca na arte a obtenção de lucros, reforçando certa ideologia através de diversos meios de comunicação de massa, incluindo a música.

A indústria fonográfica, que trata de transformar a cultura em algo consumível, não é apenas uma fábrica de músicas, mas, sim, um mecanismo perfeito para uma sociedade do controle, afinal, após ser filtrada e, muito provavelmente neutralizada pelo mercado, as mensagens e discursos construídos na música passam a carregar consigo o objetivo de gerar um impacto positivo no mercado – o que acaba tendo implicações claras no resultado final.

No Brasil, a indústria fonográfica ditou por tempos o modo de produção e o estilo musical dos artistas. Uma espécie de produção fabril era quem regrava a música brasileira. Era comum o artista lançar um disco e, se não fizesse a gravadora multinacional enriquecer, era colocado na “geladeira”, no banco de reservas da empresa, que prezaria em produzir outro artista, um que daria dinheiro.

É aí que se encaixam os “tchetcherêrês” do sertanejo universitário e outros sons descompromissados com o impacto sócio-cultural de suas produções. Em contrapartida, nos últimos anos, houve uma explosão do cenário independente no Brasil. Alguns artistas conseguiram deixar de ser subordinados à gravadoras e voltaram à moda antiga de se produzir.

O músico independente, além de fazer o show e compor suas canções, precisa imprimir flyers, distribuir folhetos anunciando shows, procurar onde tocar. Com a explosão de bandas independentes, a visibilidade que o cenário underground ganhou foi grande. Usando a internet, artistas independentes conseguiram compartilhar suas músicas, expondo-as para o público através de sites com YouTube e Facebook.

Rael, ex-integrante do grupo de rap Pentágono, e, hoje, levando carreira solo, é um exemplo dessa explosão do cenário independente. Esse boom da cena alternativa, em 2011, deu visibilidade a muitos artistas e gêneros musicais diferentes, e um dos que mais crescia e ganhava visibilidade era o rap.

Criolo, Emicida, Rael, Projota, Rashid, dentre outros, foram os maiores destaques musicais no ano de 2011. Nesse ano, Rael fazia participação no álbum Dozicabraba e a Revolução Silenciosa, de Emicida. Hoje, o rapper Rael, que lançou recentemente seu segundo CD Ainda Bem Que Eu Segui As Batidas do Meu Coração, teve sua música “O Hip Hop é foda” interpretada por Caetano Veloso e Emicida no prêmio Multishow.

O compositor, que atualmente vive de música – sim, isso é uma conquista para um artista independente -, conversou com a Revista Vaidapé e discutiu o universo da música independente, contou episódios de sua carreira, além de um interessante debate sobre a indústria cultural, sobre as imposições do mercado, da televisão…

Leia a entrevista completa:

VAIDAPÉ: O cenário do rap sempre foi muito presente na cultura da música independente. Hoje, podemos perceber que na explosão da cena independente brasileira recente, muitos rappers ganharam destaque, o que você acha disso e como evitar que o rap perca seus valores e se torne mainstream com a visibilidade?

Rael: Eu acho maravilhoso o aumento de espaço… A música rap sempre teve uma certa resistência aos meios de comunicação, a alguns programas de rádio, TV etc… Mas agora isso mudou porque o mundo mudou, a internet de certa forma aproximou as classes e os ritmos. Em meio a isso tudo temos que dar visibilidade ao nosso trabalho, à nossa música. Essa mensagem que passamos tem que chegar a mais pessoas. A gente sempre se escondeu tanto e o nosso mercado sempre foi tão pequeno que quando passamos por cima dessa barreira da resistência a alguns meios de comunicação o rap apareceu mais. Porém ele ainda está longe de ser reconhecido como um ritmo realmente popular para o grande público. Precisamos crescer? Sim. Temos que ganhar dinheiro? Sim, não é pecado ganhar dinheiro fazendo música, e sinceramente ainda não entendo as pessoas que acham que a gente não deveria ganhar, que falam que estamos nos vendendo porque fomos em tal programa de TV. Ouvir música é uma coisa, viver dela é um universo totalmente diferente. Eu também acho que temos que ter cautela, sim, pra não banalizar o rap. E como fazer isso? Não perdendo a essência, não deixando de ser quem somos independentemente do lugar onde estivermos.

VDP: Sabemos que viver de música no Brasil ainda é complicado. Alguma vez já viveu apenas de música?

Rael: Sim, é muito complicado. Hoje em dia vivo só de música, graças a Deus e a muito trabalho. Mas durante muito tempo tive um outro trabalho paralelo à música pra segurar o reggae com as contas e tal. Decidi viver só de música quando comecei a gravar o meu primeiro disco solo, MP3, lançado em 2010. Mas era como se eu tivesse dois trabalhos porque paralelamente ao disco eu trabalhava com o Pentagono. Só assim eu conseguia ter uma renda semelhante ao que ganhava quando trabalhava com outra coisa sem ser música.

VDP: Recentemente, o Emicida cantou parte de uma música sua que foi baseada na música “A bossa nova é foda” no prêmio multishow, ao vivo. “O hip hop é foda” gerou grande repercussão e teve gente que afirmou que você superou Caetano. Como você encara tudo isso?

Rael: Encaro tudo isso com muita felicidade, fiquei emocionado quando o Emicida e o Caetano cantaram um trecho dela no Prêmio Multishow e mais emocionado ainda quando encontrei o Caetano e ele me falou que gostou bastante da versão que fiz inspirada na música dele. Eu não acho que superou a dele, não. Minha intenção nem foi de superar nada, foi mais de homenagem, fruto de uma inspiração na música dele e de uma necessidade de falar musicalmente da importância que o hip hop teve na minha vida. Acabou que deu certo e repercutiu bem (risos).

VDP: Você acha que se colocar como uma banda independente vai além da forma de produção e distribuição das músicas? Se torna uma atitude de confronto com relacao a mercantilizaçao musical? E como é a atitude das rádios brasileiras quanto ao artista independente?

Acho que ser independente é uma opção, e normalmente quem opta por ser independente são os que carregam disposição consigo, que arregaçam as mangas. Mas é preciso estar ciente de que será mais difícil porque é você por você, se der certo, mérito seu, se der errado, falha sua também (risos). É um trabalho que tem que ser levado a sério e não acho que é confrontar, é apenas acreditar que o que uma gravadora está te oferecendo você pode fazer sozinho, mesmo que em menor escala, saca. Digo que não é um confronto porque o mercado musical de hoje possibilita que o músico independente troque figurinhas fazendo parcerias com gravadoras de distribuição, por exemplo. Agora, quanto às rádios, algumas tocam nossas músicas quando um ou outro apresentador ou DJ curte o som e tals. Mas entrar na programação das grandes rádios, não importa se você é independente ou não, ainda é um processo tortuoso.

VDP: Como foi a sua saída do Pentágono e como isso refletiu na sua carreira solo?

Rael: Na verdade, eu nunca saí do Pentagono, apenas me afastei pra me dedicar à turnê do meu disco #Aindabem. Quis fazer diferente de quando lancei meu primeiro disco solo. Naquela época eu conseguia me dedicar nem ao Pentagono nem a ele direito. Dessa vez foquei no disco e a repercussão graças a Deus foi boa. Só que dessa vez, no meio do caminho da minha turnê e da turnê do Pentagono com o disco “Manhã”, eles decidiram por um ponto final na história e também seguirem suas carreiras solo. Mas continuamos amigos e nunca deixaremos de ser.

VDP: Como foi se apresentar no Som Brasil, da TV Globo, fazendo releituras de Vinicius de Moraes, com o rapper Criolo?

Rael: Foi sensacional, gosto muito de Vinicius e estar la há uns anos, onde o rap nem imaginava estar, foi indescritível. Eu, o Criolo e o Terra ficamos muito felizes na época e até hoje as pessoas comentam comigo sobre isso, sobre a gente ter colocado nossas ideias em rimas em cima da obra de Vinicius.

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