Até tu?

Por João Previattelli

As redes sociais foram criadas para ser uma forma de interação moderna, à distância (ao menos foram vendidas dessa forma). Mas assim como nossa sociedade, logo se apropriou de sua moral machista e julgadora. Um aplicativo atual seguiu as mesmas direções. O Lulu promove a atribuição de notas em diferentes quesitos dos homens, e chega ao Brasil após fazer sucesso nos Estados Unidos.

O aplicativo para smartphones Lulu é de uso quase exclusivo para as mulheres, os homens podem no máximo mudar alguns dados de perfil. Nele, somos julgados por nosso comportamento em encontros (pagar a conta aparece como algo positivo) e desempenho sexual, tudo isso publicamente. Não que isso não aconteça na intimidade dos círculos de boteco, por homens, mulheres, gays, trans, travestis, etc.. Entretanto esse aplicativo é público, e qualquer um pode saber o que as outras pessoas acham de você. Digo “outras pessoas” porque não necessariamente essa pessoa foi para a cama com você, basta ela ser mulher e você homem. Os julgamentos aos quais os homens podem ser classificados, inclusive com hashtags, não abrem possibilidades de identificar ou denunciar homens que assediam mulheres, por exemplo.

O feminismo busca igualdade de direitos entre os gêneros, e não da opressão. A intimidade fica ainda mais exposta em um aplicativo onde somos julgados por pessoas que simplesmente estão em nossa lista de contatos, não importa se nunca tivemos qualquer tipo de relacionamento com ela. Se existe algum aplicativo que propusesse o contrário, seria igualmente ridículo julgarmos as mulheres dessa forma. O Lulu também se limita à relação heteronormativa entre homens e mulheres, visto que as notas não podem ser atribuídas a pessoas do mesmo sexo.

Lulu têm sido defendido em alguns blogs como um aplicativo feminista, mas quando um homem tenta cancelar seu perfil (visto que se ele tem perfil no Facebook automaticamente tem um no aplicativo) é alertado das vantagens de manter sua conta: “Remove your profile from Lulu: ‘Just so we understand: we’re offering you access to more than one million girls – girls who are here specifically to look at you, talk about you, and give you attention – and you’re not interested. You have better things to do. You’d rather be somewhere else. We get it. Really. That doesn’t sound crazy at all”*¹. Para os homens, o aplicativo vende a atenção das usuárias como o maior atrativo, oferecendo uma vitrine social de forma extremamente apelativa.

A visão do homem objeto também é propagada pela mesma mídia que perpetua o machismo. Revistas como MensHealth nos vendem a obsessão por um corpo perfeitamente musculoso, além de 32 dicas incríveis para “pirar” a mulher na cama. Nas novelas temos a mesma visão estereotipada. Da mesma forma que não existe prisão com liberdade, as conquistas de gênero devem sempre ser consideradas conquistas coletivas, da humanidade, assim como os retrocessos.

O empoderamento da mulher é uma questão necessária, talvez uma das principais barreiras para ser superada. Entretanto ele não pode ser atingido pela exposição pública da intimidade de outros homens. Qualquer aplicativo que promove uma exposição pública através das redes sociais, a objetificação do ser humano, seja de homens ou de mulheres, não pode ser considerado uma mera brincadeira ou uma simples ferramenta de comunicação.

*¹ “Remover o perfil de Lulu: Só para entender: nós estamos oferecendo-lhe acesso a mais de um milhão de meninas – meninas que estão aqui especificamente para olhar para você, falar sobre você, e dar-lhe atenção – e você não está interessado. Você tem coisas melhores para fazer. Você preferiria estar em outro lugar. Nós entendemos. Sério. Isso não parece algo louco”

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