O pacifismo de sofá

Por João Marcos Previattelli

Foto: Gabriela Batista [FotoEnquadro]

Foto: Gabriela Batista [FotoEnquadro]

Black bloc é uma tática de manifestação com um forte apelo estético. Entre as diversas particularidades que compõem essa forma de protesto estão os ataques a estabelecimentos que representam a manutenção do sistema, como grandes multinacionais e bancos. O confronto com as forças de segurança, como a Polícia Militar, ocorre muitas vezes em consequência da tática, mas também é uma forma de defender outros manifestantes da violência policial, retardando as investidas com barricadas.

Passados alguns meses das maiores manifestações, muitos dos que estavam na rua voltaram para o computador. Entre aqueles que continuaram a protestar em espaços públicos estavam muitos dos adeptos ao black bloc, agora com a atenção voltada para eles. Os gritos de “sem violência” tomaram conta da internet e da mídia, ganhando inclusive o respaldo do governo a partir da lógica: “Pode protestar, mas pacificamente”.

Já se passaram seis meses desde as manifestações de junho e os gritos pacifistas continuam a encher as redes sociais e esvaziar as ruas. Há aqueles que criticam de forma veemente formas de ação direta e há os que temem e se assustam com a tática – em grande parte pelo terrorismo da mídia, não por uma postura violenta dos black blocs contra os demais manifestantes. Mas o fato é: a deslegitimação da ação direta e o discurso pacifista são usados como um amaciante para a consciência, um sonífero perfeito que garante o sono de quem não quer acordar.

O discurso pacifista é conivente com o poder quando não medido. A revolução indiana liderada por Gandhi é citada como uma prova histórica da viabilidade do pacifismo como forma de protesto e alteração de paradigmas. Entretanto, a revolução pacifista só foi possível a partir do sacrifício individual de uma parcela da população indiana, incluindo o próprio Gandhi e sua família, que através da desobediência civil colocou sua liberdade e integridade física para a vitória da causa. As rígidas e humilhantes leis tiveram uma resposta de força igualmente grande. Posso estar enganado, mas não vejo essa entrega dos ávidos pacifistas da internet.

Mahatma acreditava na “ahimsa” (do sânscrito: não ferir), uma prática de abdicação total, principalmente da própria violência. Entretanto, assim como o Gita, Gandhi era adepto da ação, recusando-se por completo a aceitar qualquer conformismo a leis ou práticas que iam contra a dignidade do ser humano. O pacifismo não poderia nunca ser utilizado como um discurso para deslegitimar uma forma de ação, mas sim como um meio alternativo, viável desde que submetido ao próprio sacrifício.

Hoje são estimadas 7,2 bilhões de pessoas no mundo. É impossível pensarmos em um modelo de revolução ou quebra de sistema aplicável a todas as culturas e sociedades. Modelamos nossas ações baseados em morais ficcionais, que só serão quebradas a partir de novas formas, encontradas a partir das necessidades e dificuldades do nosso tempo. E Gandhi acreditava nessa busca: “Devemos procurar um meio termo entre a liberdade individual e a limitação social”.

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